6 de Julho de 2008 - Domingo XIV do Tempo Comum

Com Jesus, tudo muda

No Evangelho de hoje, Jesus diz-nos que há certas verdades que o Pai "escondeu" aos "sábios e inteligentes", e apenas as revelou aos "pequeninos".

Estas palavras significam que há verdades que exigem algo mais do que a sabedoria ou a inteligência para serem conhecidas. Há verdades que, para serem conhecidas, exigem acima de tudo um olhar simples e puro, como é o olhar das crianças, e um coração humilde e sem preconceitos, como é normalmente o coração das crianças.

Sem esse olhar simples, sem esse coração puro, escapa-nos o essencial. Sem essa humildade interior, pela qual deixamos que Deus nos ilumine com a sua revelação e com o dom da fé que a acolhe, podemos acumular muita informação e dispor de muita ciência e muita sabedoria, mas não vemos o mais importante.

Por não terem essa humildade interior, muitos "sábios e inteligentes" olharam para Jesus, e não entenderam nada. Alguns fecharam-se totalmente e por fim chegaram ao ponto de rejeitar e condenar Jesus.

Mas os "pequeninos", a quem Deus revelou esse «segredo», reconheceram em Jesus o Filho de Deus e acreditaram n'Ele. Jesus, dirigindo-se Deus Pai, dá-Lhe graças por ter sido assim: "«Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do Teu agrado»".


Beato Angelico,  A conversão de S. Paulo (iluminura) (c. 1430)

É do agrado de Deus que a revelação e o conhecimento da verdade mais sublime só seja acessível aos que livremente se fazem pequenos. É este o apelo que Jesus nos faz a todos: o apelo a tornar-nos mais pequenos e humildes diante de Deus, para que o Pai nos possa revelar o Filho, e para que o Filho nos possa revelar o Pai, como diz Jesus.

S. Paulo, na 2ª leitura, fala da grande transformação que já aconteceu em nós, desde que nos tornámos cristãos.

Estamos a ler o capítulo 8 da Epístola aos Romanos. Todo este capítulo é consagrado a descrever a vida nova dos baptizados, no Espírito Santo. Na passagem de hoje, S. Paulo sublinha que viver unido a Jesus Cristo implica uma profunda transformação no ser humano.

Mas será mesmo verdade que já existe em nós esta vida nova, já aconteceu em nós esta transformação? S. Paulo está convencido disso, uma vez que escreve assim aos cristãos de Roma: "Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é verdade que o Espírito de Deus habita em vós".

S. Paulo acredita que é o Espírito Santo, o Espírito de Cristo, que domina em nós, e não a «carne». Que quer isto dizer?

A «carne» representa para S. Paulo os instintos de gozo e de egoísmo do homem, dominado pela acção do pecado desde o início da história. Muitas vezes esses instintos levam o ser humano a atitudes e comportamentos errados, irracionais.

S. Paulo apresenta nas suas cartas várias listas destes vícios ou "coisas que não convêm", como diz no início desta Epístola, no capítulo 1, versículo 28. Nos versículos 29, 30 e 31 deste capítulo apresenta uma longa lista, que sugiro que leiam nas vossas Bíblias.

E já quase no final da Carta, no capítulo 13, versículos 13-14, S. Paulo pede que se evitem as "obras das trevas", entre as quais menciona "comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes". E conclui: "Não vos preocupeis com a natureza carnal para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo".

Foi quando leu estas palavras, depois de abrir ao acaso o livro das Epístolas de S. Paulo, queSanto Agostinho se converteu definitivamente. Até esse momento, havia no seu espírito uma luta terrível. Agostinho vivia numa grande angústia, e não conseguia decidir-se, não sabia o que fazer. Continuar a viver como dantes ou mudar de vida? Mas, nesse momento, tomou a decisão final e, poucos meses depois, foi baptizado.

O ser humano é muitas vezes o palco de uma luta violenta entre a «carne», por um lado, e a razão, por outro. E nesta luta a razão quase sempre perde. Ea Lei, por si só, também não o ajuda nada.

Mas, pela união a Jesus, "tudo muda" (como escreveu um grande biblista dominicano, o Pe. Lagrange). O cristão é conduzido pelo Espírito, que lhe dá a capacidade de lutar e de vencer, para não viver «segundo a carne», mas «segundo o Espírito».

É verdade, porém, que também nós, cristãos, podemos voltar a errar, e não deixamos de ser pecadores.

Mas o que é decisivo é que, desde que somos de Cristo pelo Baptismo, o motor da nossa vida é o Espírito Santo, e não a «carne»; é o Espírito de Cristo, e não a ambição, a vaidade, a sensualidade, a ânsia de domínio.

Pelo menos é esta a capacidade que nos foi dada. Podemos não a exercer, podemos voltar a ser o "homem velho", mas isso só acontece se recusarmos o Espírito, ou se Lhe formos rebeldes.

Nesse caso, se vivermos "segundo a carne", morreremos. Mas, se formos dóceis ao Espírito, faremos "morrer as obras da carne" e então, como diz S. Paulo, viveremos. É um ensinamento muito forte e muito claro: a vida "segundo a carne" é vida sem sentido, é vida aparente, é morte. E a vida "segundo o Espírito" é que é a vida verdadeira. A cada um compete a escolha, no presente. E no futuro? No futuro, diz S. Paulo, se vivermos segundo o Espírito, embora um dia tenhamos de passar pela morte física, Deus dará nova vida aos nossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em nós.

Como escreveu um grande Bispo do séc. IV, S. João Crisóstomo, "com o Espírito crucificamos a carne, saboreamos o encanto de uma vida imortal, temos o penhor da ressurreição futura" (Hom. sobre Rom 13).

É este o ensinamento de S. Paulo na 2ª leitura de hoje. Pode parecer muito exigente, mas é profundamente coerente. Viver segundo o Espírito identifica-nos com Jesus Cristo, até ao ponto de um dia podermos participar plenamente no principal fruto da sua vitória sobre a morte, que é, como dizemos no Símbolo dos Apóstolos, "a ressurreição da carne e a vida eterna. Ámen".

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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