15 de Junho de 2008 - Domingo XI do Tempo Comum

O Filho de Deus não abandona a humanidade

S. Mateus, no seu Evangelho, conta que Jesus, quando estava na Galileia, percorria as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, proclamava a Boa Nova do Reino, e curava todas as enfermidades e doenças.

Jesus queria cumprir a missão que o Pai Lhe tinha confiado, e desejava que o seu ensinamento salvasse os que não tinham fé. Mas não se limitava a ensinar: depois da pregação e do ensinamento, curava os doentes, para que aqueles que não tinham sido persuadidos pela palavra, fossem convencidos pelas obras, como diz S. Jerónimo.

Quais eram os sentimentos de Jesus nesses encontros com tantas pessoas que O procuravam, ou de quem Ele próprio ia à procura e Se aproximava, sem nunca Se cansar?

S. Mateus resume estes sentimentos, no início do Evangelho de hoje: "Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor".

A compaixão é um sentimento muito profundo: é sentir cá dentro de nós, nas nossas «entranhas», as dores e o sofrimento dos outros.


O Bom Pastor entre as suas ovelhas, Cemitério de Priscila, Roma (séc. 111)

Jesus experimenta uma profunda compaixão, por haver tantas pessoas abatidas pelo peso da vida, e ainda por cima desorientadas, sem terem pastores, isto é, sem terem ninguém para as ajudar, para as ensinar, para as conduzir.

Se fosse hoje, Jesus também sentiria compaixão? Sim, também hoje há muitas pessoas "cansadas e abatidas", pelos seus problemas, pelas dificuldades da vida, por uma doença, pela morte de alguém muito querido ou por uma grave dificuldade.

Sempre que tivermos de passar por um momento assim, podemos ter a certeza de que Jesus, que está vivo na glória do Pai, Se compadece de nós, e faz seus os nossos sofrimentos, tal como, noutras circunstâncias, também faz suas as nossas alegrias. Jesus não nos deixa sós no sofrimento: no seu Coração misericordioso sente-o como seu, assume-o como seu, mas, além disso, ensina-nos a uni-lo à sua Paixão redentora, e oferece-o ao Pai, pela nossa salvação.

Este ensinamento de Jesus, que o Evangelho nos transmite e que ressoa no nosso íntimo, é luminoso e consolador, Graças a ele, nunca caímos no desânimo e muito menos no desespero. Se antes éramos como ovelhas sem pastor, agora o Bom Pastor está sempre perto de nós, a orientar-nos e a conduzir-nos.

"O Filho de Deus não abandona a humanidade", disse o Santo Padre Bento XVI, na homilia do solene início do seu pontificado. E leva a sua compaixão até ao fim, até oferecer a sua vida pelas multidões cansadas e abatidas.

S. Paulo dizia, na 2ª leitura: "Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios". E mais adiante: "Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores". Não foi por sermos bons que Jesus morreu por nós, mas sim porque nos ama infinitamente.

Era muito bom que tivéssemos sempre presente este ensinamento de S. Paulo: "Jesus morreu por nós", E, se Jesus morreu por nós, quando em nós nada havia de bom, ou, como diz Paulo, quando ainda "éramos inimigos", como deveremos viver, com quanto amor e fé, com quanta caridade deveremos viver? Se Jesus morreu por mim, como posso continuar a viver no egoísmo, no relativismo, na indiferença, no desinteresse por Deus e pelos outros?

Para levar ao mundo inteiro o Evangelho da compaixão de Deus, Jesus escolheu os Doze Apóstolos, e enviou­os a todos os homens, mas "primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel".

E eles foram, com toda a alegria, anunciando a proximidade do Reino dos Céus, e levando nos seus corações o poder, dado por Jesus, de curar os enfermos, ressuscitar os mortos, sarar os leprosos, expulsar os demónios.

Deste poder participam, no entanto, não só os Apóstolos, mas toda a Igreja, que é o povo eleito de Deus, sua "propriedade especial entre todos os povos", como já anunciava a la leitura, do livro do Êxodo.

No mundo de hoje há muitas doenças, não só do corpo, mas também do espírito.

Bento XVI falou numa das suas primeiras viagens de algumas dessas doenças, ao observar que o mundo em que nos encontramos é muitas vezes "marcado pelo consumismo desenfreado, pela indiferença religiosa, por um secularismo fechado à transcendência". E nós podemos e devemos, unidos a Jesus, e com o seu poder, ajudar a curar essas doenças, tanto em nós, como nos outros.

O consumismo vence-se, quando se experimenta a alegria da partilha, e não apenas do que sobra, mas do que nos faz falta e nos custa dar.

A indiferença cura-se, quando não temos medo nem vergonha de manifestar a nossa fé, o nosso amor a Jesus, a alegria de ter encontrado a verdade.

O secularismo fechado à transcendência cura­se, quando se percebe que Deus está presente em todas as coisas, mesmo as mais normais e correntes, e que a vida de todos os dias, com as suas alegrias, com as suas esperanças, com os seus projectos, é o espaço habitual do nosso encontro com Jesus.

Podemos e devemos curar os males do nosso mundo, no poder de Jesus, que também recebemos desde o nosso baptismo.

Mas não podemos esconder-nos com medo, devemos aparecer, com naturalidade e confiança. O que se espera dos cristãos, e em especial dos católicos, é que assumamos uma posição bem definida no tocante à fé, e não tímida nem ambígua.

Não escondemos nada, nem silenciamos nada. Com naturalidade, manifestamos quem somos e aquilo em que cremos. Com sincera amizade, transmitimos aos outros o que já vivemos.

O resto pertence a Deus. A partir de um testemunho simples, mas avalizado pela nossa vida, Deus poderá tocar muitos corações, abrindo­os à fé em Jesus.

É o que podemos esperar que acontecerá cada vez mais, mesmo que as aparências nos façam supor o contrário, pela simples razão de que Deus é bom e ama infinitamente todos os homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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