3 de Agosto de 2008 - Domingo XVIII do Tempo Comum

O alimento para todos

Terminamos hoje a leitura do capítulo 8 da Carta aos Romanos. O texto abre com uma pergunta: "Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?"

S. Paulo conhece a resposta. Sabe por experiência que a resposta é: «ninguém». Mas faz uma lista de algumas dessas coisas que poderiam, se Deus não nos ajudasse, separar-nos do amor de Cristo, e divide-as em dois grandes grupos ou blocos.

O primeiro bloco tem a ver com as perseguições. Qual seria a nossa reacção, se tivéssemos de suportar uma perseguição ou até passar por tormentos por causa da nossa fé? Teríamos a força de permanecer fiéis?


 A multiplicação dos pães e dos peixes

Ainda hoje, na China, há vários bispos fiéis à Santa Sé que estão desaparecidos ou encarcerados, alguns desde há muitos anos, e há diversos sacerdotes detidos. Houve bispos que passaram dezenas de anos na prisão.

Há pouco mais de um ano, em 16 de Julho de 2007, houve um grupo de 40 mil ou 50 mil fiéis da província chinesa de Henan, que iam em peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora do Carmo de Tianjianjing, mas não puderam fazê-lo, porque o governo da província ordenou a destruição daquele santuário com explosivos. Fizeram também explodir uma imagem de Nossa Senhora que lá existia há mais de cem anos, e as 14 estações da Via-Sacra que assinalavam o caminho.

Como reagiríamos, se fôssemos nós? De uma coisa podemos estar certos: o sofrimento dos crentes chineses não é estéril aos olhos de Deus.

Devemos notar, no entanto, que há regiões da China onde o ambiente está a mudar, graças à melhoria das relações entre a Igreja e o Estado. Como informa um recente relatório da Fundação Ajuda à Igreja que sofre, há dioceses onde a Igreja está a recuperar de muitos anos de actividade clandestina forçada. Há templos onde as comunidades da Igreja «clandestina» e da Igreja «oficial» poderão rezar juntas. Há milhares de conversões, há muitas vocações, e já quase é difícil imaginar a forma brutal como a Igreja foi reprimida no passado.

Há outros pontos do mundo em que os cristãos não têm outra hipótese senão fugir. Actualmente, no Iraque, há uma fuga ininterrupta de cristãos provocada por ataques terroristas, que pode vir a causar o desaparecimento definitivo de algumas comunidades, entre as quais algumas das mais antigas, os cristãos sírios.

Noutros países, o exercício da fé pode levar ainda hoje à expulsão dos cristãos. Li há tempos que na Arábia Saudita actua uma força de polícia, a Muttawa, que vigia o comportamento 'islamicamente correcto' da população, e realiza buscas nas casas dos imigrantes filipinos ou indianos que se reúnem para rezar o terço ou ler a Bíblia. Estas práticas são consideradas delitos gravíssimos no território «santo» do islão, e para elas prevêem-se penas de prisão, confiscação dos bens e repatriação imediata.

Noutros lugares, a pressão exerce-se de forma diferente, impedindo por lei a conversão a outras religiões ou limitando administrativamente a difusão pública e privada da mensagem cristã.

No Irão, no Sudão, na Mauritânla, se uma pessoa abandona o Islão, pode sofrer a morte, enquanto no Paquistão perde a tutela dos seus próprios filhos e o direito de receber qualquer herança dos seus familiares muçulmanos.

Diante de todas as dificuldades, que S. Paulo enumera - "a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada» - o grande Apóstolo, que passou por tudo isto, tem uma certeza: "Em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou", isto é, Jesus Cristo, "que foi crucificado na sua fraqueza, mas vive pelo poder de Deus" (2 Coríntios 13, 4).

Mas há outras realidades, que S. Paulo menciona num segundo bloco, e que já não são perseguições físicas, mas que também nos poderiam afastar de Deus, e que interpreto assim: são a própria vida, quando é dura; a perspectiva da morte, que pode trazer a angústia; e certas forças espirituais ou correntes culturais que põem a fé em questão.

Na Vigília com os jovens, em Sidney, Bento XVI disse que o mundo actual tem um modo de pensar que é «de vistas curtas», porque já não quer saber da verdade: "da verdade referente a Deus e referente a nós". O Papa está-se a referir ao chamado «relativismo», que renuncia a conhecer a verdade. Inventa soluções «pontuais» mas não tem uma visão de conjunto.

Em Sidney, Bento XVI disse "que, por sua natureza, o relativismo não consegue ver o quadro inteiro. Ignora aqueles mesmos princípios que nos tornam capazes de viver e crescer na unidade, na ordem e na harmonia".

Há muitas aplicações do relativismo no campo moral. E quem luta contra algumas das suas expressões - por exemplo, a equiparação da união de pessoas do mesmo sexo ao casamento - pode sofrer a acusação de fundamentalismo e fanatismo.

Estas podem ser as novas perseguições, em alguns ambientes do mundo actual. S. Paulo ensina-nos a não as temer, mas a preparar-nos para elas, para que sejam ocasião de darmos testemunho.

Devemos conhecer bem o que a Igreja ensina sobre os assuntos mais debatidos, particularmente o que ensina o Catecismo da Igreja Católica. E temos de ser capazes de reflectir e dialogar racionalmente sobre estas e quaisquer outras questões, seguindo o exemplo que constantemente nos tem dado Bento XVI.

No Evangelho, S. Mateus diz-nos que os que comeram dos pães e dos peixes que se multiplicaram nas mãos de Jesus eram "cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças". Contando mulheres e crianças, deviam então ser vinte ou trinta mil!

Supondo que a população judaica da Palestina devia ser de meio milhão de pessoas, pode-se dizer que Jesus alimentou um décimo da população. Mas ficaram ainda doze cestos cheios, e este número faz-nos pensar nas doze tribos, sendo fácil concluir que o alimento dado por Jesus chega para todos, para todo o Israel.

E hoje chega igualmente para todos os homens. Jesus alimenta-nos com a sua Palavra, que é inesgotável, e com o seu Corpo e Sangue, na Eucaristia.

Recebamos este Pão, que é Cristo, com profunda gratidão e também com o máximo respeito, devoção e amor. É por meio dele que refazemos as nossas forças e retomamos a nossa caminhada, confiantes de que nada poderá separar-nos do seu amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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