9 de Março de 2008 - Domingo V da Quaresma

A vitória definitiva

Quem era Lázaro, que Jesus chamou de novo à vida? Era irmão de Marta e de Maria, e era amigo de Jesus. Ao falar dele aos discípulos, Jesus dirá: " «O nosso amigo Lázaro...» ". Mais tarde, os próprios judeus dirão: " «Vede como era seu amigo»".

Um dia estando Jesus ausente, Lázaro adoeceu gravemente, e morreu. S. João relata que, quando chegou junto do túmulo de Lázaro, "Jesus chorou".

Estas lágrimas de Jesus revelam a sua amizade e a sua compaixão: Jesus sente como suas as nossas penas e dores, do mesmo modo que, nos momentos de verdadeira alegria, também se alegra e rejubila connosco.


Giotto,  A ressurreição de Lázaro (1320-21)

Mas, naquele momento, "Jesus chorou". As lágrimas correram dos seus olhos, e marcaram um sulco no seu rosto. Jesus sentiu uma enorme dor pelo sofrimento e pela morte de Lázaro. E também manifestou sempre uma compaixão profunda pela fragilidade da vida humana, que passa inevitavelmente pela morte.

A meta definitiva da vida do homem é a comunhão com Deus, no Céu, mas, para chegar lá, é preciso primeiro passar pela morte. E a morte física, no estado actual do mundo e da nossa história, é uma fronteira sempre difícil de passar, é um caminho sempre custoso, sempre doloroso, para a plenitude de Deus.

É difícil para quem parte, e também muito difícil para quem fica do lado de cá desta fronteira. Por isso, "Jesus chorou". Ele próprio, não muito tempo depois, aceitará passar pela morte, assumirá na cruz toda a dor e angústia da morte, oferecendo a sua vida pelos homens, para que todos possamos um dia viver na plena glória da sua ressurreição.

Um dia, este modo novo de ser e de viver há-de estender-se a todos os eleitos, como dizia S. Paulo, na 2ª leitura: "Deus, que ressuscitou Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu espírito, que habita em vós". Mas isso só será no fim da História, no tempo novo que se identifica com a eternidade de Deus.

E até lá? Até lá, participamos de muitos outros modos na vitória da ressurreição de Jesus. No plano físico, Jesus desperta Lázaro do sono da morte e trá-lo de novo à vida deste mundo, da qual mais tarde havia de partir, quando chegasse a sua hora. Mas, para quem crê em Jesus, uma outra espécie de ressurreição se produz, que nos faz participar numa vida sem fim.

Nas palavras que dirige a Marta, irmã de Lázaro, Jesus anuncia que vem oferecer a vida de Deus, já neste mundo, a todos aqueles que acreditarem n'Ele: "«Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo Aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá»".

Estas palavras aplicam-se já hoje, na nossa vida. Aquele que acredita em Jesus, e por Ele, no Pai que O enviou, «nunca morrerá». Mesmo que passe pela morte física, como é inevitável, não recairá na morte espiritual, naquela morte que é separação de Deus, fruto do pecado e da desobediência, a única que há que temer, e que um dia, se não houvesse arrependimento, se poderia tornar definitiva.

Jesus, assumindo a morte física, livra-nos da morte espiritual, a que o Apocalipse chamará «morte segunda» (2, 11). Esta morte espiritual,já hoje a vencemos pela fé em Jesus, como fez Marta, ao responder a Jesus com grande emoção: "«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo»". A fé antecipa em nós a vitória de Jesus, e faz-nos viver de um modo novo, "segundo o Espírito", como também dizia S. Paulo.

Hoje ouvimos na 1ª leitura aquela impressionante profecia de Ezequiel, que o povo da Antiga Aliança escutava como uma mensagem de conforto e de esperança, numa situação de grande sofrimento e de prova.

No tempo de Jesus, muita gente ouvia esse texto como um anúncio de que, com a vinda do Messias, todos osjustos ressuscitariam, para participar na alegria do novo Reino.

Mas a profecia de Ezequel pode aplicar-se a muitas situações de morte, física ou moral, que se verificam na existência humana. Só o Espírito de Deus, como dizia o profeta, tem o poder de vencer estas situações de morte; só "o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos", como dizia ainda S. Paulo, tem o poderde reanimar esses "ossos ressequidos", que às vezes são os seres humanos.

Ainda no Evangelho de hoje, S. João conta que, quando Jesus decidiu ir a Betânia, um dos Doze, "Tom é, chamado Dídimo, disse aos companheiros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele»". S. Tomé tinha razão, porque a morte de Jesus, que já estava a ser planeada desde há muito pelos chefes judaicos, foi definitivamente decidida nesse momento.

Os discípulos, apesar de mais tarde terem sido incoerentes, não quiseram deixar Jesus sozinho. Que também nós acompanhemos Jesus, em cada momento da sua Páscoa, da sua passagem para o Pai, a começar pela liturgia de Domingo de Ramos, em que revivemos a sua entrada em Jerusalém, onde, poucos dias depois, morrerá na cruz.

A nossa presença nas grandes celebrações da Semana Santa e em particular do Tríduo Pascal será um sinal de que não admitimos sequer a ideia de abandonar Jesus, ao aproximar-se a sua Hora.

Que nesta Hora Jesus conte com a nossa lealdade, com a nossa fé, com o nosso amor. E que, para além destes momentos, toda a nossa vida, como o foi a ressurreição de Lázaro, seja para muitos um sinal da vitória definitiva de Jesus sobre o mal e sobre a morte, em que todos esperamos um dia participar plenamente.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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