29 de Junho de 2008 - S. Pedro e S. Paulo

Uma vocação universal

O Evangelho de hoje faz-nos reviver o diálogo entre Jesus e os discípulos, que contém uma pergunta que também nos poderia ser feita a nós: "«E vós, quem dizeis que eu sou?»" Ficaríamos embaraçados ou felizes por Jesus nos fazer esta pergunta?

No caso dos discípulos, devem ter-se sentido muito felizes por terem podido finalmente manifestar a Jesus a sua fé.

Apesar das suas imperfeições, já tinham captado o "segredo" de Jesus, já não O confundiam com nenhum profeta do passado ou com nenhuma outra figura conhecida, e foi com grande entusiasmo que Simão, depois chamado Pedro, respondeu em nome de todos: "«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo»".

Depois disto, Pedro poderá ter tido ainda muitas imperfeições, mas nenhuma delas diminuiu em nada este elogio de Jesus, esta nova bem-aventurança que o tem como directo destinatário: "«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus»".

É uma bem-aventurança extraordinária! Não queremos "roubar" a Pedro esta bem­aventurança, que será sempre sua, mas sentimos que também a podemos fazer nossa.


Rafael,  A libertação de S. Pedro (porm.) (1514)

Também nós somos felizes, quando o Pai nos faz conhecer quem é Jesus, isto é, quando descobrimos o segredo de Jesus e quando o sabemos dizer, antes de mais respondendo ao próprio Jesus, como fez S. Pedro: "«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo»".

Mas é um segredo tão pouco conhecido! Como são poucas as pessoas que o conhecem! E não é um segredo para guardar. É um segredo para contar. É preciso contá-lo a mais pessoas. Ao fazê-lo, esta mos a contribuir para a que Jesus possa voltara dizer a cada um, a cada uma: "Feliz de ti..." Se nós soubéssemos que o anúncio de Jesus pode trazer a tantos uma nova felicidade, não andávamos tão silenciosos.

A 1ª leitura, dos Actos dos Apóstolos, conta-nos como Pedro foi liberto da prisão, com a intervenção do "Anjo do Senhor". Reinava então na Palestina Herodes Agripa I, que tinha sido amigo do imperador Calígula, e era amigo dos fariseus, e por isso adversário dos cristãos, que ainda eram vistos como um grupo rebelde ou mesmo como uma seita do judaísmo.

Movido por essa aversão aos membros da Igreja, Herodes, entre os anos 41 e 44, já no tempo do imperador Cláudio, mandou decapitar S. Tiago, irmão de S. João, e mandou também prender S. Pedro.

Mas ele próprio morreu subitamente, em 44, em Cesareia, depois de ter assistido aos jogos em honra do imperador. Quando entrou no anfiteatro onde os jogos se realizavam, resplandecente nas suas vestes de prata que brilhavam ao sol, Herodes foi aclamado como um deus.

O historiador Judeu Flávio Josefo escreve que "o rei aceitou em silêncio essa adulação blasfema. Mas, acto contínuo, as suas entranhas foram despedaçadas por terríveis dores, e morreu ao cabo de cinco dias" (Antiquitates Judaicae, 19,344-346. Cf.Actos dos Apóstolos 12, 23).

Quanto a S. Pedro, as portas da prisão tinham-se aberto já diante dele. Pedro estava livre. Esta libertação, porém, não foi um simples benefício pessoal para Pedro. Graças a ela, a Igreja não poderia mais continuar a ser olhada como uma seita. As portas do mundo estão abertas à sua frente. Os muros de Jerusalém já não a limitam. A Igreja tem uma vocação universal, católica.

Em breve, o próprio Pedro partiu para muito longe. Passando primeiro por Antioquia, Pedro viajou para Roma, talvez no segundo ano do imperador Cláudio, isto é. no ano 43, como refereS. Jerónimo, e ali, durante mais de 20anos, ocupou a "cátedra sacerdotal" que é hoje do Papa, Bispo de Roma, até ao dia do seu martírio, que S. Jerónimo coloca no último ano de Nero (isto é, no ano 68), mas que os historiadores actualmente situam alguns anos antes, no ano 64.

S. Jerónimo lembra que Pedro "recebeu a coroa do martírio cravado numa cruz por ordem de Nero, mas de cabeça para baixo e com os pés levantados para cima, por ter manifestado que não era digno de ser crucificado da mesma forma que o seu Senhor". E acrescenta que, "sepultado em Roma, no Vaticano, perto da Via Triunfal, é celebrado com veneração por toda a terra".

E também S. Paulo foi para Roma, no termo de uma vida repleta de viagens, canseiras e de perigos. O seu martírio ocorreu ainda no contexto da mesma perseguição de Nero, mas um pouco mais tarde, em 67.

A 2ª leitura exprime bem os sentimentos de S. Paulo, que não teve outro desejo senão o de lutar por Cristo, "para que a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem".

Estamos a celebrar desde ontem um Ano Jubilar especial, por ocasião dos 2000 anos do nascimento de S. Paulo, que, desde que encontrou Jesus vivo, "não teve medo, nem sequer do martírio", como lembrou recentemente Bento XVI.

Depois do seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, Paulo assumiu a missão de ir pregar a Palavra de Deus a todos os homens: primeiro em Antioquia e na Ásia Menor, depois na Grécia e em Roma.

Nunca pensou em si mesmo, mas apenas em Cristo, por quem gastou a sua vida, até ao último instante.

"Foi decapitado por causa de Cristo - lembra ainda S. Jerónimo - e sepultado na Via Ostiense, no ano trigésimo sétimo depois da Paixão do Senhor". Pedro e Paulo são duas testemunhas extraordinárias do mistério de Cristo. Com eles, aprende-se a ser cristão.

Mas poder-se-ia perguntar se o anúncio do mistério de Cristo continua a ter hoje um alcance universal. Num mundo culturalmente tão diversificado como é o mundo em que vivemos, Jesus continua a ser atraente para os homens, continua a justificar-se a missão que visa dar Jesus a conhecer a todos?

Não foi Jesus reconhecido por Pedro como o «Messias», e não era o Messias apenas desejado de um povo, e não de todos os povos?

Sim, mas Jesus não era apenas o Messias de Israel, mas "o Filho de Deus vivo", como o reconhece S. Pedro, segundo o relato de S. Mateus, e esta condição de Filho de Deus liberta-o das fronteiras de um único povo, e aproxima-o de todos os homens, em todos os tempos, em todas as culturas.

Hoje levantam-se enormes barreiras, que não deixam entrar Jesus no coração de muitas pessoas. Parece que há um cerco, uma barreira de silêncio. Mas cada um de nós é convidado a imitar Pedro e Paulo, e a falar de Jesus a todos, como O apresentam os Evangelhos, as cartas de S. Paulo e os outros textos do Novo Testamento.

O desafio para todos nós é encontrar novas formas de o fazer, para difundir esse segredo que um dia alguém nos contou também. O Ano Paulino será por definição um ano apostólico. Uma boa forma de o viver será falar de Jesus em cada semana a várias pessoas, a vários amigos, porque é natural que, passado um momento inicial de surpresa, se sintam contentes e mais felizes, como naturalmente a fé em Jesus os levará a ser.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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