13 de Janeiro de 2008 - Baptismo do Senhor

Um Messias de olhar sereno

Há oito dias, vimos ainda Jesus recém-nascido, adorado pelos Magos junto a Santa Maria, sua Mãe. Logo a seguir, houve a fuga para o Egipto e, algum tempo depois, o regresso a Nazaré.

Aqui, Jesus foi crescendo "em estatura, em sabedoria e em graça diante de Deus e dos homens", como diz o Evangelho de S. Lucas (2, 52).

Mas, à excepção do episódio do encontro com os doutores da Lei, aos doze anos, em Jerusalém, nada O distinguiu das outras crianças ou jovens da sua aldeia.

A um certo momento, como acontecia com todos os outros jovens, começou a trabalhar, na oficina de José. Muitos se referiram a Jesus, mais tarde, como "o carpinteiro", ou "o filho do carpinteiro".

Para nós é muito importante reconhecer que "durante a maior parte da sua vida, Jesus partilhou a condição da imensa maioria dos homens: uma vida quotidiana sem grandeza aparente, vida de trabalho manual, vida religiosa judaica sujeita à Lei de Deus, vida na comunidade" (Catecismo da Igreja Católica, n. 531).

E assim se passaram trinta anos. Mas Jesus tinha uma outra missão a cumprir, para além da simples partilha da vida normal de toda a gente.

Jesus não tinha apenas de viver como todos: tinha de Se oferecer por todos. Por isso, um dia, na vida de Jesus, houve uma mudança radical. E S. Mateus, no Evangelho de hoje, mostra-nos Jesus presente onde menos se podia imaginar que Ele estivesse.


Cima da Conegliano,  Baptismo de Jesus (1493-94)

Que aconteceu? Um dia, Junto às margens do Jordão, no meio da multidão que esperava que chegasse o momento de descer às águas, sem que nada o distinguisse dos outros, apareceu um homem que trazia consigo um segredo que mais ninguém conhecia.

Era Jesus, que vinha "da Gallieia, e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser baptizado por ele". É possível que João Baptista tenha conhecido Jesus em criança ou muito jovem. No entanto, nunca chegou a saber quem Ele era de verdade. Por isso, poderá dizer com sinceridade, como conta S. João: " «Eu não O conhecia...»" (João 1, 33).

Mas, naquele dia, quando Jesus se aproxima dele, junto às águas do Jordão, o grande profeta tem um sobressalto interior, e reconhece subitamente que tem diante de si o Messias. Não o Messias que ele esperava encontrar, cheio de rigor e veemência, «o Homem do Fogo e do Espírito», mas um Messias cheio de mansidão e normalidade, com um olhar sereno, bondoso e compassivo.

Embora surpreendido, João entende bem uma coisa: Jesus não precisa de ser purificado, como os outros. Jesus tem no coração um caudal divino de graça e misericórdia que vai limpar os pecados do mundo.

Por isso, diz-Lhe:" «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti, e Tu vens ter comigo?»" Mas Jesus respondeu­lhe:" «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça» ".

No Evangelho, «Justiça» é o que nos torna «Justos» aos olhos de Deus, porque cumprimos a sua vontade. Jesus cumpre plenamente a vontade do Pai, porque se aproxima de nós e se identifica connosco, porque assume a nossa miséria e a nossa condição pecadora. A primeira mensagem da festa do Baptismo do Senhor, portanto, é esta: em Jesus não há nenhum desprezo ou desdém por nós, seres humanos, que sabemos muito bem que somos imperfeitos e pecadores. Na 2ª leitura, dos Actos dos Apóstolos, ouvimos o testemunho de S. Pedro, que anunciava com grande convicção: " «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele» ".

Jesus Cristo, solidário connosco, compreende-nos, conforta-nos, consola-nos, cura-nos, perdoa-nos e salva-nos, e um dia, na cruz, dará a vida por nós. O seu Baptismo no Jordão revela essa inabalável solidariedade de Jesus connosco.

Mas revela também quem é o próprio Jesus. Depois do Baptismo, quando saiu da água, "Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele". A descida do Espírito Santo sobre Jesus identifica-O como o Messias de Deus, o Ungido do Pai. O Espírito Santo não torna Jesus Messias a partir desse momento, como se antes não o fosse, mas assinala o início da sua missão no meio dos homens.

A sua humanidade, assumida pelo Filho de Deus, foi «ungida» pelo Espírito, e um dia ela própria será o canal da doação do Espírito Santo, depois da Ressurreição.

Este episódio revela também como é que Jesus irá exercer a sua missão de Messias. É o que nos indica aquela "voz vinda do céu": "«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência»".

A palavra «Filho», em grego, traduz uma palavra que também pode significar «servo». Isso faz-nos pensar na 1ª leitura, do livro de Isaías, que fala da missão do «Servo de Deus». O próprio Deus fala deste modo: " «Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma» ".

Neste passo, do capítulo 42 do livro de Isaías, e ainda noutros três, dos capítulos 49, 50 e 52, o Servo é uma misteriosa figura que, embora inocente, sofre pelo seu povo. Nesta passagem que hoje lemos, vemo-lo como aquele que é enviado "para abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas". Assim será Jesus: o Filho faz-Se Servo, para nos purificar e salvar. Jesus aceita ser Servo, para poder morrer por nós.

Jesus, Filho de Deus, será um Messias humilde, inteiramente entregue ao nosso serviço. O seu poder não será a força das armas ou do dinheiro, ou qualquer outra, mas sim a força do seu amor pelo Pai e portodos os homens.

A nossa fé, portanto, é chamada a ser uma entrega total, um compromisso de vida. Ao terminar hoje o «Tempo de Natal», e entrando, a partir de amanhã, no «Tempo Comum», vivamos com alegria e coerência, na vida corrente, este amor pleno e radical que é a nossa fé em Jesus.

E descubramos a alegria de também nós sermos servos: a alegria de servirmos Deus nos outros, especialmente os mais pobres, os que mais sofrem, e também os que não encontraram ainda a luz e o sentido, para que em nós descubram Jesus, e n'Ele o rosto do Pai que os chama e os procura como filhos muito amados.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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