13 de Julho de 2008 - Domingo XV do Tempo Comum

A Criação e a glória dos fihos de Deus

O Evangelho de hoje fala-nos de um semeador e de uma semente. " «Saiu o semeador a semear» ". Este semeador é o próprio Jesus Cristo, que semeia no coração dos homens a sua palavra, que é também a palavra do Pai.

Ficamos agradecidos a Jesus por ter comparado a sua palavra a uma semente, porque assim nos transmite dois ensinamentos muito importantes: em primeiro lugar, que a sua palavra é muito poderosa, contém um dinamismo e uma força própria, um potencial imenso, que não depende de nós.

E, em segundo lugar, que este dinamismo poderoso requer a nossa correspondência. O germinar da semente e sobretudo a qualidade e a abundãncia dos frutos dependem da terra em que é acolhida, que é o coração de cada um de nós. Como correspondemos à Palavra que ouvimos?


Pieter Brueghel o Velho,  Paisagem com a Parábola do Semeador (1557)

Na 2ª leitura, continuamos a ler o capítulo 8 da Carta aos Romanos. A leitura começa com esta confidência do Apóstolo (v. 18): "Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestarem nós".

A que sofrimentos se refere S. Paulo? A todos os sofrimentos, mas especialmente àqueles que tenhamos de suportar por sermos cristãos; aqueles que são consequência de sermos fiéis a Cristo. S. Paulo está convencido de que é necessário que soframos juntamente com Cristo, para um dia participarmos na sua glória.

É interessante o modo como S. Paulo começa este v. 18: "Eu penso..." Mas o que S. Paulo quer dizer é que sabe que é assim, tem experiência disso.

S. Paulo suportou muitos sofrimentos por ser Apóstolo, como relata emotivamente em 2 Coríntios 11, 23­29, (que recomendo a todos que leiam). Lembro só uma breve passagem. Comparando-se com outros que não eram mais que falsos apóstolos, mas se consideravam "ministros de Cristo", Paulo diz que o é muito mais do que eles, e que sofreu "muito mais pelos trabalhos, muito mais pelas prisões..." (v. 23).

Além disso, S. Paulo também contemplou a glória futura, como diz em 2 Coríntios 12, 4, ao falar de um homem, que "foi arrebatado até ao Paraíso, e ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem reproduzir". Mas este homem foi ele próprio! Por isso Paulo pode dizer tranquilamente: "Eu penso (isto é: eu sei) que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestarem nós".

E quando diz que não há comparação, o que nos quer dizer é que essa glória futura será infinitamente maior do que quaisquer sofrimentos que hoje possamos ter de suportar ou de aceitar por amor a Jesus.

E depois, numa reflexão muito ousada, S. Paulo envolve todas as criaturas nessa expectativa da glória "que se há-de manifestar em nós". Chega a dizer que "as criaturas esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus".

Que criaturas são essas? São seguramente os elementos deste mundo, tudo o que existe na Terra e no universo físico. Mas tem algum sentido personificar os elementos do cosmos? Será que os elementos da natureza sentem, pensam, desejam? Será que os átomos sentem, as forças cósmicas pensam, as pedras suspiram, as plantas e os animais experimentam algum desejo metafísico? Que nós saibamos, não. No entanto, pode-se dizer que "esperam ansiosamente", porque estão integradas num projecto, que é o desígnio de Deus. Criador de todas as coisas.

Embora não pensem nem sintam, todos os elementos da natureza ficariam (metafisicamente) frustrados, se nós, homens, não realizássemos a nossa vocação de filhos de Deus; se não conseguíssemos um dia deixar de ser escravos do mal; se não conseguíssemos um dia passar a ser plenamente livres; se não conseguíssemos um dia vencer a morte, que S. Paulo considera "o ultimo inimigo" (1 Coríntios 15, 26); se não chegássemos a ressuscitar gloriosamente.

Era bonito que, quando fôssemos passear à beira-mar, ou quando estivéssemos a descansar no campo, ou quando voássemos num avião por cima das nuvens, ou quando olhássemos a lua cheia, fôssemos capazes de ouvir as ondas do mar, as árvores das florestas, as nuvens em farrapos ou a lua juntamente com as estrelas do céu dizerem-nos: «Estamos ansiosamente à espera de vos ver finalmente viver como filhos de Deus. Não nos desiludam. Não deixem o mal nem a morte vencer».

Mas possivelmente os homens não ouvirão nada, e continuarão arrogantes a pensar que conhecem os segredos do universo: o «big-bang», a evolução, as teorias sobre a origem da vida, etc.

Mas isto não são «segredos». São apenas áreas de conhecimento. São muito importantes, mas o «segredo» é outra coisa. O «segredo» do universo é este, que nos conta S. Paulo: a natureza está à espera que sobre ela irradie "a gloriosa liberdade dos filhos de Deus".

E um dia assim será. Quando chegar à ressurreição, a humanidade irradiará a sua glória sobre toda a criação material, como quer que ela exista nesse momento.

Há um comentário muito belo de S. Tomás de Aquino (na Summa contra Gentiles) a este texto de S. Paulo, que é um pouco longo, mas que gostaria de vos convidara ler. Diz assim:

É uma revelação fascinante: a glória da humanidade glorificada reflectir-se-á em todo o universo, que será também ele transformado. E como será essa transformação? Isso compete ao poder do Criador, não a nós.

A nós compete neste breve tempo que temos de vida na Terra viver como filhos de Deus, e nunca deixar de esperar, como diz S. Paulo, a plena "adopção filial e a libertação do nosso corpo", isto é, a vitória sobre a morte. E também a vitória sobre o pecado, que não nos deixa ser livres nem felizes.

Dói-nos, como uma dor muito forte que nos faz gemer, como diz S. Paulo, não ter ainda esta plena "adopção filial", não sermos ainda totalmente livres, mas tantas vezes escravos. Mas esperamos e desejamos esse momento, e nessa esperança recomeçamos com alegria o nosso caminho de todos os dias.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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