8 de Junho de 2008 - Domingo X do Tempo Comum

A fonte da verdade e do amor

O Evangelho fala-nos do encontro de Jesus com S. Mateus, a quem os outros evangelistas sinópticos chamam Levi (Marcos 2, 14; Lucas 5, 27).

Mateus era um publicano, isto é, um cobrador de impostos ao serviço dos romanos. Era também um cambista, seguramente pouco honesto, segundo os costumes da época.

Na antiguidade, houve quem contestasse a rapidez da sua conversão. S. Jerónimo refere as críticas do filósofo Porfírio e do imperador Juliano, que só admitem duas hipóteses: ou é mentira de Mateus, ou tratou-se de uma atitude irracional por parte de Mateus e dos outros que, "instantaneamente seguiram o Salvador, como se tivessem seguido sem nenhuma razão um homem qualquer" (Comentário a S.Mateus 9,9)


Caravaggio,  A vocação de S. Mateus (1599-1600)

S. Jerónimo não aceita esta crítica, antes de mais porque Mateus e os outros apóstolos que foram chamados, já tinham visto milagres de Jesus. E depois, e é a razão decisiva, porque "o próprio resplendor e a majestade da divindade que brilhava, mesmo oculta, no rosto humano de Jesus, podiam atrair imediatamente para Si aqueles que o olhavam" (ibid.). Com mais força do que um íman "o Senhor de todas as coisas podia atrair para Si aqueles que muito bem queria" (ibid.).

Mas também S. Mateus Já devia ter experimentado antes o olhar de Jesus, como um apelo forte e silencioso à conversão. No entanto, tudo permaneceu na mesma, e parecia que nunca iria mudar.

Naquele dia, porém, Jesus viu-o "sentado no posto de cobrança dos impostos e disse-lhe: " "Segue-Me» ". E "ele levantou-se e seguiu Jesus".

Esta cena está representada num quadro de um famoso pintor italiano dos séc. XVI-XVII, Caravaggio. Durante o Jubileu do Ano 2000, estive em Roma com a Paróquia de Santa Maria de Belém, e fomos expressamente admirar este quadro de Caravaggio, intitulado "A vocação de S. Mateus», que está na capela Contarelli, uma capela lateral da Igreja de S. Luís dos Franceses.

Ali aparece Mateus na sua loja, que mais parece uma taberna, e devia ser um lugar um tanto sórdido. Mas Jesus não se deixou impressionar pelo mau ambiente do lugar. Entrou na loja do publicano -ou melhor, na sua vida - silenciosamente, e sem fazer ruído. No quadro de Caravaggio, os interlocutores do publicano quase nem se mexem, pelo menos dois deles. Não se apercebem de nada.

Mas, por cima das suas cabeças, Jesus estende o braço e aponta o dedo, que projecta sobre o publicano uma luz forte, que não é a luz do dia, (estamos nos primeiros esboços da pintura barroca), é uma luz diferente: o divino mistura-se com o humano.

Mateus leva a mão ao peito, num gesto que revela o seu espanto. Quase que o ouvimos dizer: "Como é que Tu vieste aqui ter comigo, se eu não cumpro a Lei, e sou tão pecador?» Mas o rosto de Mateus está iluminado. É a surpresa, o espanto, e depois o fascínio diante do absolutamente improvável.

Ser chamado por Jesus dá à vida humana uma beleza e uma alegria que nada mais lhe pode dar. Há muitos momentos de alegria e de entusiasmo na vida. As grandes vitórias no desporto, por exemplo, são das alegrias mais desejadas e esperadas por muitos. (E as derrotas também são das maiores frustrações, embora costumem, felizmente, passar depressa e ser rapidamente esquecidas).

Mas não há maior alegria do que experimentar a misericórdia de Deus, manifestada em Jesus Cristo, seu Filho. A nossa grande tarefa como cristãos é mostrar aos outros o caminho que leva ao encontro da misericórdia de Cristo. Tudo indica que andamos bastante esquecidos de o fazer. Mas a Igreja existe para ser, em primeiro lugar, o espaço da experiência da misericórdia de Deus, que para todos os homens é uma necessidade vital.

Essa experiência foi feita logo depois da conversão de S. Mateus por muitos dos seus amigos, que puderam encontrar-se com Jesus numa refeição, em casa de Mateus. Terão vindo os que, naquele dia, nem sequer se aperceberam do que tinha acontecido? Não sabemos, mas o certo é que vieram "muitos publicanos e pecadores". Talvez viessem inicialmente desconfiados, hesitantes, mas devem ter experimentado também uma enorme alegria.

Os fariseus censuravam Jesus por comer à mesma mesa com os publicanos e os pecadores, e Jesus rejeita esta atitude de puro snobismo espiritual citando o profeta Oseias, que ouvimos também hoje na lª leitura: " "Prefiro a misericórdia ao sacrifício» ".

Estas palavras significam que, de tudo que possamos fazer de bom, o que agrada mais a Deus é a misericórdia e o perdão. Deus não rejeita o sacrifício, mas prefere a misericórdia, isto é, a atitude interior de quem sabe amare perdoar.

A Jesus agradou certamente a atitude de Mateus, que se preocupou pelos seus amigos, e os fez sentar à mesa com Jesus. Esse desejo também nós o temos, com certeza, mas talvez não sejamos muito coerentes com ele. Quantos amigos convidamos a vir à Missa connosco? Quantos amigos apresentamos a um sacerdote, para que possam conversar à vontade, pôr as suas dúvidas, fazer as suas perguntas, e finalmente se possam confessar e ser perdoados?

Também temos de ser capazes de mostrar a verdade e a beleza da fé, que inunda de luz o rosto e o espírito do homem, e o atrai, como aconteceu com S. Mateus, a quem a presença de Jesus iluminou, converteu e chamou.

Quem conhecer verdadeiramente Jesus, é atraído por Ele. Só não é atraído, quem não O conhecer, ou tiver de Jesus um conhecimento deformado.

Bento XVI disse um dia que "em Cristo encontram-se a beleza da verdade e a beleza do amor". "Mas o amor - acrescentou - requer também a disponibilidade para sofrer, uma disponibilidade que pode chegar até à doação da vida por quem se ama (cf.João 15,13)!"

Por conter em Si toda a beleza da verdade e do amor, Jesus fascina e atrai os seres humanos. "É graças a esta extraordinária força de atracção insistiu ainda o Santo Padre - que a razão é subtraída ao seu entorpecimento e se abre ao Mistério. Revela-se assim a beleza suprema do homem que, criado à imagem de Deus, é regenerado pela graça e destinado à glória eterna".

No mundo em que vivemos não se faz muito esta experiência da beleza da verdade e do amor. Mas é importante que nós que, como S. Mateus, seguimos Jesus, a possamos fazer, em particular no aprofundamento da fé e na celebração da liturgia. Há uma beleza espiritual que fascina, quando é conhecida. É pena ser tão pouco conhecida!

Que possa pelo menos irradiar em nós, e atrair muitas outras pessoas, a começar pelos nossos amigos, para a fonte da verdade, do amor e da alegria, que é o Coração de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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