4 de Maio de 2008 - Domingo VII da Páscoa - Ascenção do Senhor

O poder de fascinar os corações

Quando alguém se sente mal ou está a passar por um momento difícil, diz-se que está «em baixo». Curiosamente, não existe a expressão contrária. Mas, quando se quer dizer que uma pessoa teve êxitos importantes, por exemplo no aspecto profissional ou financeiro, diz-se que «subiu na vida».

Em relação a Jesus, também se usa esta imagem, embora com um alcance completamente diferente. O texto dos Actos dos Apóstolos diz que Jesus, depois de ter anunciado a vinda do Espírito Santo, "elevou-Se à vista deles". E mais adiante, os "dois homens vestidos de branco" que falam com os Apóstolos, dizem que Jesus "foi elevado" para o Céu.

É a partir deste texto, e também da conclusão do Evangelho de S. Lucas, que se fala de Ascensão, como se Jesus subisse para um outro mundo muito acima do nosso e inacessível ao nosso olhar, que é o mundo de Deus, a que chamamos «Céu».

É uma imagem bela e dinâmica, e com ela exprimimos ao mesmo tempo tristeza e alegria. Tristeza, porque já não vemos Jesus, fisicamente, com a sua aparência real, como O viram os Apóstolos. Só vemos Jesus fisicamente na aparência «emprestada» da Eucaristia, e sentimos saudade e desejo de O ver, na sua humanidade agora glorificada pela ressurreição.


Theophanes de Creta,  A Ascensao (1546)

Mas sentimos também alegria, de resto ainda maior, porque, com os olhos da fé, O vemos «muito alto», isto é, inteiramente em Deus. E ver Jesus «elevado», isto é, plenamente glorificado, enche de alegria e de honra aqueles que O amam, e que, apesar de não O verem, esperam com confiança a sua vinda, como foi igualmente anunciado aos Apóstolos: "Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu»".

A imagem da Ascensão é uma imagem muito expressiva, mas é interessante observar que S. Mateus não a usa, na conclusão do seu Evangelho, que hoje lemos. S. Mateus nunca fala da «ascensão», só fala da «ressurreição» de Jesus. Haverá aqui uma contradição entre os dois evangelistas?

Não, porque S. Mateus, ao falar da ressurreição, já inclui o que S. Lucas, tanto no seu Evangelho, como nos Actos dos Apóstolos, quer ensinar, quando fala da Ascensão de Jesus.

O próprio S. Mateus situa a conclusão do seu Evangelho num alto monte da Galileia. O monte anuncia a elevação. E este é também o monte da Transfiguração, o monte da revelação da glória de Jesus. Aqui se reúnem os Onze - e são apenas onze porque Judas faltou, e ainda não foi substituído. Mas nota-se aqui uma sombra de tristeza, que S. Mateus não se preocupa em esconder. Vamos fixar-nos por um instante neste pormenor.

Quando alguém falta ou deixa vazio o seu lugar, isso dói-nos, faz-nos grande pena. S. Mateus não o esconde. Hoje poderíamos dizer que os cristãos ausentes são uma ferida para todos. Apetecia dizer: «Amigos, voltem». Se os Onze pudessem, diriam, «Judas, volta». Mas para Judas já era tarde demais.

Há dia encontrei esta notícia interessante: cerca de três mil pessoas voltaram à Igreja Católica na Diocese americana de Phoenix, graças ao acção de um site na Internet: www.CatholicsComeHome.org, que explica de maneira atractiva e simples, e através de uma série de perguntas e de respostas, a graça de pertencer à Igreja fundada por Cristo. O site tem uma versão em espanhol: www.CatolicosRegresen.org.

«Católicos, Regressem a Casa, explica o site, é um serviço dirigido a todos os que deixaram a Igreja Católica, por qualquer motivo. Seja por ressentimento, irritação, divórcio, isolamento, apatia, rebelião ou falta de entendimento da fé, regressar a casa nunca foi mais fácil».

«A nossa meta é proporcionar uma variedade de recursos que ajudarão a entender mais claramente a Igreja Católica e seus ensinamentos», informa o site na sua página inicial. «Em Católicos, Regressem, acrescentam os seus autores, prometemos que honestamente sempre diremos a verdade, sem ocultar nada. Não fugiremos de temas difíceis, nem hesitaremos em assinalar as muitas maravilhas e os aspectos sobrenaturais da Igreja Católica».

Aqui está um exemplo interessante, que podermos seguir, em relação a muitas pessoas de família ou amigas. Mesmo só pelo diálogo ou por outros meios, podemos conseguir que muitos regressem a casa, isto é, ocupem de novo o seu lugar na Igreja, na comunhão dos irmãos.

Continuando o seu relato do que sucedeu no alto monte, onde os Onze viram Jesus ressuscitado, S. Mateus também não esconde que, "quando O viram, adoraram-No, mas alguns ainda duvidaram".

S. Mateus podia ter escondido este pormenor, mas também não o fez, revelando-se assim inesperadamente próximo dos tempos de hoje, em que a dúvida poderá ser para alguns uma tentação constante.

Quando aparece a dúvida, que se pode fazer? O que os Onze fizeram. Procuraram ver melhor Jesus. Procuraram ouvir melhor Jesus. No início, podem ter pensado que os seus sentidos os estavam a enganar. Mas rapidamente perceberam que,não, era mesmo Jesus, era o seu rosto sereno e amigo, cheio de bondade e ao mesmo tempo cheio de majestade, era a sua voz inconfundível.

S. Mateus revela então todo o alcance da ressurreição de Jesus, que a mensagem da Ascensão sublinha especialmente: Jesus não está limitado, já não depende de ninguém: "«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra»". Isto não significa que Jesus mande no mundo como os governantes ou os que detêm o poder económico. Mas tem o poder de tocar e fascinar os nossos corações e os de todos os homens da Terra.

Mas isto não acontece de repente. É um caminho. É o resultado de um anúncio. Não pode ser imposto. O Evangelho tem de ser anunciado. Por isso Jesus diz: "«Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando­as a cumprir tudo o que vos mandei»".

É um dinamismo que não tem fim, em que nós próprios estamos envolvidos, para que cada vez melhor conheçamos a verdade da fé em que fomos baptizados, e cada vez mais profundamente a vivamos e anunciemos aos outros.

Por fim, Jesus promete que estará com os seus todos os dias, todas as horas, em todas as circunstâncias: "«Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos»". Ele é verdadeiramente o Emanuel, «Deus connosco». Nunca nos deixa sós. Em todas as circunstâncias da nossa vida podemos contar com a sua presença, com a sua palavra, com o seu amor.

E podemos agora tentar definir melhor o que é a Ascensão. Apesar de recorrer a uma imagem que tem a ver com o espaço e o movimento, a Ascensão não é certamente uma simples imagem. A Ascensão é "a entrada irreversível" da humanidade de Jesus na glória divina, simbolizada pela nuvem e pelo céu (Catecismo da Igreja Católica, n. 660).

Ao ir à nossa frente, Jesus fica oculto aos nossos olhos, mas não Se separa de nós, e "desperta em nós a esperança de estarmos um dia eternamente com Ele" (n. 667). Que esta esperança nos ajude a começar de novo todos os dias, e nos dê a coragem de subir ao alto monte, isto é, de caminharmos na presença de Deus, para um dia nos encontrarmos eternamente com Ele.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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