27 de Julho de 2008 - Domingo XVII do Tempo Comum

Não estamos perdidos

Jesus fala de um homem que encontrou um tesouro escondido num campo. Como é que o tesouro lá tinha ido parar?

Foi escondido por alguém que teve de fugir da sua terra antes do ataque de algum povo inimigo, na esperança de um dia puder voltar de novo para o recuperar. Na antiguidade, isto acontecia com frequência, mas alguns nunca voltavam. E o tesouro lá ficava, até que alguém o encontrasse por acaso.

Isso aconteceu também há alguns séculos com imagens de Nossa Senhora que eram escondidas na terra pelos cristãos, quando se anunciava um ataque dos mouros ou dos piratas. E algumas, que ficaram enegrecidas pelo tempo, só foram descobertas muito tempo depois, e em alguns casos a sua descoberta foi vista quase como um milagre.

Com esta parábola, o que Jesus quer ensinar, é que o Reino de Deus é um tesouro tão valioso, que qualquer homem que tenha um pouco de inteligência entrega de boa vontade tudo o que tem, só para o adquirir. E não se põe com cálculos. Joga tudo. Percebe muito bem que essa é a grande oportunidade da sua vida.


John Everett Millais,  O tesouro escondido (gravura) (1864)

Poderíamos dizer que aquele homem não foi muito honesto, e deveria ter informado o dono do campo. Jesus não aprova este procedimento, como é evidente, nem sequer o tem em conta, mas aproveita a ambição do homem como uma chamada de atenção para nós. É assim que deveria ser o nosso zelo, o nosso empenho para unirmos a Deus a qualquer preço.

Há pessoas que não estão dispostas a renunciar a certas coisas a que dão muito valor, e preferem deixar que o tesouro continue escondido na terra, apesar de ser muito valioso. Como é que posso deixar Deus e trocá-lo por outras coisas, que até podem valer um bocadinho, mas, em comparação com Deus não valem nada!

Por exemplo, como é que posso faltar à Missa, só para ter mais uma hora na praia? Como é que posso deixar de rezar, só porque ponho todas as ocupações à frente da oração? Não é lá muito inteligente, não revela muita sabedoria. A atitude certa vem na parábola seguinte: o "negociante de pérolas preciosas". Este, "ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía, e comprou essa pérola".

E não sentiu pena nem desgosto por aquilo que deixou: toda a sua alegria estava na posse daquela pérola, em comparação com o qual tudo o resto era para ele perfeitamente insignificante.

Há ainda uma terceira parábola no Evangelho de hoje: a parábola da rede, que apanha, não só bons peixes, mas muitas outras coisas. Faz-nos pensar na Igreja, que não é só feita de santos, também tem pessoas infiéis. Jesus não exclui essas pessoas, tal como não acaba de uma vez com os maus que há no mundo.

Mas um dia haverá uma avaliação final, um julgamento, em que será decido o destino final dos justos e dos maus. Se não fosse assim, seria uma grande injustiça.

A Palavra de Jesus alerta-nos para o Juízo final, esse definitivo discernimento entre o bem e o mal, que um dia terá lugar, quando a história humana chegar ao seu termo. Então acabarão definitivamente as confusões, as ambiguidades e todas as mentiras e falsidades.

Bento XVI escreve na sua encíclica Salvos na esperança que "o Juízo de Deus é esperança". E é esperança, "quer porque é justiça, quer porque é graça" (n. 47). Não é só graça: se tudo fosse desculpado, se Deus se limitasse a passar uma esponja sobre os erros dos homens, o mal levaria a melhor.

E não é só pura justiça: se o fosse, teríamos muito que temer. É verdade que, com a vinda de Jesus, a justiça ficou estabelecida com firmeza, e por isso devemos cuidar da nossa salvação "com temor e tremor", como diz S. Paulo (Filipenses 2,12). A salvação não é uma brincadeira!

Mas, prossegue Bento XVI, "apesar de tudo, a graça permite-nos a todos nós esperar, e caminhar cheios de confiança ao encontro do Juiz, esse Juiz que conhecemos como nosso «advogado», como nosso Paráclito, (em grego: parakletos) (cf.1 João 2,1)" (n. 47).

Este ensinamento de Jesus permite-nos agora passar para a leitura de S. Paulo, que afirma com ousadia que Deus "concorre em tudo para o bem daqueles que O amam". Quer dizer, Deus orienta a nossa vida, e nunca deixa que o mal seja mais forte e leve a melhor.

Não estamos perdidos, não andamos arrastados pela corrente da vida. Estamos nas suas mãos. Mesmo as coisas menos boas e os próprios males que nos acontecem entram no plano de Deus de um modo que só Deus conhece, e dão sempre origem a bens maiores, mesmo que não os consigamos ver.

Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, «omnia in bonum», (como se diz na tradução latina deste passo): é este o ensinamento de S. Paulo. Um dia veremos que é assim, se calhar já na Terra, e seguramente no Céu. Um dia veremos que até mesmo os males e sofrimentos que mais nos custou suportar, foram ocasião de muitos bens e graças.

S. Paulo fala depois dos que Deus chamou e "predestinou". Não é fácil entender o que é esta «predestinação», mas é com certeza uma «predestinação» para a salvação. Deus quer a salvação de todos os homens.

No entanto, deu a cada um, desde o início, uma vontade livre, e nunca fará nada que interfira com ela ou que a force. Por isso, mesmo sendo «predestinado», nenhum homem se salvará, se não o quiser.

No século XVI, o reformador protestante João Calvino disse que alguns homens estão predestinados para a salvação, e outros para a condenação. Mas a Igreja Católica nunca pensou assim, e sempre ensinou que ninguém é salvo por Deus contra a sua vontade, e ninguém é condenado se não for por sua culpa, se não rejeitar livre e conscientemente o dom da salvação.

A salvação é dom de Deus, o seu chamamento é gratuito, e a glorificação que Deus nos prepara, nunca será merecida por nós. No entanto, continuamos a ser livres, temos a capacidade de acreditar, de esperar e de amar.

Estamos conscientes desta enorme responsabilidade que nos define como seres humanos. E por isso, correspondendo ao chamamento que nos foi feito sem nenhum merecimento, queremos ser cada vez mais homens e mulheres de fé, ousar crescer na esperança e viver sempre mais o verdadeiro amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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