18 de Maio de 2008 - Santíssima Trindade

Deus entrega o Filho

O Evangelho de hoje fala-nos do amor de Deus pelo mundo: "Deus amou tanto o nundo, que entregou o seu Filho Unigénito".

Este ensinamento impressionante não nos impede de perguntar: para onde vai o mundo? De onde vem?

A estas perguntas não é fácil responder apenas pela razão. Os cientistas talvez até consigam um dia explicar os primeiros momentos do universo. Mas quanto a saber porquê, por que foi assim, isso já ninguém é capaz de dizer só pela ciência ou só pela reflexão.

Os cientistas podem descrever os fenómenos e as leis que os regem, e os filósofos podem reflectir sobre as essências ou sobre as simples experiências humanas, nas ninguém saberá dizer por que é que as coisas são como são, e se há um sentido a unificar este mundo espantoso, esta vida fascinante e tantas vezes inquietante.


Sandro Botticelli,  Santíssima Trindade (1491-93)

No meio de nosso fascínio às vezes inquieto brilha a luz da Revelação divina: "Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu filho Unigénito". Parece que estamos sozinhos no mundo, mas estamos a ser olhados. Às vezes, entramos num sítio onde julgávamos que estávamos sozinhos, mas afinal estava lá uma pessoa a olhar para nós. Outras vezes há câmaras de vídeo e até nos avisam de que estamos a ser filmados, e pedem-nos para sorrir...

A Palavra inspirada diz-nos que todo o mundo está a ser olhado, e que esse olhar é um olhar de amor. Mesmo sem nos apercebermos, Deus olha-nos com amor. É o olhar sereno e ao mesmo tempo compassivo de quem já conhece o fim da história, dado que conhece perfeitamente o seu princípio.

Às vezes faz-nos impressão que Deus não interfira mais na natureza e na história. Por que é que não impede os furacões ou os terramotos, ou não intervém para que não haja guerras ou os aviões não caiam? Normalmente, Deus não interfere. As leis da matéria são estas. As placas tectónicas, por exemplo, têm de se deslocar, não se pode evitar.

Mas Deus não podia interferir? Podia, e, se pensarmos bem, até o faz, mas de uma outra maneira, a outro nível, infinitamente mais profundo e decisivo.

Diz a Palavra inspirada, no Evangelho de S. João: "Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna". É assim que Deus interfere: envia o seu Filho, "para que o mundo seja salvo por Ele".

Mas esta revelação do Evangelho suscita duas perguntas: 1ª) Salvo de quê? 2a) Salvo como? Vamos procurar responder. 1ª) Salvo de quê? Salvo do que nos destrói, que não é a morte, porque é impossível que a morte nos destrua totalmente. Um homem tão recto e tão amigo da sabedoria como foi Sócrates, injustamente condenado à morte em 399 a. C., em Atenas, estava seguro de que o ser humano tem uma alma imortal. Não discuto se o conseguiu provar, nem se os argumentos de Platão, que deu voz a Sócrates, serão totalmente convincentes, mas a sua convicção só pode ser verdadeira.

Por isso o pior mal não é a morte, é o mal deliberado, isto é, o pecado. É o mal que fazemos aos outros, mesmo que só em muitas pequenas injustiças, e o bem que omitimos, o imenso bem que podíamos fazer e não fazemos.

Na 1ª leitura aparece Moisés, que confiava que Deus perdoaria ao povo os seus pecados e iniquidades, e faria dele a sua herança. É uma esperança ousada, mas não devemos renunciar a ela. O mal não pode ser mais forte do que a verdade e o amor.

2ª) E salvos como? Deus salva-nos, entregando o seu Filho Unigénito, como diz o Evangelho. E pode fazê-lo, porque em Deus há esta reciprocidade, esta circulação de vida, esta comunhão de Pessoas, a que chamamos a Santíssima Trindade.

Se Deus fosse apenas uno, estaria fechado em Si mesmo. Mas, por ser trino em Pessoas, pode entregar-Se aos homens, como reflexo da sua própria entrega íntima. Deus entrega o Filho e entrega-Se a Si mesmo no Filho, que em Jesus Se fez verdadeiro homem, como nos revela a Palavra inspirada nos Santos Evangelhos.

Por isso é tão forte a esperança de quem acredita no Filho entregue, como diz S. João: "Quem acredita n'Ele, não é condenado", porque, ao acreditar, também vive essa dinâmica de entrega, por amor.

Mas quem não acredita "já está condenado": palavras fortes, até chocantes, mas que devem ser lidas como um alerta: quem não acredita, não entrou nessa dinâmica de entrega do Filho.

Corre o risco de se fechar em si mesmo. Corre o risco de não saber amar, de se afogar no seu egoísmo, que pode levar à indiferença, ao abuso, à violência. É um perigo tremendo, para o qual o Evangelho nos alerta, e que seria, se não fosse evitado, a suprema frustração.

Mas a Palavra do Evangelho convida-nos a entrar na dinâmica da entrega das Três Pessoas divinas, na contemplação do mistério da Santíssima Trindade, que é em Si mesma um mesma mistério de comunhão.

Na sua essência mais íntima, este mistério é para nós inacessível, mas está bem visível os nossos olhos na entrega do Filho Unigénito, que podemos não apenas admirar e contemplar, mas também imitar, pelos muitos modos, pequenos e grandes, com que nos podemos entregar a nós mesmos, na verdade e no amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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