1 de Junho de 2008 -

Obedecer à palavra de Deus

Há uma experiência que todos temos: quando procuramos pôr em prática as palavras de Jesus, sentimos uma outra segurança, uma alegria diferente.

Continuamos a ser pessoas imperfeitas e frágeis, mas, ao mesmo tempo, sentimos que já somos como aquela casa construída sobre a rocha, de que fala Jesus no Evangelho: mesmo no meio da tempestade continua de pé, ao contrário da casa construída sobre a areia, que não consegue aguentar o vento mais forte ou a torrente um pouco mais caudalosa.

A rocha sobre a qual nos construímos e apoiamos, é Jesus Cristo. É Ele o fundamento da nossa vida. Sem Ele, não aguentamos, e desabamos.

E o mundo inteiro, se não se apoiar e construir na rocha firme que é a Palavra de Deus, também não se aguenta, desaba, arruína-se a si próprio!

Uma casa mal construída ou sem alicerces profundos desaba facilmente. O sismo que recentemente afectou a China, provou-o uma vez mais, tragicamente, uma vez que atingiu sobretudo os jovens que frequentavam as quase 7 mil escolas, que foram destruídas, e daí resultou a morte de milhares de estudantes. Os pais ficaram destroçados e indignados, e culpam a má qualidade dos edifícios escolares e a corrupção que a permitiu.


Francesco Albani,  Anunciação (Museu do Hermitage)

As escolhas que se fazem na vida não ficam sem consequências. A 1ª leitura de hoje, do livro do Deuteronómio, apresentava Moisés a dirigir-se nestes termos ao Povo em nome de Deus: "Ponho hoje diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, afastando­vos do caminho que hoje vos indico".

Obedecer à Palavra de Deus, viver segundo a verdade, é fonte de vida e de bênçãos. Pelo contrário, desprezar os mandamentos de Deus, que apontam o caminho certo, conduz sempre à injustiça, e muitas vezes à destruição e à morte.

A grande urgência, para nós, cristãos, é perceber quais são as consequências que tem, na vida, a nossa fé em Jesus Cristo. A fé não é um simples sentimento, não é uma teoria, não consiste apenas em bonitas palavras, concretiza-se num caminho de vida.

A fé, em primeiro lugar, une-nos a Jesus, mas leva-nos também a interpretar a realidade, a olhar a vida com os olhos de Jesus, e por isso conduz-nos a uma resposta livre e consciente, na vida concreta.

No Evangelho de hoje, Jesus mostra-o claramente: "«Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus»". Como explica S. Jerónimo, Jesus ensina que "não se deve dar crédito àqueles que, apesar de se poderem orgulhar pela integridade da sua fé, vivem, contudo, desonestamente, destruindo a pureza da doutrina com as suas obras más".

Não basta 'dizer', é preciso 'fazer'. Se sou cristão, se sou de Jesus, vivo de uma determinada maneira, e não de outra. Como deve ser, então, a minha vida, uma vez que sou de Jesus Cristo?

Ainda recentemente Bento XVI observou que «o problema fundamental do homem de hoje continua a ser o problema de Deus".E por isso, «nenhum problema humano e social poderá ser resolvido na verdade, se Deus não volta ao centro de nossa vida", pois Ele é «fonte da esperança que muda o interior e não decepciona» e, portanto, dá «consistência e vigor a nossos projectos de bem».

Falando aos bispos italianos, o Papa afirmou que «no quadro de uma laicidade sã e bem entendida, é necessário resistir a qualquer tendência que considere a religião, e em particular o cristianismo, como um facto apenas privado». Pelo contrário, «as perspectivas que nascem da nossa fé podem oferecer um contributo fundamental para esclarecer e solucionar os maiores problemas sociais e morais da Europa actualmente» .

Neste momento, a Assemblela da Conferência Episcopal Italiana dedica especial atenção «à família fundada no matrimónio», ao encorajamento «de uma cultura favorável à família e à vida», e ao pedido «às instituições públicas de uma política coerente e orgânica que reconheça à família o papel central» que tem na sociedade.

«Forte e constante deve ser igualmente o nosso empenho acrescentou, entre outros pontos, pela dignidade e a tutela da vida humana em qualquer momento e condição, desde a concepção e desde a fase embrionária às situações de doença e de sofrimento, até a morte natural».

É um grande desafio levar a fé à vida e procurar actuar no mundo à luz da fé.

Para que isso aconteça, precisamos de permanecer à escuta da Palavra de Deus, de a ler com mais frequência, de a meditar, de a saborear. Essa leitura meditada da Palavra de Deus chama­se lectio divina, ou "leitura espiritual" da Sagrada Escritura.

Como explicou noutra altura Bento XVI, "ela consiste em permanecer prolongadamente sobre um texto bíblico, lendo-o e relendo-o, quase "ruminando-o", como dizem os Padres, e espremendo, por assim dizer, todo o seu "sumo", para que alimente como linfa a vida concreta".

Quem melhor do que ninguém viveu esta atitude espiritual foi a Virgem Santa Maria. É assim que a mostra muitas vezes o ícone da Anunciação:"a Virgem acolhe o Mensageiro celeste quando se prepara para meditar as Sagradas Escrituras, normalmente representadas por um livro que Maria tem na mão, ou ao colo, ou em cima de uma estante".

Seguindo a sugestão do Papa, que cita o Concílio Vaticano II, peçamos a Deus que "como Maria, a Igreja seja dócil escrava da Palavra divina e a proclame sempre com confiança firme, para que "o mundo inteiro ouvindo, acredite na mensagem da salvação, acreditando espere, e esperando ame»".

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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