20 de Abril de 2008 - Domingo V da Páscoa da Ressurreição do Senhor

Fé humana e divina

O Evangelho de hoje começa por um apelo à fé. Jesus equipara-se a Deus: "«Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim»". A fé que Jesus nos pede não é simplesmente humana, é uma fé divina, sobrenatural.

Mas também há uma fé humana, que significa confiança. Quando digo a alguém: «Acredito em ti». isto significa: «Confio em ti». Acredito' que és sincero. Confio na tua palavra, nas tuas intenções.

Muitas coisas da nossa vida dependem desta fé-confiança. O simples facto de entrarmos num meio de transporte, por exemplo, um autocarro, significa acreditar, isto é, confiar que o motorista nos vai levar à paragem prevista, e não vai mudar de rumo a meio, ou porque lhe apetece, ou porque está cansado, ou por qualquer outra razão.

Um dos casos mais evidentes da importância da fé-confiança é o casamento. Cada um acredita no outro, confia no outro, na sua sinceridade. na sua intenção recta. O casamento é construído no pressuposto de que cada um, o marido e a esposa, merece a confiança do outro, visto que manterá a sua palavra até ao fim. Cada um deve poder estar tranquilo e confiar totalmente no outro.


Luca Signorelli,  Comunhão dos Apóstolos (1512)

Esta confiança, porém, é abalada, quando se admite que, afinal, o «sim» de hoje se possa transformar facilmente em «não» amanhã.

É evidente que em alguns assuntos podemos mudar de opinião, alterar uma escolha que tínhamos feito inicialmente. Mas, quando se trata de duas pessoas que se dão uma à outra, (ou se dão a Deus - este será um outro caminho), o «sim» só pode ser definitivo. Pelo menos, só pode querer ser definitivo. Se depois não o conseguir, isso é outra questão.

Mas o compromisso inicial será tudo fazer e lutar com todas as forças para que este «sim» seja definitivo e se mantenha a vida inteira. Não deveria ser possível passar facilmente do «sim» para o «não». Mesmo só no âmbito da sociedade civil, deveria ser pedido ao casal um esforço sincero para salvar o «sim», e não facilitar a sua passagem a «não».

Mas as leis em vigor não facilitam este esforço. Pelo contrário, uma lei recentemente aprovada no nosso país vem facilitar o fim do casamento. E acaba por ser uma lei indutora do divórcio, que o facilita e promove, uma lei que encoraja a desagregação da família.

Pode ser bom notar que os cristãos não estão dependentes deste género de leis arbitrárias e contrárias ao interesse da família. Podem até viver ignorando que estas leis existem. A lei de um casal cristão é a lei natural, inscrita nos corações, e a Lei Nova da graça de Cristo. Certas leis que afectam realidades essenciais e são objectivamente injustas, não nos interessam nem nos afectam. Lamentamos que existam, mas não interferem na nossa vida.

O que é que interessa a uma mulher cristã, a um casal cristão, que o aborto seja permitido até às 12 semanas? Não lhe passa pela cabeça suprimir a vida do novo ser que aquela mãe traz dentro de si, seja qual for a fase da sua gestação. Não é por ser permitido que passa a ser bom; pelo contrário, continua a ser muito mau.

Estas leis injustas, se não as podemos alterar, podemos ignorá-las. Não podemos deixar que nos influenciem. Queremos continuar a viver uma vida baseada na fé-confiança, baseada na liberdade, que leva ao compromisso e conduz à alegria. E podemos ajudar outras pessoas a viver baseadas não apenas no que é permitido ou proibido pela lei, mas a buscar o que é bom, o que é melhor, o que está de acordo com a verdade, o que é mais conforme com a pessoa e a sua dignidade.

Mas a fé não é só humana, é também divina e sobrenatural. Pouco antes de dar a vida por nós, Jesus, como já recordámos, fez um pedido aos discípulos, que hoje ouvimos no Evangelho: " «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim»".

Ao longo dos séculos, a Igreja sempre desejou corresponder fielmente a este pedido de Jesus, e o mesmo acontece hoje com cada um de nós. Recebemos a graça de acreditar em Jesus com a mesma fé divina com que acreditamos no Pai: no rosto humano de Jesus, vemos o Pai; e no Coração de Jesus, Filho de Deus, feito homem como nós, conhecemos e experimentamos o amor de Deus Pai e a sua infinita misericórdia.

Por isso o nosso coração não se perturba, e permanece sereno e firme, na luz e na força da fé, em todas as circunstâncias. Iluminados pela fé, desejaríamos ajudar outras pessoas a viver assim: a fé é fonte de alegria, e ajuda-nos a viver melhor.

A 1ª leitura conta-nos que os Apóstolos - os Doze ­ sentiam o desejo e a necessidade de se dedicarem totalmente "à oração e ao ministério da palavra". Queriam estar livres para poderem anunciar Jesus a muitas pessoas. Por isso escolheram sete colaboradores, os sete primeiros diáconos, que se deviam dedicar ao serviço da caridade, deixando assim os Apóstolos mais livres para a evangelização. E S. Lucas descreve a forte expansão do Evangelho nesses momentos: "a Palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém, e obedecia à fé também grande número de sacerdotes".

E hoje, continua a ser assim? Hoje, graças a Deus, continua a haver muitas conversões. E a missão da Igreja continua a ser a mesma: levar a todos a luz de Jesus. O Santo Padre Bento XVI, eleito há 3 anos, disse-o na sua primeira mensagem: "Ao assumir o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua missão é a de fazer resplandecer diante dos homens e mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua própria luz, mas a de Cristo".

E toda a Igreja, disse também o Santo Padre, "deve reavivar em si mesma a consciência da missão de propor ao mundo, novamente, a voz daquele que disse: «Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (João 8,12)".

Acreditamos que esta missão, tal como na Igreja de Jerusalém, pode ter hoje grande êxito, porque o ser humano foi feito para a luz e para a vida, para o amor, para o compromisso e para a entrega de si mesmo.

Que a materna intercessão de Maria Santíssima, em cujas mãos Bento XVI pôs o presente e o futuro da sua pessoa e de toda a Igreja, o defenda e acompanhe sempre, e conduza para o Filho de Deus, que é também seu Filho, Jesus Cristo, "caminho, verdade e vida", os passos de todos os homens, para que um dia, por Ele, todos cheguemos ao Pai, e n'Ele tenhamos a vida e a plena alegria, para sempre.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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