27 de Abril de 2008 - Domingo VI da Páscoa da Ressurreição do Senhor
Amor verdadeiro
|
O verbo mais repetido no Evangelho de hoje é o verbo amar. Jesus espera o nosso amor: "«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos»". Será que Jesus "precisa» do nosso amor? Quase parece que sim, mas no final vemos que, se o nosso amor for verdadeiro, nós é que beneficiamos: "«Quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele»". Que amor é este que Jesus espera de nós? Há muitos géneros de amor. Um escritor polaco, sociólogo e pensador conceituado, que vive na Inglaterra há quarenta anos, chamado Zigmunt Bauman, escreveu, em 2003, um livro intitulado «Liquid Love», O amor líquido, e deu-lhe o subtítulo Acerca da fragilidade dos vínculos humanos. Na capa tem um coração desenhado na areia da praia, à beira-mar. Está muito bem desenhado, é bonito, mas não vai durar muito, basta que venha a próxima onda... Em 2007 este autor publicou um outro livro chamado Vida de consumo, em que usa uma expressão parecida com a anterior. Agora fala de "modernidade líquida», contraposta à "modernidade sólida». Não é difícil de compreender o que quer dizer. |
|
Na "modernidade sólida» acreditava-se nas vantagens das coisas que duram muito tempo. Na "modernidade líquida», que é a época em que estamos, negam-se essas vantagens, e prefere-se o que é novo, o que acaba de sair, o que acaba de ser posto à venda. É uma das características do "sindroma consumista»: dar valor ao efémero, ao que passa rapidamente, e rejeitar o que dura mais tempo, por se pensar que se torna aborrecido, monótono, fora de moda.
A liberdade também sofreu uma grande alteração. Há muito que deixou de ser vista como a capacidade de escolha, que leva à entrega, ao compromisso. Esquecendo este significado, que é o verdadeiro, a liberdade "moderna» já só significava que cada um busca a sua felicidade (seja ela terrena ou eterna) como muito bem lhe apetecer. A liberdade pós-moderna ainda é mais pobre, e baseia-se apenas no consumo. É apenas a liberdade de poder consumir.
Segundo Bauman, a lógica do consumo constitui para muitas pessoas não uma das opções disponíveis, mas a única, porque a sociedade desaprova as alternativas. Não há alternativa. Mas isso é preocupante: diversos estudos provam que o aumento do consumo - excepto nos níveis mais baixos - não se traduz no consumidor num aumento da felicidade experimentada. Não é por se consumir mais que se é mais feliz.
É inevitável que "uma sociedade de consumo só pode ser uma sociedade de excesso e despesismo e portanto de exagero e desperdício", escreve este autor. Na sociedade «líquida» tudo se pode deitar fora, ou melhor, tudo tem que poder ser deitado fora: os bens materiais e as convicções, os ódios e os amores.
E o amor, como é que é, como é que está? O amor está muito limitado. Estabelecem-se laços, mas sempre muito fracos, para se poderem desapertar. Há uns anos usava-se a expressão "dar o nó», para caracterizar o casamento, mas hoje há muitos que dão só um laço solto, que se desfaz facilmente.
A principal característica do "amor líquido», segundo este autor, é que se estabelecem relações interpessoais, mas não se consolidam vínculos. evitam-se ao máximo os aspectos vinculativos, que se pensa que representam um peso. Mas há outras características, como são a dificuldade para amar o próximo, a xenofobia, o desprezo pelos estranhos (imigrantes, minorias étnicas), a indiferença pelo destino das vítimas das guerras, etc.
Depois da sua longa análise, o autor não tira nenhuma conclusão, e deixa só este comentário: "De momento, as perspectivas são sombrias". Também sugere que "hoje, mais que nunca é urgente a busca da humanidade que temos em comum, e das acções que se desprendem dela". É uma boa pista.
Mas para nós é tempo de voltar ao Evangelho. Embora vivamos num tempo em que domina o amor «líquido». Jesus convida-nos e desafia-nos a viver um amor «sólido». isto é, verdadeiro, profundo, definitivo.
Jesus associa o amor aos mandamentos. Fala até dos «seus» mandamentos. A mentalidade dominante acharia que o amor não tem nada a ver com os mandamentos. mas os mandamentos defendem o amor, defendem-no do egoísmo, defendem-no do simples «consumo», do «uso», que facilmente se torna «abuso».
Um dos mandamentos que mais tem a ver com o amor, é o mandamento da castidade. Muitos acham que está ultrapassado, ou que não há mal nenhum em não o viver, mas a experiência prova que, quando não há um esforço sincero para viver de acordo com ele, os laços nunca se tornam apertados. ficam sempre frágeis, e desfazem-se com a maior facilidade.
Dos cristãos de hoje o que se espera é que vivam com naturalidade a solidez da sua fé e do seu amor. Os cristãos leigos estão no meio do mundo e confrontam-se com as mais diversas situações. Não se espera que assumam uma atitude ostensivamente crítica dos estilos de vida «pósmodernos», mas espera-se que não escondam a sua alegria por viverem de um modo diferente, enraizado na fé, inspirado na sua união com Jesus. E muitas vezes pode acontecer o que S. Pedro diz na 2ª leitura: que alguns vos perguntem, em especial a vós, leigos, "sobre as razões da vossa esperança", E então há que responder, "com brandura e respeito", e também com toda a clareza. mesmo que haja incompreensões ou críticas.
Mas seremos capazes? Não iremos ser absorvidos por outros estilos de pensar ou de viver? Não se irá dissolver o nosso estilo cristão no estilo consumista ou em qualquer outro que não tem nada a ver com a nossa fé?
Não, porque Jesus promete aos que O amam e desejam amar cada vez mais, que não os deixará «órfãos», e que lhes enviará o Espírito Santo.
Ao Espírito Santo Jesus dá o nome de Paráclito, isto é, Defensor, e também Espírito da verdade. Dizer «Espírito da verdade» é o mesmo que dizer: «Espírito de Jesus», porque Jesus é a Verdade que o Pai nos revelou, a Verdade em pessoa, que ilumina a nossa inteligência e apaixona o nosso coração.
O Espírito Santo vem para estar sempre connosco, para habitar connosco e estar em nós, como diz Jesus, a fim de nos confirmar nesta certeza interior que nos ilumina, nesta fé firme e apaixonada em Jesus vivo, nesta vontade inabalável de fazer a sua vontade e cumprir os seus mandamentos, mesmo quando nos parece difícil ou até humanamente impossível.
O mundo não O vê nem O conhece, mas nós sim, porque habita connosco e está em nós.
Que o Espírito Santo nos confirme no amor e na fé, que não são um sentimento passageiro, mas uma entrega definitiva, fonte de alegria, e fonte também da única felicidade que merece este nome, porque é para sempre.
Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Arquivo