A remodelação do espaço litúrgico da Igreja dos Jerónimos
Quando, em 1979, se instalou um estrado de madeira forrado a alcatifa, sobre o qual se colocou o altar para a celebração da Eucaristia na Igreja dos Jerónimos, não se pensou, certamente, que se trataria de uma solução definitiva. Apenas se visou dar resposta a uma necessidade urgente, que era a transmissão televisiva, para toda a Europa, de uma grande celebração eucarística, que foi presidida por Sua Em.ª o Senhor Cardeal Patriarca, D. António Ribeiro.
Foi, nessa altura, uma solução funcional, mas, há que reconhecê-lo, um tanto destoante, até pelos materiais usados, da sublime beleza desta sinfonia de pedra que é a Igreja dos Jerónimos.
Com o passar dos anos, este estrado começou a sinais de desgaste, não apenas no referente à alcatifa que o cobria, mas também em relação à própria estrutura de madeira, que em alguns pontos revelava fragilidade, e que não faria sentido tentar nesta fase reparar ou substituir.
A zona da presidência tinha a sua base já partida em vários pontos, e por isso foi removida primeiro, e havia partes mais usadas em que a madeira, coberta pela alcatifa, ameaçava poder vir a ceder a curto prazo, com riscos para quem por lá passava ou por lá circulava para desempenhar diversos serviços litúrgicos.
Que poderia ser feito?
Em primeiro lugar, para devolver ao espaço celebrativo a sua máxima dignidade, e também para evitar os riscos acima referidos, a melhor solução afigurava-se ser a remoção a de toda a estrutura de madeira, mas com o aproveitamento do altar existente, de mármore e metal, que é uma peça digna e dotada de certa beleza, e que poderia ser colocado na zona inicial da Capela-Mor, onde continuaria a desempenhar as suas funções de altar coram populum.
Foi o que veio a acontecer no passado mês de Outubro de 2009. Aqui se passou a celebrar a Santa Missa, em conformidade com as normas litúrgicas da Igreja universal e particular.
Dada a maior elevação da Capela-Mor em relação ao corpo da Igreja, o altar e o celebrante são perfeitamente visíveis, e tanto mais que grande parte dos bancos com maior capacidade anteriormente colocados na nave central da Igreja passaram para o cruzeiro, sendo colocadas duas filas no seguimento dos existentes na nave central e outras duas dos lados direito e esquerdo. A presidência foi colocada à entrada da Capela-Mor, do lado da epístola, e o ambão do lado do evangelho.
Tudo isto no âmbito de uma intervenção imediata, a que poderão seguir-se ainda novas intervenções, de carácter mais definitivo, pelo menos em relação a alguns elementos do espaço litúrgico.
De qualquer modo, após algum tempo de vigência da actual solução, o balanço afigura-se positivo. Há uma notória maior proximidade física e mesmo espiritual em relação ao altar por parte dos fiéis que se queiram situar na zona do cruzeiro, que poderá acolher algumas centenas de pessoas. Essa proximidade é especialmente sensível e pastoralmente vantajosa nas Missas da Catequese, permitindo às crianças estar muito mais perto do altar e do próprio celebrante.
Este balanço positivo não exclui, no entanto, que se considere conveniente promover-se, logo que possível, um concurso de ideias para uma solução mais definitiva do próprio altar, da presidência e do ambão, em vista de conferir ao espaço litúrgico da Igreja dos Jerónimos toda a dignidade e beleza que o mesmo requer, e que o incomparável monumento em que se insere inegavelmente exige.
Tratando-se de uma intervenção relevante a realizar na Igreja dos Jerónimos, que muitas vezes serve de co-catedral, tive a honra de apresentar este plano a S.ª Em.ª o Senhor Cardeal Patriarca, que me disse não se opor, indicando-me que obtivesse a aprovação do Departamento das Novas Igrejas, que o aceitou.
Foi também recebida, em tempo oportuno, a concordância formal do IGESPAR, a quem cabe a tutela do monumento por parte do Estado.
O Departamento das Novas Igrejas procede agora ao estudo dos termos de um futuro concurso a ser aberto, cujo resultado será naturalmente sujeito a aprovação superior.
Desde o início ficou muito claro que, com esta remodelação, seria devolvida à Capela-Mor dos Jerónimos a sua função de Presbitério. O Presbitério é o lugar onde estão os ministros ordenados, Bispo, sacerdotes e diáconos, e também outros ministros ou ministrantes, como é o caso dos acólitos.
Simultaneamente, foi devolvido ao altar da Eucaristia, coroado pelo admirável Sacrário existente na Capela-Mor, o seu carácter de ponto focal de todos os olhares e de todas as atenções.
E que dizer do antigo Coro residente da Igreja dos Jerónimos, o Coro de Santa Maria de Belém, que em 2001 se constituiu como Associação Cultural, e que nos últimos anos tinha usado o espaço da Capela-Mor para a sua intervenção na liturgia?
Parecia óbvio que esta localização, (que já de si era liturgicamente discutível), assim que o altar da Missa fosse colocado na Capela-Mor, deixaria de ter sentido, e no mínimo deixaria de ser funcional.
Foi o que transmiti, com toda a naturalidade e simplicidade, ao Director Artístico do Coro, Dr. Fernando Pinto, numa reunião que mantivemos os dois no passado dia 15 de Setembro.
Não o fiz antes, porque, na sequência de uma carta que já tinha escrito em 13 de Julho de 2009, só em 9 de Setembro seguinte fui recebido em audiência por S.ª Em.ª o Senhor Cardeal Patriarca, e recebi o seu parecer.
Entretanto, em 7 de Setembro, obtive também a opinião favorável, em termos gerais, do Secretariado Permanente do Conselho Pastoral Paroquial.
Reuni-me, portanto, com o Dr. Fernando Pinto na primeira data possível, e assim que lhe comuniquei que a localização do Coro de Santa Maria de Belém deixaria de ser funcional, respondeu-me imediatamente que se o Coro saísse da Capela-Mor, se demitiria.
Expliquei que não via razões para isso, porque o Coro encontraria certamente outros lugares alternativos, entre outras razões, porque a capela sul do transepto estava muito mais liberta, e porque a zona do cruzeiro deixaria de ter bancos localizados transversalmente e assim o Coro não teria de cantar, como aconteceu há anos "para as costas das pessoas".
Nenhum dos meus argumentos foi convincente, mas não deixou de me dizer que não abandonasse os meus planos por sua causa.
Pelo meu lado, conclui dizendo que momentaneamente suspendia a minha decisão, para reflectir um pouco mais.
Por diversas razões, não consegui marcar logo uma nova reunião, que só teve lugar no dia 25 de Setembro, então também com a presença da Dr.ª Emília Alves da Silva e do Dr. Miguel Farinha.
Mantive o que tinha dito, porque não encontrei razões para o alterar, o que foi considerado como uma desconsideração para o Coro.
Mas este juízo é injusto, porque a mudança, sendo necessária, por motivos estritamente litúrgicos, não teria forçosamente de ser repentina, poderia haver um período de transição, que poderia inclusivamente durar todo o ano pastoral em curso, como sugeriu o Dr. Miguel Farinha, e eu aceitei sem qualquer dificuldade, mas nem esta sugestão foi aceite.
O Dr. Fernando Pinto manteve a sua decisão de se demitir, no que foi seguido pela Dr.ª Emília Alves da Silva, que afirmou literalmente: "Se o Fernando sair, eu saio também". E acrescentou: "Mas o Coro é uma associação".
E assim terminou a reunião.
No dia 1 de Outubro de 2009, recebi duas cartas, uma do Dr. Fernando Pinto e outra do Dr. Miguel Farinha, em que cada um apresentava a sua demissão das funções que desempenhavam até ao momento na Paróquia, facto só posso lamentar profundamente, mas que não considerei devesse fazer frustrar uma intervenção que poderia, como julgo que efectivamente aconteceu, beneficiar e dignificar o espaço deste admirável monumento em que nos reunimos e a própria Sagrada Liturgia que aqui celebramos.
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém