Não é um mito nem um sonho

Quando Jesus morreu na cruz, foi tão grande o seu amor, que compensou todos os males do mundo e todos os pecados dos homens. Ao mesmo tempo, o amor com que Jesus se ofereceu ao Pai foi tão grande, que a sua alma, mesmo separada do corpo, foi totalmente envolvida ou inundada pelo poder da sua divindade, que até então estava como que escondido, e ficou totalmente luminosa e gloriosa.

Os méritos infinitos da Paixão de Cristo reconciliaram os homens com Deus e abriram à humanidade as portas do Céu. Até então ninguém podia entrar na eternidade de Deus. A vida acabava na morte, e após a morte os seres humanos, que sempre tiveram uma alma imortal, mergulhavam na sombra. O destino dos homens era uma vida na sombra, após a morte.

Mesmo os santos e justos ficavam simplesmente à espera de que reabrissem as portas do Céu, mas não sabiam nem quando, nem como.

Mas Deus quis que a alma gloriosa de Jesus, que sempre esteve unida à sua divindade, se unisse de novo ao seu corpo. E então aconteceu a ressurreição~ Quando falam da ressurreição de Jesus, os Evangelhos e também S. Paulo apresentam-na como um facto, um acontecimento real.

Bento XVI disse-o com grande força na sua Mensagem do Domingo de Páscoa de 2009: "Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível: Jesus de Nazaré, filho de Maria, que ao pôr-do-sol de Sexta-feira foi descido da cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo".

Com a ressurreição, toda a dimensão humana de Jesus Cristo foi glorificada, não só a sua alma, mas também o seu corpo, e por isso Jesus adquiriu uma nova liberdade, uma nova presença à história dos homens. Jesus não é de ontem, nem só de hoje, é de todos os tempos!

Alguns tiveram a graça de O ver: primeiro viram o seu túmulo vazio, e depois viram o próprio Jesus, como conta o Evangelho de S João.

Este evangelista escreve com grande emoção: "Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor". E hoje, aqueles que acreditam com base no seu testemunho, partilham também da sua alegria.

Pela fé, saímos da sombra, desse não saber nada sobre nós mesmos e sobre o sentido da vida, e sentimos a grande alegria de a nossa vida ter passado a ser um dia de sol, mesmo com nuvens!

Bento XVI, na sua Mensagem de Páscoa do ano passado, disse que "uma das questões que mais angustia a existência do homem é precisamente esta: que há depois da morte?"

Pela fé, sabemos o que há depois da morte: Deus. E sabemos o que há antes da vida, ou melhor, no fundamento da vida, do mundo, do universo: Deus.

Este saber decisivo, que nos tira da sombra, leva-nos a amar a Deus e a prestar-lhe um culto "racional" como diz S. Paulo (Romanos 12, 1), quer pela divina liturgia que celebramos, quer pela beleza dos espaços sagrados, pequenos ou grandes, que reservamos para a oração.

Este saber decisivo torna-nos também mais despertos para os outros. Não podemos mais viver na indiferença, queremos viver no amor.

Com os primeiros cristãos de Jerusalém, aprendemos a partilhar. Em tempos de crise, é preciso partilhar mais, mas em todos os tempos temos gosto e desejo de pôr ao serviço dos outros tantos dons que recebemos, materiais, culturais e espirituais.

 

Com votos de Feliz Páscoa e a sincera amizade do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira