10 de Agosto de 2008 -

Fé ardente

O Evangelho mostra-nos os apóstolos, no momento em que acabavam de ser salvos por Jesus de uma forte tempestade.

Logo depois, porém, o próprio S. Pedro esteve na iminência de se afundar, no momento em que, "levado pela sua fé ardorosa", como observa S. Jerónimo, teve a ousadia de caminhar sobre as águas, para ir ter com Jesus.

Poucos instantes depois, começou a afundar-se, mas ainda conseguiu gritar, dirigindo-se a Jesus: "«Salva-me, Senhor»".

S. Jerónimo tem um comentário interessante: "Ardia em Pedro a fé do espírito, mas a fragilidade humana arrastava-o para o fundo". Mas foi salvo por Jesus, que lhe estendeu logo a mão e segurou­o. Jesus, porém, não deixou de lhe dizer:"«Homem de pouca fé, por que duvidaste?»"

E S. Jerónimo aproveita esta censura carinhosa feita por Jesus a S. Pedro para nos convidar a reflectir sobre a nossa própria fé:

"Se ao apóstolo Pedro, de cuja fé e ardor espiritual falámos há pouco, que tinha pedido confiadamente a Jesus: «Se és Tu, Senhor, manda­me ir ter contigo sobre as águas», porque teve um instante de medo, Jesus diz: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?», que terá de nos dizer a nós, que desta escassa fé nem sequer temos uma pequena parte?"


Alessandro Allori,  S. Pedro caminha sobre as águas (1590)

E que fizeram os apóstolos, quando tudo acabou? No termo destes instantes de grande angústia, estes homens não se deixaram cair de cansaço na areia da praia ou por cima dos bancos do barco, já sem fôlego, mas "prostraram-se diante de Jesus e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus»". Não perderam a oportunidade de reconhecer o poder divino de Jesus, e de lhe mostrar todo o seu amor e a sua fé, que saiu purificada e fortalecida deste momento tão dramático.

Esta exclamação dos discípulos sintoniza com o modo como o próprio Jesus se apresentou a eles, quando foi ao seu encontro, em plena tempestade. Jesus tinha-lhes dito: " «Tende confiança, sou Eu.»" ". Mas literalmente o que texto diz é: "Eu sou", o que tem um sentido muito mais profundo do que o simples "Sou Eu...", porque "Eu sou" é o nome de Deus, revelado a Moisés(Êxodo 3, 14).

Jesus apresenta-Se aos discípulos da mesma forma que Deus se apresentou a Moisés: "Eu sou aquele que sou". E nós, que tanto somos como não somos, precisamos de nos apoiar n'Aquele que, sendo homem como nós, tem a capacidade de dizer, como o próprio Deus: "Eu sou".

Verdadeiro homem, Jesus torna-Se presente junto de nós nas tempestades da vida, e com o seu poder divino salva-nos da angústia e do abismo profundo, do mal e da morte eterna.

Quando nos sentimos salvos, não podemos calar o nosso louvor a Jesus. É preciso dizer a Jesus, com sinceridade e verdade: " «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus»".

A esta profissão de fé foi também conduzido S. Paulo, num momento de grande dor, não física, mas de grande tristeza interior, mas que terminou numa expressão explícita da divindade de Jesus Cristo. Vejamos como Paulo chegou até ela.

S. Paulo sente uma grande tristeza e uma dor contínua pelo facto de os seus concidadãos terem rejeitado Jesus. Ao contrário do habitual, não lhes chama «Judeus», que é um título com ressonâncias políticas, mas sim "Israelitas", que vem de "Israel", que foi o nome que Deus deu a Jacob depois da misteriosa luta em que este conheceu melhor o mistério de Deus (Génesis 32, 28), e que, passando aos seus descendentes, é um título que salienta a relação pessoal do povo eleito com Deus.

Mas os Israelitas, na sua maioria, não reconheceram em Jesus o Messias, ao contrário de Paulo, e este não sabe que mais poderá fazer, para obter a sua conversão. Só lhe ocorre um gesto extremo: ser ele próprio "anátema", "separado de Cristo", por amor dos seus irmãos.

Mas Paulo sabe que isso é impossível, e que Deus jamais o permitiria. Ninguém se pode condenar eternamente para salvar alguém. Paulo, de resto, é o primeiro a sabê-lo, e por isso escreve: "Quisera...". Mas é um sacrifício interdito ao homem. Ninguém pode renunciar à sua salvação, mesmo pela causa mais nobre e altruísta.

E por isso renuncia a encontrar uma solução humana, e percebe que, por ele, nada mais pode fazer. Mas não deixa de fazer a lista das grandes prerrogativas passadas dos Israelitas, como que a lembrá-Ias a Deus e a pedir misericórdia. E a maior de todas estas prerrogativas é a última: a eles "pertencem os Patriarcas", "de quem procede Cristo segundo a carne, Ele que está acima de todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos. Ámen".

Este texto, temos de o reconhecer, pode ser lido com diferentes pontuações, o que alteraria o seu sentido, mas a que parece mais correcta é esta mesma, que proclama Cristo como Deus (theõs) e bendito para sempre.

Os estudiosos dizem que este uso de theòs para Cristo é compatível com o ensinamento de Paulo, e recordam outros textos que convergem com este: 1 Coríntios 8,6 e Filipenses 2,6; ou ainda Tito 2,13.

É importante que S. Paulo termine o seu lamento pela incredulidade dos Israelitas, que lhe causa uma profunda dor, com esta exclamação de louvor a Jesus.

Não é uma atitude de desistência, como alguém que não tem forças para chegar à meta, e se deixa cair na pista.

Não, Paulo não desiste! Mas já percebeu que a conversão dos homens não depende dele, mas só de Deus. E por isso, adora Aquele "que está acima de todas as coisas", mesmo sem ele próprio entender ainda tantas coisas.

Hoje, aprendemos com S. Paulo a preocupar-nos mais com aqueles que não têm fé ou que ainda não chegaram reconhecer Jesus como Salvador.

Também nós sentimos profunda tristeza e dor pelos que se consideram ateus ou agnósticos, ou não se mostram atraídos para entrar na Igreja e seguir Jesus. São nossos concidadãos, caminham, trabalham e vivem ao nosso lado.

Que mais poderemos fazer por eles? Há tantas coisas que podemos fazer, mas, voltando ao Evangelho, vemos que a primeira de todas é imitar Jesus, que, depois da multiplicação dos pães e dos peixes, subiu ao monte para rezar.

Na sua oração no alto do monte, Jesus pediu certamente por toda aquela multidão que o tinha rodeado ao longo do dia, e a quem tinha curado e alimentado, e pediu que todos aceitassem a graça do Reino e se convertessem ao amor do Pai.

Mas, para além deles, a sua oração abraçou a Terra inteira, toda a humanidade, e abrangeu os tempos, até ao fim da história.

Entremos também nós no espaço da oração de Jesus. Rezemos mais pelos nossos amigos e familiares, e por todos os homens.

A poucos dia da festa da Assunção de Nossa Senhora, peguemos no Terço, percorrendo com fé os mistérios do Rosário. Muitas coisas grandes dependem da qualidade da nossa oração, de onde partimos, como o próprio Jesus, para ir ao encontro dos nossos irmãos, levando-lhes a alegria, a paz e a esperança.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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