27 de Janeiro de 2008 - Domingo III do Tempo Comum

No oceano do amor de Deus

O Evangelho de hoje descreve-nos o início do ministério público de Jesus, segundo S. Mateus. Começou na Galileia, numa zona onde se tinha dado o primeiro cativeiro de Israel, com a deportação de muitos dos seus habitantes pelos assírios (2 Reis 17,1-2).

Isso aconteceu muito tempo antes, no séc. VIII a.C., no ano 721, e foi um momento de grande sofrimento e humilhação.

Mas o profeta Isaías, que exercia a sua missão no Reino de Judá, anunciou desde logo para esses seus irmãos um futuro melhor, em que seria vencida a opressão, e em que o povo que tinha ficado na escuridão, veria uma grande luz, como ouvimos na 1ª leitura.

No entanto, passaram muitos séculos, essa geração morreu, vieram muitas outras, e nada de especial aconteceu. Como frequentemente acontece, a vida entrou numa rotina sem esperança. Às vezes, parece que o futuro nunca mais chega.

Mas, um dia, àquela terra longínqua, no antigo território de Zabulão e Neftali, que era habitada por judeus e pagãos, e por isso se chamava «Galileia dos gentios», chegou Jesus.


Domenico Ghirlandaio,   O chamamento dos Apóstolos (1491)

Depois de ter sabido que João Baptista tinha sido preso, Jesus "retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitarem Cafarnaum". E logo a seguir inicia a sua pregação. Como escreve S. Jerónimo, "quando a Lei se extingue, nasce o Evangelho".

E S. Mateus, ao evocar, com o olhar da fé, esse momento, reconhece que se cumpriu finalmente a profecia de Isaías: "O povo que vivia nas trevas, viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou".

Jesus vem, e a profecia cumpre-se. Mas como é que Jesus traz a luz e vence as trevas? Não será um exagero da parte de S. Mateus? Que trouxe Jesus de especial àqueles homens? Que nos traz a nós?

Antes de mais, o apelo à conversão. S. Mateus escreve que "Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus»". É importante este convite, este forte desafio ao arrependimento, porque, se ele não acontece, instalamo-nos, perdemos a sensibilidade, habituamo-nos ao mal.

Para nós, seres humanos, é muito difícil o arrependimento, a mudança de vida. Quem é que está disposto a mudar? Muito poucos. Ou só com uma razão muito forte. Como aquelas pessoas que só deixam de fumar, quando o médico lhes impõe que o façam, por razões muito graves de saúde.

Bastante gente vai-se arrastando na vida sem a coragem da conversão, porque nunca encontrou verdadeiros motivos, mas há um motivo forte, há uma razão decisiva para a conversão e para a mudança de vida: é a proximidade do Reino de Deus, que está presente no próprio Jesus.

Se nos deixamos envolver pela dinâmica da vida de Jesus, então Deus reinará em nós, e a nossa vida será renovada. Se não, a velha rotina manter-se-á, e continuarão a fazer-se os mesmos erros de sempre, e a vida, apesar das aparências, não terá alegria nem esperança.

É neste apelo à conversão, e na graça de a podermos viver, que, em primeiro lugar, Jesus nos traz luz. Mas há uma outra dimensão, que S. Mateus sublinha no final do Evangelho: Jesus, além de proclamar "o Evangelho do Reino", percorria a Galileia, "curando todas as doenças e enfermidades entre o povo".

E também o faz hoje? Sim, Jesus pode, se quiser, curar as doenças e outras enfermidades. Pode fazê-lo também fisicamente, e muitas vezes ofará, mas percebemos que, habitualmente, o faz de outro modo.

Há dias fui visitar um paroquiano e amigo, que tem uma doença grave, e que me disse e posso contá-lo, porque também o disse a outras pessoas: Sei que vou morrer. Mas tenho fé em Deus, não tenho medo da morte. Esta conversa impressionou-me profundamente, e foi para mim uma nova confirmação da beleza e da verdade da fé cristã.

Jesus revela-nos o sentido da vida, e tira-nos o medo da morte. Ao fazê-lo, a sua luz vence fortemente a escuridão do nosso espírito. Mas - poderia ocorrer-nos esta pergunta - será que outros «mestres» da humanidade não o fazem também? Não o faz também o budismo? Aparentemente sim, o budismo também quer dar ao ser humano serenidade diante da morte, mas fá-lo encaminhando-o para o «nirvana», que é um estado de repouso inconsciente, um sono eterno que não conhece despertar.

A esperança cristã é completamente diferente. O Papa Bento XVI mostra-o bem, na sua Encíclica Salvos na esperança. Começa por recordar S. Paulo, que diz aos Tessalonicenses: não deveis "entristecer-vos como os outros que não têm esperança" (1 Tes 4,13).

O que nos distingue, como cristãos, observa Bento XVI, é o facto de termos um futuro: não é que conheçamos em pormenor o que nos espera, mas sabemos que a nossa vida não acaba no vazio (n. 2).

Sim, a nossa vida não acaba no vazio, mas é chamada a mergulhar, sem se dissolver, no oceano do amor de Deus (cf. n. 12). Esta esperança vence o temor, porque "no amor não há temor", como escreve S. João (1 João 4, 18).

E assim o que era tenebroso torna-se luminoso, e o que era obscuro passa a ser objecto de fundada esperança. Mais ninguém senão Jesus Cristo nos pode dar esta esperança. Por isso, é urgente anunciá-Lo. O próprio Jesus chamou alguns, que deixaram tudo e O seguiram, só para levar o Evangelho aos outros.

Hoje assistimos ao chamamento definitivo dos primeiros apóstolos. Não eram perfeitos, tinham muitos defeitos, mas, graças à sua entrega, o Evangelho chegou ao mundo inteiro. Quem estará disposto a mudar os seus planos, como Pedro e André, Tiago e João, e dedicar também a sua vida a anunciar Jesus e a vinda do Reino de Deus?

Que esta missão leve também toda a Igreja e cada comunidade a superar as divisões e a crescer na comunhão. S. Paulo pedia aos Coríntios que permanecessem "bem unidos no mesmo pensare no mesmo agir".

A unidade no "mesmo pensar" é, antes de mais, a unidade na fé. E a unidade "no mesmo agir" acontece na vida, mediante a caridade. Por intercessão da Virgem Santa Maria, a Santa Mãe de Deus e ícone perfeito do mistério da Igreja, peçamos que cresça e se aprofunde a unidade na fé entre todos os cristãos.

E que haja uma verdadeira e profunda caridade entre todos, mesmo os que vivem a fé em Igrejas ou comunidades que actualmente não estão unidas, para que se superem, no Espírito Santo, as divisões que ainda existem, e sendo assim mais credível o testemunho que damos ao mundo, a luz do mistério de Cristo chegue mais facilmente ao coração e à mente de todos os homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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