22 de Junho de 2008 - Domingo XII do Tempo Comum

O fascínio da luz

No Evangelho de hoje, Jesus começa por dizer aos apóstolos e a todos aqueles que virão a dar testemunho d'Ele, ao longo dos tempos: "«Não tenhais medo dos homens»". E mais adiante, diz: "«Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma»".

Não podem matar a alma, em dois sentidos: em primeiro lugar, porque a alma é imortal, e não morre, quando se separa do corpo, na morte. E, em segundo lugar, porque, mesmo no meio das piores perseguições, o cristão é capaz de conservar, no íntimo do seu coração, toda a sua fé e todo o seu amor por Jesus.

No Evangelho, Jesus diz-nos ainda que quem se "declarar" por Ele, isto é, quem tomar posição por Ele diante dos homens, também será reconhecido pelo próprio Jesus diante do Pai. Que significa tomar posição por Jesus?

Significa, antes de mais, tomar posição por Deus, acreditar em Deus, e professá-lo publicamente, sempre que for necessário: um Deus único, bom, poderoso, criador, providente, amigo dos homens. Jesus fala com muita frequência de Deus, e, quando Se refere a Si próprio, salienta a sua relação especial com Deus, a Quem designa como: "«o meu Pai que está nos Céus»".


Caravaggio,  A Conversão de S. Paulo (1700)

Deus é um Pai que nos conhece, que nos ama e acompanha. Como poderíamos ser ingratos, ao ponto de O negar, ou de vivermos como se ele não existisse? Em segundo lugar, tomar posição por Jesus é acreditar em Jesus como o único Salvador. Jesus não é apenas uma pessoa excepcional, em Quem Deus se revelou de um modo particular, como em muitos outros homens e mulheres.

Jesus Cristo é único e irrepetível. Ele é o Filho de Deus feito homem: anunciou o Evangelho, mostrou aos homens o Pai, morreu na cruz. Mas a morte não O venceu, ressuscitou e está vivo para sempre.

Há cerca de um ano, na abertura dos trabalhos do Congresso da Diocese de Roma, Bento XVI mostrou como a nossa relação com Jesus é única: "Desde o início. os discípulos reconheceram em Jesus ressuscitado aquele que é nosso irmão em humanidade, mas é também um só com Deus; Aquele que, com a sua vinda ao mundo e em toda a sua vida, na sua morte e ressurreição nos trouxe Deus, tornou portanto presente de maneira nova e única Deus no mundo, Aquele que dá significado e esperança à nossa vida: com efeito, n'Ele encontramos o verdadeiro rosto de Deus, aquilo de que realmente temos necessidade para viver".

Jesus Cristo não pertence ao passado. Jesus Cristo está presente no tempo. Jesus Cristo é de hoje, de ontem e de amanhã. Jesus Cristo é único, mas, ao mesmo tempo, é Aquele em Quem a graça de Deus "se concedeu com abundância a muitos homens", como dizia S. Paulo, na 2ª leitura.

Tomar posição por Jesus significa «dar a cara» por Ele e, se for preciso, dar a vida por Ele. Tomar posição por Jesus significa, simplesmente. declarar-se cristão, em todos os momentos e em todos os ambientes. «És cristão?» perguntavam os perseguidores ao mártires dos primeiros tempos. E estes respondiam, embora sabendo que isso lhes podia custar a vida: «Sim, sou cristão».

"Sou cristão, católico, unido ao Papa, unido ao Bispo, em comunhão com a Igreja. E tenho muita honra nisso» - continuamos hoje a dizer com toda a simplicidade e verdade. E se não tivermos medo de confirmar com a vida esta profissão de fé, um dia o próprio Jesus nos mostrará ao Pai. E o Pai nos receberá num abraço de amor e de luz, que irá durar, no Céu, por toda a eternidade.

E agora gostaria de vos falar ainda sobre o Ano Paulino, que está para começar. Por determinação do Santo Padre Bento XVI, iremos dedicar ao Apóstolo S. Paulo um especial Ano Jubilar, desde o próximo dia 28 de Junho até 29 de Junho de 2009, por ocasião do bimilenário do seu nascimento, inserido pelos historiadores entre os anos 7 e 10d.C.

Este Ano Paulino poderá desenvolver-se de modo privilegiado em Roma, onde, desde há vinte séculos se conserva. sob o altar papal da Basílica que lhe é dedicada, o sarcófago, que segundo o parecer unânime dos peritos e pela incontestada tradição, contém os restos mortais do Apóstolo Paulo. como observou Bento XVI.

Mas também no mundo inteiro será uma ocasião excelente para aprofundarmos o conhecimento do "mistério de Cristo" (Efésios 3, 4) e para nos dedicarmos aoseu anúncio a todos os que o não conhece, tarefa a que S. Paulo de dedicou apaixonadamente e com todas as suas forças.

S. Paulo teve uma enorme influência na expansão do Cristianismo. Há mesmo pessoas que dizem que S. Paulo «inventou» o Cristianismo. Mas não é verdade. S. Paulo apenas caiu do cavalo - como o representa Caravaggio, num famoso quadro que está na Igreja de Santa Maria dei Popolo, em Roma.

Para sermos sinceros, não sabemos se S. Paulo ­ que na altura usava o nome de Saulo ia a cavalo ou noutro meio de transporte, ou a pé. Mas sabemos que ia a caminho de Damasco, e subitamente caiu por terra (Actos 9, 4).

O que o fez cair foi ter visto Jesus ressuscitado. Um dia, quando "perseguia a Igreja de Deus" (Gálatas 1, 13), Paulo viu Jesus. Ele próprio o refere, como o seu maior título de glória: "Não vi eu Jesus nosso Senhor?" (1 Coríntios 9,1)

Paulo caiu do cavalo, isto é, foi derrubado das suas falsas certezas, da sua soberba. Por um instante ficou cego, teve de fechar os olhos, como o representa Caravaggio, porque a luz que viu era deslumbrante demais, mas depois retomou a sua caminhada, já baptizado, inserido na Igreja, e espalhou pelo mundo inteiro a luz de Cristo.

Pode ser que Deus também queira, em certos momentos, fazer-nos «cair do cavalo», para recomeçarmos a nossa caminhada com mais humildade e também com mais verdade e firmeza. Aceitemos nós também ao longo deste Ano Paulino que a luz de Cristo nos fascine, para que assim recomecemos a caminhar, olhando Deus, a vida e os outros com olhos novos.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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