10 de Fevereiro de 2008 - Domingo I da Quaresma

As escolhas de Jesus

Logo depois do Baptismo de Jesus, o Evangelho de S. Mateus apresenta-nos um acontecimento impressionante e misterioso: Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo.

Antes das tentações, porém, houve o jejum, sobre o qual não convém passar de ânimo leve.

Jesus quis mesmo jejuar, abstendo-se de tudo, (excepto de água), para se concentrar exclusivamente naquilo que é essencial: a sua união com o Pai e o cumprimento da sua vontade.

E também nós precisamos de fazer jejum, em alguns momentos, um jejum que pode ter diversas formas: de alimentos e de outras coisas. Há dias, num encontro com os sacerdotes de Roma, o Santo Padre Bento comentou que hoje já se voltou a dar valor ao jejum corporal, ao jejum de alimentos. Às vezes há exageros, disse o Papa, "devidos a um ideal de beleza errado", mas "o jejum corporal é uma coisa importante, porque somos corpo e alma, e a disciplina do corpo, a disciplina também material é importante para a vida espiritual, que é sempre vida encarnada numa pessoa que é corpo e alma".


Juan de Flandres,  A tentação de Cristo (c. 1500)

Além deste, o Papa falou de um outro jejum: "Acho que o tempo da Quaresma poderia ser também um tempo de jejum de palavras e imagens. Porque precisamos de um pouco de silêncio, precisamos de um espaço sem o bombardeamento permanente das imagens".

"Precisamos de criar espaços de silêncio e sem Imagens para abrir nosso coração à «imagem» verdadeira, à «Palavra» verdadeira", sublinhou o Santo Padre. E depois falou da arte, e da redescoberta da arte cristã, que está a acontecer, e também da música, em especial daquela que mais ajuda à meditação e à oração.

Nesta 1ª semana da Quaresma, poderemos seguir estes dois conselhos do Santo Padre, acreditando que o jejum de certos alimentos ou outras privações voluntárias nos ajudam a estar mais dependentes de Deus e da sua graça. No caso de Jesus, o seu jejum foi também uma aceitação da fraqueza em contraste com a força e o poder. O jejum de Jesus é o misterioso anúncio de que seremos salvos somente pelo amor e não pelo poder.

Depois do jejum de Jesus, vieram as tentações. Por que é que Jesus as terá permitido? Porque foi uma oportunidade para ficar bem claro que Jesus queria salvar-nos pelos caminhos previstos e pensados pelo Pai, e não por outros.

Para que não restem dúvidas de que foi essa a sua escolha, Jesus admite que o tentador O desafie, com propostas aparentemente sedutoras, mas às quais responde com uma rejeição frontal, que é ao mesmo tempo uma confirmação da sua fidelidade.

Para alguém que tem fome, a primeira tentação parece irresistível: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães". Jesus, porém, responde com uma citação do Deuteronómio (8, 3): "Nem só de pão viverá o homem, mas detoda palavra que sai da boca de Deus".

Esta citação vem no contexto de uma advertência de Moisés, que lembra ao povo que Deus o alimentou com o maná, no deserto. Recordemos todo o versículo: "Sim, Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que nem tu nem teus pais conheciam; para te dar a entender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor" (Deuteronómio 8, 3).

O maná deveria levar o povo a reconhecer a Importância incomparavelmente maior de um outro alimento, a própria Palavra de Deus. E aqui não se trata, primariamente, da Palavra escrita, mas da revelação de Deus e do conhecimento da sua vontade: aquilo que Deus diz ao seu povo e, nele, a cada um de nós.

Essa é a escolha prlorltárla e Indiscutível de Jesus. E também para cada homem a escuta obediente da Palavra de Deus é vital, é o seu primeiro dever, é a sua primeira necessidade.

Tentado primeiro pela fome, Jesus foi depois tentado pela vanglória. O diabo "colocou-o sobre o pináculo do templo", e disse-lhe: "Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo". É curioso que o diabo diz: "lança-te", mas não O lança. "O seu desejo, nota S. Jerónimo, é que todos caiam; no entanto, pode tentar convencer-nos, mas não pode precipitar­nos".

Em contraste com o tentador, que cita indevidamente o Salmo 90 [91] 11-12, Jesus responde, citando de novo o Deuteronómio (6,16): "Não tentarás o Senhor teu Deus". Mas Jesus não queria, evidentemente, atirar-Se do pináculo do Templo, porque isso representaria um desafio ao poder de Deus, em tudo contrário à sua pessoa e à sua missão.

Pelo contrário, Jesus aceitou caminhar no meio dos homens, ser amado por uns e rejeitado por outros, e não fugiu do caminho que O levaria por fim à morte na cruz, que abraçou numa plena fidelidade ao amor do Pai. E também nós aceitamos o desafio da normalidade, a graça de vivermos a fé na vida corrente, com as suas alegrias e com as suas dificuldades, nos dias luminosos e também nos dias cinzentos, mas sempre numa grande confiança e numa sincera aceitação filial da vontade de Deus Pai.

"Novamente o Diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles; e disse-lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares". Comenta S. Jerónimo: "A glória do mundo, que com o mundo há-de passar, é mostrada a Jesus num monte, e com arrogância. Mas Jesus desce aos lugares mais humildes para vencer o diabo com a humildade".

Mas nem por isso deixa de ser firme, pois ordenou ao tentador: "Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás".

E assim Jesus Se revela como o perfeito adorador do Pai, com quem aprendemos a rejeitar toda a idolatria que também nos pode tentar subtilmente, a começar por todas as expressões de egoísmo ou egocentrismo com que nos podemos iludir de tantos modos.

"Então o Diabo o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviram". Comenta S. Jerónimo: "Veio primeiro a tentação, para depois se seguir a vitória. E os anjos serviam-no, para demonstrar a dignidade do vencedor".

Este texto de S. Mateus é um testemunho fiei da luta e da vitória de Jesus. É possível que na sua base tenha havido uma confidência feita aos discípulos pelo próprio Jesus. Para nós é muito importante vê-lo assim, não só porque corresponde à verdade, mas também porque nos sentiríamos extraordinariamente fragilizados se, na nossa luta, não nos pudéssemos apoiar na luta misteriosa mas real do próprio Jesus.

Mas acreditamos que Jesus nos precedeu nesta luta, de que saiu plenamente vitorioso, para que hoje, no concreto da nossa história, lutemos com esperança, esperando também, confiados na ajuda de Deus, poder vir a ser vencedores, como Ele o foi: pela entrega e pelo amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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