17 de Fevereiro de 2008 - Domingo II da Quaresma

Um momento de verdade

O Evangelho de hoje reflecte a alegria de quem, finalmente, começou a conhecer melhor Jesus Cristo. Pedro, Tiago e João, levados "em particular a um alto monte", conheceram, como nunca tinham conhecido até então, o mistério de Jesus, e viram por um instante a sua glória divina, até então quase sempre escondida ou só revelada indirectamente pela força das suas palavras ou pela maravilha dos seus milagres.

Mas agora os três discípulos escolhidos viram-na com uma certeza profunda, quase «física», uma vez que, a seus olhos, o rosto de Jesus "ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brilhantes como a luz".

Mas não foi só um momento de grande beleza, não foi só uma experiência rmocionante, foi também um momento de grande verdade.

Para nós, seres humanos, não basta a emoção: precisamos também do conhecimento da verdade, que dá sentido à nossa vida. E também não nos bastam soluções técnicas ou políticas para os problemas que enfrentamos nesta vida.


Fra Angelico,  A Transfiguração (fresco) (1440-41)

Na existência humana, há sempre muitas questões em debate, numerosos problemas para resolver, desde a economia à saúde, passando pela educação, pelo emprego e pelo ambiente, para os quais se apresentam diferentes soluções, em alguns casos profundamente divergentes.

Mas ninguém pode ter a ilusão de pensar que, uma vez encontradas as melhores soluções para estes problemas, o que já em si não é nada fácil, os nossos anseios mais profundos estarão satisfeitos, e as nossas perguntas mais decisivas estarão respondidas. Sem a verdade profunda a respeito da vida, nunca sabemos quem somos, nem para onde vamos. O ser humano não pode sufocar em si a sede da verdade.

Segundo o Evangelho, a verdade profunda de que necessitamos, foi revelada de um modo admirável naquele dia a estes três apóstolos, que só mais tarde, depois da ressurreição, contariam a sua experiência a todos os outros.

Naquele dia, Pedro, Tiago e João conheceram a verdade de Jesus, expressa nestas palavras que os três ouviram com nitidez: "«Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o»". A transfiguração revela luminosamente a verdade de Jesus, que não é apenas um homem escolhido, nem é apenas alguém que Deus «adoptou» como filho, como os antigos reis de Israel.

Jesus é Filho segundo a natureza divina, que possui em comum com o Pai e com o Espírito Santo, como mais tarde a fé cristã reconhecerá e exprimirá. É necessário conhecer Jesus, é necessário escutá-Lo, para conhecermos Deus, para nos conhecermos a nós mesmos, e para vivermos segundo a vocação e a dignidade de filhos que, em Jesus, nós próprios, pelo baptismo, também recebemos. É interessante reparar que, no início deste episódio, Jesus aparece acompanhado por Moisés e Elias, os principais «videntes» de Deus do Antigo Testamento, e que representam, respectivamente, a Lei e os profetas, mas, no final, ficará só.

Moisés e Elias retiram-se, isto é, o seu papel e a sua importância são relativizados, diante da revelação do mistério de Jesus. Isto mostra-nos que Jesus Cristo é único. É uma graça conhecê-Lo, é uma graça fascinante e também muito emocionante.

O conhecimento que Já temos de Jesus, leva-nos a desejar que muitos outros o possam ter também. ~uando se faz uma verdadeira experiência de Jesus ressuscitado, ouvindo a sua Palavra, alimentando-nos jo seu Corpo e do seu Sangue, não podemos guardar para nós a alegria que sentimos. É uma experiência luminosa, emocionante, mas tem que ser transmitida.

Vivemos num tempo de grande progresso científico e técnico. Mas o simples progresso não torna o ser humano melhor. Bento XVI escreveu na Encíclica Salvos na Esperança: "Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor" (n. 26). Só a conversão nos torna melhores. Sem conversão haverá sempre mais violência, mais fraudes, mais roubos, mais infidelidades.

Para nós, cristãos, a conversão passa sempre pelo Sacramento da Confissão. Há cerca de um ano, Bento XVI explicou assim, numa celebração penitencial preparatória da Jornada Mundial da Juventude, o sentido e importância deste sacramento:

Proponho que cada um leia e medite bem este ensinamento do Santo Padre. Depois, que prepare a sua confissão, e a faça com tempo, com calma, pelo menos uma vez, antes da Páscoa.

E ainda que lembre a um amigo, a um colega, a uma pessoa de família, como seria bom vir confessar-se também. Perdendo o medo, perdendo a vergonha, falando com clareza, podemos ajudar muitas pessoas, que ficarão felizes por poderem intensificar ou recomeçar a sua união com Deus e com a Igreja.

S. Paulo dizia a Timóteo: "Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus". Não temos medo de trabalhar e até de sofrer pelo Evangelho, para que em nós e em todos Deus faça brilhar a vida e a imortalidade "por meio do Evangelho" e do mistério de Cristo. Foi n'Ele que fomos salvos e chamados a ser santos, não pelos nossos méritos, mas pela sua infinita misericórdia.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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