11 de Maio de 2008 - Domingo de Pentecostes

Pensar com a Igreja

Cinquenta dias depois da Páscoa, teve lugar um acontecimento extraordinariamente importante: o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos, e a Igreja saiu à rua, tomou plena consciência da sua fé em Jesus ressuscitado, assumiu-se como o novo Israel, inaugurou a sua missão.

A vinda do Espírito Santo foi como um vento muito forte. A própria palavra «espírito» significa vento, e também sopro vital. Quando, naquele dia, se faz sentir "um rumor semelhante a forte rajada de vento", todos entenderam que era Deus que estava presente, como no início do mundo, quando "o espírito de Deus pairava sobre as águas" (Génesis 1, 2).

A vinda do Espírito Santo foi também como um fogo, ou antes, como "uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles", o que significa que o Espírito Santo é dado a todos, e toca pessoalmente o coração de cada um, a cada um dá uma grande fé, um grande amor, um grande entusiasmo.

A vinda do Espírito Santo foi o início da missão da Igreja, que se dirige a todos os homens, e que o faz de um modo claro e compreensível, e não 'misterioso' nem secreto ou esotérico.


Theophanes de Creta,  A descida do Espírito Santo
(Ícone do Mosteiro Stavronikita, Monte Athos) (séc. XVII)

Como relata S. Lucas, "todos ficaram cheios.do Espírito Santo, e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem". Não é uma linguagem incompreensível nem estranha, não é aquele «falar em línguas» ininteligível que S. Paulo critica (em 1 Coríntios 14, 2-19): é um anúncio claro e coerente, de tal modo que todos os presentes podem dizer: "«Ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus»".

Quais são essas "maravilhas"? Acima de tudo, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, e o dom da salvação, oferecida pelo Pai, em Jesus ressuscitado, a todos os homens. A mensagem decisiva que foi anunciada naquele dia e que todos precisamos de continuar a ouvir hoje, é o anúncio da salvação: Deus salva-nos, em Jesus Cristo.

Este anúncio dá sentido a todo o que somos e a tudo o que fazemos, dá sentido ao tempo e à nossa caminhada no tempo, e por isso é necessário continuar a transmiti-lo a toda a gente, de um modo cativante, belo, claro, atraente, convincente.

Naquele momento, os que estavam presentes eram ainda apenas "judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu", bem como "prosélitos", ou seja, homens que acreditavam em Deus, e se preparavam para aderir ao judaísmo.

O texto dos Actos tem uma lista de povos e de terras muito extensa, mas não abrange o mundo inteiro, eaté omite certas regiões onde o cristianismo se implantou nos primeiros tempos, como por exemplo a Síria, a Cilícia, a Macedónia, a Acaia, mas tem a vantagem de se estender do Oriente ao Ocidente. Em breve, porém, pela força do Espírito Santo, o Evangelho de Jesus Cristo passou para além das fronteiras do judaísmo, e chegou ainda mais longe, a muitos outros povos, a todos os povos da terra.

O Espírito Santo é o principal «motor» que impele a Igreja para os povos gentios, que passam a fazer parte do Povo de Deus, a Igreja da nova Aliança. Como dizia S. Paulo, na 2ª leitura, "todos nós, judeus e gregos, escravos e homens livres, fomos baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo".

Hoje, pedimos ao Espírito Santo que nos ajude a ir ao encontro de muita gente que talvez ainda não conheça Jesus, amigos, colegas, pessoas de família, e muitos outros. E que seja o Espírito Santo a tocar o seu coração, a iluminar a sua inteligência, para que possam aderir, com alegria, ao dom da fé em Jesus ressuscitado, e sintam a Igreja como a sua casa, a sua nova família.

Há dias, no discurso que dirigiu ao bispos dos Estados Unidos, no Santuário da Imaculada Conceição, o Santo Padre Bento XVI chamou a atenção para um erro em que hoje se pode cair facilmente. Como vivemos numa sociedade em que se dá muito valor à autonomia, é fácil adoptar uma atitude individualista, que esquece as responsabilidades em relação aos outros.

Até na Igreja entrou "esta acentuação do individualismo", "dando origem a uma forma de piedade que sublinha a nossa relação privada com Deus, em detrimento do chamamento a sermos membros de uma comunidade redimida".

Uma forma muito boa de vencer este individualismo é celebrar e viver a fé em comunidade, responsabilizar-se pela sua vida, e também, na medida do possível, participar nos seus diversos serviços e assumir alguma das muitas tarefas que lhe cabe realizar.

Mas mais importante do que isto é pensar que não é suficiente que cada um viva uma fé puramente individual. Não é suficiente rezar individualmente, mas precisamos de nos reunir em Igreja. Temos absoluta necessidade de vir à Igreja, para manifestar aquilo que somos desde o nosso baptismo: membros da Igreja visível, que é o Corpo de Cristo, e na qual se torna presente a Igreja invisível do Céu.

Outra forma muito eficaz de vencer o individualismo é aquilo a que o Santo Padre chama: «pensar com a Igreja». A nossa fé não pode ser «a la carte», como quem entra num restaurante, olha para o menu, e diz: 'Disto gosto, disto não gosto'. Não tem sentido nenhum dizer: 'a Igreja ensina isto, mas eu não concordo'. Podemos precisar de aprofundar melhor o sentido do ensinamento da Igreja sobre um determinado assunto, mas não podemos ignorar ou desprezar esse ensinamento.

Pensar com a Igreja leva-nos a viver, a agir como cristãos. Não pode haver uma separação entre a fé e a vida. Há pessoas que têm fé, mas a sua fé não influencia a sua vida de todos os dias. Não podemos viver «como se Deus não existisse». A fé dá uma orientação a toda a nossa vida, mesmo às pequenas escolhas de cada dia.

Um outro modo de vencer o individualismo, é pedir perdão a Deus através de alguém que representa simultaneamente Deus e os irmãos. O Evangelho de hoje relata que Jesus, no Domingo de Páscoa, deu aos Apóstolos o Espírito Santo, com o poder espantoso e admirável de perdoar os pecados.

É uma enorme graça receber o perdão de Deus, através da confissão pessoal, clara, humilde, contrita, confiante, feita ao sacerdote, como ministro de Cristo e representante da Igreja.

É um acto íntimo, secreto, mas nessa intimidade, constroi a comunhão. Pode parecer que é difícil, porque é um exercício de humildade, mas vale a pena esse esforço, porque, como seu fruto, recebemos o perdão de Deus e a paz da Igreja.

O Individualismo doentio é fonte de muitos males, e até de violências e crimes, mas o sentido de comunhão traz-nos alegria, paz e esperança.

Neste dia de Pentecostes, pedimos que o Espírito Santo vença em nós os esquemas do egoísmo, de uma vida fechada sobre si mesma, e nos abra à partilha, ao dom de nós mesmos, para sentirmos a alegria da comunhão, da amizade, do serviço, no entusiasmo e no compromisso de anunciar Jesus vivo a todos homens e a todos os povos.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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