16 de Março de 2008 - Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

Acompanhar Jesus passo a passo

Hoje começa a Semana Santa, e a Igreja convida-nos a acompanhar muito de perto Jesus, no caminho que O levou até á Cruz, para depois saborearmos a alegria incomparável da sua ressurreição.

Com este desejo, relemos hoje o Evangelho da Paixão segundo S. Mateus. Passo a passo, acompanhamos o Filho de Deus, que quis fazer-se Servo e dar a vida por nós. Com espanto e emoção, revivemos hoje cada um desses momentos, que não são peças soltas, mas facetas inseparáveis de um mesmo mistério, unidas pelo fio condutor da obediência de Jesus ao Pai e do seu amor pelos homens.


Benjamim Robert Haydon,  A entrada de Jesus em Jerusalem (1814-20)

Deste diversos momentos, desejo agora destacar apenas dois. Antes de mais, a última Ceia: é o momento mais alto de uma série de refeições que Jesus partilhou com os seus discípulos e com os pecadores. Desta vez, porém, "Jesus sentou-Se à mesa com os Doze", para celebrar a Páscoa. Mas o que vai acontecer é o anúncio e a antecipação da nova Páscoa. Jesus identifica o pão e o vinho com o seu Corpo trespassado e com o seu Sangue derramado na cruz.

Primeiro, "tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo»". Mais adiante, "tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados»".

Quando celebramos a Eucaristia, quando comungamos o Corpo e o Sangue de Cristo, unimo-nos à sua oblação voluntária ao Pai pela salvação de todos os homens. Nesta Semana Santa e na grande festa da Páscoa que se aproxima, a nossa comunhão não pode ser rotineira e indiferente, mas sim acção de graças vibrante e compromisso sincero de união com Jesus, para também nós ousarmos dar a vida para a salvação de todos.

Depois, a própria morte de Jesus, extremamente humilhante, inglória e profundamente dolorosa, não nos pode deixar indiferentes. Jesus suportou uma forma de morte que era reservada aos escravos, e só o facto de ela ser descrita nos Evangelhos bastaria para comprovar a plena autenticidade destes.

A cruz é um acontecimento histórico inegável e sempre chocante. Jesus sofreu sobre a cruz durante aproximadamente seis horas. O clamor de Jesus, pouco antes de morrer, "pelas três horas da tarde", "«Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»" vem do Salmo 22 (21), citado em hebraico por S. Mateus, e reflecte a imensa dor de Jesus, mas não desespero, porque é uma oração dirigida a Deus.

Depois, "Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou". Estas palavras acentuam a natureza voluntária da morte de Jesus, que oferece o supremo sacrifício da sua morte, por fidelidade ao Pai e por amor incondicional por todos os homens.

Parece justo e necessário que queiramos chegar à Páscoa purificados e limpos de todos os pecados, através de uma Confissão humilde e contrita, com propósitos sinceros de mudança. Também parece justo e bom dar mais tempo à oração e à leitura da Palavra de Deus. Uma razoável austeridade nas refeições e noutros gostos prepara-nos para a plena alegria da Páscoa. E não esqueçamos que Sexta-Feira Santa é dia de jejum e abstinência.

Conduzidos pelo Espírito Santo, vivamos esta Semana Santa com a consciência da grandeza deste mistério que celebramos. Passo a passo, acompanharemos Jesus, na esperança de um dia sermos por Ele recebidos junto do Pai, e de partilharmos a glória da sua ressurreição.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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