6 de Abril de 2008 - Domingo III da Páscoa da Ressurreição do Senhor

Reconhecer Jesus

Depois de ler o Evangelho de hoje, ficamos sempre impressionados com a sua beleza e a sua densidade. É um texto de grande riqueza teológica e também profundamente humano e emotivo.

Quando o lemos, percebemos que devia ser com palavras semelhantes às dos discípulos de Emaús que a Igreja primitiva fazia o primeiro anúncio de Jesus Cristo aos que não O conheciam. Os primeiros cristãos começavam por anunciar Jesus como um "profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo".

Isso mesmo se reflecte no discurso de S. Pedro que hoje ouvimos nos Actos dos Apóstolos. Pedro diz à multidão: "«Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais»".


Rembrandt,  A Ceia de Emaús (1648)

Uma pergunta que agora poderia vir ao nosso espírito, seria esta: e nós, como falamos de Jesus, como O anunciamos? Deixo a pergunta a cada um, mas voltaremos em breve a reflectir sobre ela.

Por agora, continuemos com os primeiros cristãos, que falavam de Jesus como alguém absolutamente excepcional. Era Deus que agia por seu intermédio. Mas depois não ocultavam o escândalo da morte de Jesus, não escondiam que os príncipes dos sacerdotes e os chefes do povo "O entregaram para ser condenado à morte e crucificado", como dizem no Evangelho os dois discípulos.

Também a Primeira Carta de S. Pedro, que ouvimos na 2ª leitura, se focaliza no valor da sua morte. Apresenta Jesus como "Cordeiro sem defeito e sem mancha", e recorda que fomos resgatados "pelo Sangue precioso de Cristo". O Sangue derramado por Jesus sintetiza todos os seus sofrimentos e em especial a sua morte, entendida como um sacrifício oferecido a Deus por todos os homens.

Este anúncio da morte de Jesus devia causar enorme espanto em todos os que o ouviam. E também hoje não pode deixar de continuar a causar enorme espanto. Como foi possível a condenação de Jesus? Foi certamente a sentença mais injusta de todos os tempos. Mas será que a injustiça prevaleceu? A morte levou a melhor?

No discurso dos Actos, S. Pedro fala logo a seguir da ressurreição de Jesus: "Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio". Estas palavras foram ditas no Domingo de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Nessa altura já era possível falar da ressurreição com toda a tranquilidade e com grande firmeza.

Mas não foi logo assim, e o Evangelho permite-nos voltar atrás no tempo, e a acompanhar estes dois discípulos, que ainda nada sabiam da vitória de Jesus. Vamos também nós voltar a acompanhá-los. Os dois discípulos iam já de regresso à sua terra, profundamente tristes. Voltavam à sua vida de antes, sem horizontes e já sem esperança.

Apesar de tudo, e à mistura com a tristeza, levavam no seu coração um grande amor. Nas suas palavras,já em diálogo com o Desconhecido que Se pôs com eles a caminho, reflecte-se esse enorme carinho por Jesus, que é comum a todos os cristãos, mesmo nos momentos de dor.

Mesmo sem ainda saberem que estava vivo, os discípulos não escondem todo o seu imenso amor por Jesus, esse amor que também nós sentimos, e queremos manifestar de muitas maneiras. Não é sentimentalismo, é uma questão de justiça, é uma simples questão de verdade. Diante de Jesus Cristo, na verdade da sua revelação, como podemos reagir senão pela fé, senão pelo amor?

Neste texto do Evangelho, S. Lucas reflecte também a condescendência que Jesus teve com os dois discípulos quando veio ao seu encontro no caminho e lhes explicou as Escrituras, e sublinha a sua bondade, quando concordou em entrar em casa e partir o pão com eles. E permite-nos ainda escutar ao longo dos tempos, com a mesma emoção da primeira vez, este pedido insistente e emocionante dos dois discípulos a Jesus: "«Ficai connosco, Senhor»".

No entanto, o centro do Evangelho é o reconhecimento de Jesus pelos dois discípulos. Este reconhecimento fez-se em dois momentos ou etapas, que todos podemos percorrer, e por isso é importante sermos capazes de as identificar.

O primeiro é a compreensão das Escrituras. Todas elas, "começando por Moisés e passando por todos os profetas", falam de Jesus, e iluminam a necessidade da sua paixão e morte para entrar na glória. É preciso saber ler nas Escrituras este anúncio de Jesus, para que o nosso coração possa também «arder» de amor e fé. Foi precisamente a explicação da Escritura que incendiou o coração dos discípulos ao longo do caminho.

O segundo momento foi a fracção do pão: Jesus, "quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento, abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No".

Alguém poderia dizer: o partir o pão e a acção de graças não tinham nada de especial, eram gestos normais de qualquer judeu piedoso... Sim, mas os discípulos tinham estado à mesa com Jesus outras vezes, e reconheceram o seu modo próprio, inconfundível, de rezar e repartir o pão. Jesus é inconfundível!

Além disso, S. Lucas propõe-nos ler este passo, não só como Cléofas e o outro discípulo o viveram, mas como os cristãos, quando o Evangelho foi escrito, e ao longo dos tempos, também hoje, o podiam reviver.

E não parece haver dúvidas de que S. Lucas nos quis fazer ver neste gesto de Jesus um sinal ou anúncio da Eucaristia, que também muitas vezes é chamada, sobretudo nos Actos dos Apóstolos, "Fracção do Pão" (cf. 2, 42.46; 20, 7.11). Não pode haver dúvida da interpretação eucarística que S. Lucas deu a esta acção de Jesus.

Os dois meios que temos para chegar ao reconhecimento de Jesus são, portanto, as Escrituras e o Pão partido por Jesus. A explicação das Escrituras incendiou os corações mas não produziu logo o reconhecimento. Este só aconteceu quando Jesus partiu o pão, e foi então que se deu o verdadeiro encontro com o Ressuscitado.

Assim acontece também hoje. A leitura da Palavra de Deus ilumina a nossa vida. E o Pão santíssimo da Eucaristia com que nos alimentamos transforma-nos intimamente, enche­nos de alegria, e aproxima-nos dos outros de um modo novo. Depois de o recebermos, recomeçamos a caminhar com entusiasmo.

Na alegria do Tempo Pascal, peçamos por intercessão de Maria que aumente em nós e fome da Palavra explicada por Jesus na sua Igreja, e do Pão em que Ele próprio Se oferece em alimento, para levarmos ao mundo uma nova esperança e a alegria de Jesus ressuscitado.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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