30 de Março de 2008 - Domingo II da Páscoa da Ressurreição do Senhor

Para além do que se vê

No final do Evangelho de hoje, Jesus diz a S. Tomé:"«Porque me viste, acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto»". Segundo estas palavras de Jesus, quem acredita é feliz, quem tem fé é feliz.

Mas o que é a fé? A fé tem duas características principais. Primeira: é uma resposta a uma iniciativa de Deus. O primeiro passo é sempre de Deus, e só depois é que vem a nossa resposta.

Segunda: a fé é sempre um ir mais longe, é sempre um captar uma verdade mais profunda, para além do que se vê, para além do que se sente, para além do que se experimenta, para além do que se entende.

Mas, se é assim, também os que viram Jesus ressuscitado tiveram fé. Também eles acreditaram, e não apenas viram. Ou melhor, também eles, vendo, acreditaram! É o que nos ensina o Evangelho de hoje. Quando os discípulos viram o Ressuscitado, não viram só Jesus, viram o Senhor. S. João observa no início: "Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor".

O próprio S. Tomé viu as chagas das mãos e do lado de Jesus, mas, ao vê-las, não se limitou a admitir que afinal era verdade o que lhe tinham dito, mas foi muito mais longe, e confessou Jesus como seu Deus e Senhor. Diante de Jesus, exclamou: " «Meu Senhor e meu Deus» ". Com estas palavras, o apóstolo subiu muito alto na fé, muito para além da simples evidência.


CIMA da Conegliano,  Jesus ressuscitado e S. Tomé (com S. Gregório Magno) (c. 1505)

Como se deu este salto, como é que Tomé passou da simples visão das chagas, embora gloriosas, para um olhar de verdadeira fé, que reconhece a divindade de Jesus? Somente graças à prévia condescendência de Jesus, que ajudou a incredulidade de Tomé.

E em relação aos outros discípulos: como foi que Jesus, também a eles, os «ajudou» a acreditar? E, finalmente, como é que também hoje ajuda os que "acreditam sem terem visto"? Vamos agora tentar conhecê-lo um pouco melhor.

Em primeiro lugar, vemos que Jesus toma a iniciativa de Se manifestar aos discípulos. Quando vem, as portas estão fechadas, e mais do que as portas, são os discípulos que estão fechados em si mesmos.

Mas Jesus vem ao seu encontro, faz-Se encontrado por eles. Manifesta-Se a eles. Mostra-lhes as mãos e o lado. Na segunda vinda, chega mesmo a convidar Tomé a pôr o seu dedo nas feridas das mãos e a pôr a sua mão na chaga do lado.

Tudo isto nos mostra que os discípulos fizeram uma verdadeira experiência pessoal de encontro com Jesus ressuscitado. Eles viram e de certo modo experimentaram a continuidade entre o Crucificado, que sofreu as feridas no seu corpo, e o Ressuscitado, que se manifesta vivo. Deram o «salto» da fé, acreditaram em Jesus como Senhor, mas antes fizeram a experiência pessoal de um encontro que os tornou testemunhas privilegiadas.

E em nós, como é que nasce a fé, se não fizemos essa experiência, se não tivemos esse privilégio de ver Jesus? Em nós, a fé na ressurreição nasce também por iniciativa de Jesus. Acreditamos sem ver, e, atraídos pelo Pai (João 6, 44), aderimos à revelação de Jesus transmitida pelos Evangelhos. Mas a nossa fé tem atrás de si alguma coisa que a apoia: o testemunho daqueles que foram testemunhas privilegiadas.

A fé do crente não é um fenómeno isolado. "Ninguém acredita só, como ninguém vive só", diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 166). A nossa fé é pessoal, mas é, ao mesmo tempo, a fé da comunidade, é a fé da Igreja. Quando dizemos: «Eu creio», é como se disséssemos também: «Nós cremos».

Foi ao conjunto dos discípulos que inicialmente tinham sido constituídos como os "Doze", que Jesus Se manifestou "na tarde daquele dia, o primeiro da semana". Dada a morte de Judas e a ausência de Tomé, só estavam dez na primeira vinda de Jesus, mas foi este grupo que transmitiu a Tomé a sua experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Tomé não quis prescindir da sua própria experiência pessoal, mas Jesus reprova-lhe o ter-se fechado na sua incredulidade, sem ter admitido o testemunho dos outros.

Hoje, a nossa fé está vitalmente alicerçada neste testemunho,apoia-se no testemunho dos apóstolos. É verdade que não fizemos a experiência do encontro privilegiado que eles tiveram com Jesus, não "vimos o Senhor", mas o testemunho dos "Doze", isto é, da Igreja nascente, ajuda-nos e desafia-nos a não ser incrédulos, mas crentes, aceitando a graça de acreditar mesmo sem ver.

Este desafio é constante: a vida da Igreja é um constante apelo à fé de todos nós, e cada um de nós por sua vez, é um sinal em que a fé dos outros se pode apoiar também. É muito belo o que diz o Catecismo da Igreja Católica: "Cada crente é um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé" (n. 166).

Na vida de todos, a fé tem momentos de grande deslumbramento, mas é vivida, habitualmente, com grande normalidade e simplicidade. E temos de ter a humildade de reconhecer que a fé precisa de exercícios, de práticas de piedade muito simples, quase diria, de certas rotinas, mas que não a deixam cair na rotina.

Um conhecido escritor e filósofo francês, Jean Guitton, expôs num dos seus livros esta comparação: a fé é como a música, como a pintura, como os dons artísticos, isto é, precisa de exercício. "Não existe músico algum que não passe várias horas por dia a tocar escalas, que não vá muitas vezes a concertos, que não esteja permanentemente ocupado com a música" (As minhas razões de crer, p. 106-107). E o mesmo se podia dizer do desporto e de outras actividades: quanto mais forte é o dom inicial, mais necessário é o esforço e o exercício quotidiano.

Assim acontece com a fé: é preciso «treiná-la», exercitá-la, não só nas grandes provas, mas também na vida normal de todos os dias: nunca deixando de rezar, tendo práticas bem definidas de oração, como a Liturgia das Horas, o Rosário, o «Angelus» ou outras orações da tradição cristã, e nunca faltando à Missa de domingo, visitando diariamente Jesus no Sacrário, confessando-nos com frequência, etc.

Os apóstolos viram Jesus apenas algumas vezes, durante os dias da Páscoa, e depois, apoiando-se nesses momentos irrepetíveis, foram fiéis até ao fim, e deram a sua vida por Jesus.

E também nós, sem nunca nos separarmos da comunhão da Igreja e apoiando-nos no seu testemunho, viveremos uma fé ao mesmo tempo simples e luminosa, normal e intensa, sempre desejosos de atrair outros à mesma experiência e à graça sempre nova do encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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