2 de Março de 2008 - Domingo IV da Quaresma

Uma luz que não se apaga

O Evangelho de S. João conta-nos hoje que "Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença".

Imediatamente, os discípulos pretendem saber qual a causa da doença daquele cego. Mas Jesus não se deixa prender no passado. Jesus abre um horizonte de esperança, e desafia os homens a olhar para o futuro.

E então, Jesus realiza um gesto inesperado: com um pouco de lodo, "ungiu os olhos do cego". Não se trata de um gesto «mágico» nem sequer de «medicina tradicional». Como observou um Bispo do séc. IV, S. João Crisóstomo,«é uma maneira de tornar a cegueira ainda mais evidente, antes de a curar».


El Greco,  Jesus cura o cego (1570-75)

Jesus, o Ungido do Pai, "unge" os homens com o seu poder cheio de misericórdia, tal como David foi ungido e consagrado rei pelo profeta Samuel, como ouvimos na lª leitura. Depois, Jesus mandou-o lavar-se à piscina de Siloé, que quer dizer "Enviado". É possível que neste nome haja uma alusão ao próprio Jesus, que é o Enviado por excelência. E a piscina alude também ao Baptismo, em que experimentamos pela primeira vez o poder de Jesus, que nos limpa do pecado e nos dá a própria vida de Deus. E a verdade é que "ele foi, lavou-se e ficou a ver".

Foi como se o próprio Jesus o tivesse lavado, tal como lavou os pés aos discípulos, na última Ceia. Que mudança extraordinária! Que deslumbramento: passar a ver as outras pessoas, a luz do sol, as plantas, as aves do céu, a água das fontes, a beleza do mundo! Naquele momento, aquele homem nasceu de novo, começou a viver como antes nunca tinha vivido. O mesmo aconteceu connosco, quando fomos baptizados: não foi um simples gesto ritual, uma tradição social, foi um novo nascimento!

Mas depois, inesperadamente, o cego que passou a ver, viu-se confrontado com a incompreensão dos fariseus, que o criticam e insultam. Este homem, porém, tal como cada um de nós, recebeu também a capacidade de dar testemunho, mesmo num ambiente hostil e fechado, como muitas vezes acontece.

Quando o interrogam sobre a sua identidade, não se esquiva, e responde: "«Sou eu»". E sobre Jesus diz: "«É um profeta»". Quando a sua convicção é posta à prova, insiste: "«A verdade é que Ele me deu a vista»".

E mais adiante, quando os fariseus põem em dúvida a origem divina de Jesus, ou até insinuam que seja um pecador, diz claramente: "«Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer»". Este homem interpretou a sua cura, não como um simples milagre, mas como um sinal de que Jesus é "de Deus". Ainda é como um "menino», a sua fé está ainda em crescimento, mas não se atemoriza, nem nega Jesus. Vai acabar por ser expulso da sinagoga, como aconteceu com muitos cristãos dos primeiros tempos, mas nunca se arrependerá de permanecer fiel a Jesus.

Pouco depois, "Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?»" Afinal, ele já O conhecia, mas ainda não O tinha identificado definitivamente. "«Já O viste - diz-lhe Jesus - é Quem está a falar contigo»".

Jesus oferece-lhe a possibilidade de um novo acto de fé, mais pleno, e ele não desperdiça essa ocasião de graça:"O homem prostrou-se diante de Jesus, e exclamou: «Eu creio, Senhor»".

Aplicando este diálogo impressionante à nossa vida, também nós queremos aproveitar todas as ocasiões para darmos testemunho de Jesus, em todos os ambientes, abertos ou hostis, com serenidade, com firmeza e fidelidade.

Chamou-me a atenção uma reflexão de um conhecido filósofo francês do século XX, Jean Guitton, que sempre se afirmou católico, e manteve ao longo de toda a sua vida intensos diálogos com amigos e colegas não crentes. Tinha a sensação de que, "aos olhos do não crente, o crente é um pouco louco..."

"Pelo contrário - acrescenta - aos olhos de um homem imbuído de fé, o não crente é um ser que foi feito para ver, para desfrutar daquilo que vê, mas que, devido a uma espécie de cegueira, não consegue levantar as pálpebras".

"Mas o crente sabe que este estado de cegueira não durará. Apenas mais alguns segundos! Em breve os olhos do não crente abrir-se-ão completamente. O não crente verá com mais acuidade do que eu, com mais surpresa do que eu", escreve Jean Guitton.

E nessa altura, o que tinha sido não crente dar­nos-á razão. Mas talvez então nos possa também interpelar, pelo menos a muitos de nós, nestes termos: "Meu amigo, como estava errado por ter tido tanto respeito por mim, por não me informar o suficiente, sobretudo por não ter sido mais categórico e firme comigo! Por que me deixou tanto tempo nesta noite antecedente, onde perdi a matéria preciosa do tempo?" (As minhas razões de crer, 2000, p.13).

Além desta interpelação pessoal que pode ser feita a tantos amigos, a próxima Semana Santa e a Páscoa vão também oferecer-nos a oportunidade de uma grande profissão de fé comunitária.

No Domingo de Ramos sairemos em procissão, aclamando Jesus, que entrou em Jerusalém para dar a vida por nós. Para nós, nos Jerónimos, vai ser um dia difícil. Mas peço que todos façam os sacrifícios necessários, para poderem estar presentes na Procissão de Ramos e na Eucaristia.

Teremos depois as densas celebrações de Quinta-Feira Santa e Sexta-Feira Santa.

Finalmente, na santa Vigília Pascal, nessa «noite ditosa» iluminada pela luz suave das velas que teremos nas nossas mãos, iremos renovar solenemente a nossa Profissão de Fé em Jesus, Filho de Deus, no Pai, que O enviou, e no Espírito Santo que habita em nós. Será um momento forte e belo, que devemos desejar e preparar com grande expectativa.

A Páscoa é um acto de fé forte e agradecida em Jesus ressuscitado. Só a sua luz dissipa as trevas, só a sua graça vence toda a cegueira, e dá sentido á vida. Só a Páscoa de Jesus ilumina os nossos olhos com uma luz que não se apaga.

Entretanto, como fruto da conversão quaresmal, continuamos a procurar viver "como filhos da luz", segundo ouvimos na 2ª leitura. "Agora sois luz no Senhor", dizia-nos S. Paulo. Há um estilo de vida que distingue os filhos de Deus. Há uma sobriedade, uma pureza, uma honestidade, uma habitual disponibilidade e tantas outras virtudes, que deixam no mundo um rasto de luz.

S. Paulo dizia: "O fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade". E, como critério dominante, acrescentava: "Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor".

Que a luz de Cristo brilhe sobre nós, e brilhe também através da nossa vida e de todas as nossas acções. Mesmo as mais correntes e vulgares podem ser ocasião para dar testemunho de Jesus, e assim encher o mundo em que vivemos com a sua luz e a sua paz.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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