6 de Janeiro de 2008 - Epifania do Senhor

Pessoas normais


Fra Angelico,  A adoração dos Magos (1445)

Diferentemente de Nossa Senhora e de S. José, dos pastores e das outras pessoas que costumamos ver à volta de Jesus no presépio ou na casa onde moraram depois por algum tempo em Belém, que eram pessoas «normais», os Magos que vieram adorar Jesus podem parecer um pouco estranhos.

O próprio nome não ajuda muito, faz pensar em «magia». No entanto, os Magos não eram «mágicos», eram apenas estudiosos dos astros. Mais tarde, foram chamados «Reis», por influência do capítulo 60 de Isaías, que ouvimos na lª leitura.

Mas hoje, apesar disso, seria bom que olhássemos os Magos como pessoas «normais», mesmo que os vejamos vestidos de Reis, com os trajes magníficos com que os artistas habitualmente os representam. E digo «normais», não por serem vulgares, mas por representarem o que há de mais profundo no ser humano: a busca de um significado mais pleno para a vida, a busca uma verdade definitiva, a busca de um Salvador, a busca do Messias, a busca de Deus.

E foi tudo isto que estes homens fizeram. Houve alguma coisa de muito forte que os levou até Jesus, nem eles sabiam muito bem explicar o quê. Quando tiverem de se justificar, dirão: " «Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-Lo» ".

No entanto, o motivo decisivo não terá sido uma estrela no firmamento, mas uma luz nos seus corações, que os conduziu até Jesus, como aconteceu depois deles a tantos homens e mulheres ao longo dos tempos.

Os Magos têm ainda uma outra característica que os define: não pertenciam ao povo judeu, e por isso não conheciam os Profetas nem os outros textos bíblicos, não passaram por essa mediação prevista por Deus que é o Antigo Testamento, mas foram direitos a Jesus a partir das suas próprias experiências pessoais, culturais ou religiosas.

Este dado é importante, porque nos indica que haverá sempre, em todos os tempos, pessoas sem nenhum (ou com muito pouco) conhecimento da Sagrada Escritura ou da doutrina cristã, mas a quem Jesus Cristo atrai, e que não descansam enquanto não se encontram com Ele. Haverá sempre, em muitos, essa estrela a brilhar no seu espírito, essa luz a atraí-los para Jesus.

E nós temos que estar atentos, não para interferir, mas simplesmente para mostrar o caminho e para facilitaroseu encontro com Jesus.

É claro que, depois desse primeiro encontro, dessa primeira «epifania», (que significa «manifestação»), a vida nunca mais volta a ser o que era, e então haverá que regressar, como fizeram os Magos, "por outro caminho".

Será, normalmente, o caminho que levará muitas pessoas a conhecer toda a riqueza da Divina Revelação, que passa pela Sagrada Escritura e pela doutrina da fé, e que culminará no Baptismo, na Confirmação e na Eucaristia, que são os Sacramentos da Iniciação Cristã. É por estes sacramentos que o encontro exterior se transforma em encontro vital e em verdadeira inserção dessas pessoas no mistério de Cristo e da Igreja.

Podemos ainda, no entanto, colocar uma questão: será só assim, isto é, a partir de um movimento quase espontâneo que os encaminha para Jesus, que se fará a conversão à fé dos homens e das mulheres do nosso tempo? Acredito que acontecerá desta forma em muitos casos, mas não acontecerá só assim. Em muitos outros casos haverá uma intervenção maior de outros cristãos no início desse caminho.

O Santo Padre Bento XVI fala dessa intervenção, que pode revestir a forma de um convite feito a outros, para que venham ao encontro de Jesus e da sua Igreja. Na sua Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude, que vai realizar-se em Sidney, no próximo mês de Julho, Bento XVI pede aos jovens cristãos, a quem se dirige de modo especial, que tragam um outro jovem para Jesus.

Mas podemos alargar a todas as idades este apelo, e senti-lo como sendo também para nós. Escreve o Papa: "Cada um de vós tenha a coragem de prometer ao Espírito Santo que conduzirá um jovem para Jesus Cristo, do modo como considerar melhor, sabendo «responder com doçura a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança» (cf.1 Pedro 3,15)".

Um pouco antes, Bento XVI tinha já sublinhado a convicção de que "anunciar o Evangelho e dar testemunho da fé é hoje mais necessário do que nunca".

Mas pode-se pôr uma questão: teremos o direito de o fazer? Não será uma intervenção abusiva? Escreve Bento XVI: "Alguns pensam que apresentar o tesouro precioso da fé às pessoas que não a compartilham significa ser intolerante para com elas". E responde: "Mas não é assim, porque propor Cristo não significa impô-lo".

Além disso, esta proposta que fazemos é dirigida por nós, habitualmente, não a estranhos, mas a amigos, a pessoas que conhecemos, e cujas dúvidas, perguntas ou dificuldades também nos são familiares.

Continuando a dirigir-se em especial aos jovens, diz ainda Bento XVI: "Vós conheceis os ideais, as linguagens e também as feridas, as expectativas e ao mesmo tempo o desejo de bem dos vossos coetâneos. Abre-se o vasto mundo dos afectos, do trabalho, da formação, da expectativa, do sofrimento juvenil... "

Todas as pessoas que temos à nossa volta e com quem partilhamos a vida são pessoas «normais«, que amam e que sofrem, que vivem tristezas e alegrias, êxitos e decepções. Pode ser que a atracção poderosa do Espírito Santo as encaminhe sem mais até Jesus, para Lhe oferecerem, como os Magos, os seus dons, a sua vida.

Mas também pode ser, e é o mais provável, que o Espírito Santo conte connosco, para os convidar e desafiar, com base numa profunda amizade, a percorrer esse caminho. A nossa proposta não é «teórica», parte da vida, e temos a certeza de que, se a aceitarem, haverá uma transformação e uma profunda iluminação da sua vida.

Mas é indispensável que seja primeiro a nossa própria vida, a encaminhar-se para Cristo e a confluir com uma fé sempre maior no mistério de Cristo.

E que sejamos também nós, como os Magos do Oriente, a regressar sempre «por outro caminho«, que é um caminho de conversão e de santidade, vivido por entre os trabalhos e esperanças, dificuldades e alegrias da nossa vida de todo os dias, que, porém, não vivemos de um modo banal, mas já profundamente iluminado e transformado pelo nosso encontro com Cristo.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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