14 de Setembro de 2008 - Exaltação da Santa Cruz

A cruz e a glória

Na 2ª leitura de hoje lemos um passo da Carta aos Filipenses, que eram os cristãos da comunidade de Filipos, que o próprio S. Paulo evangelizou no ano 50, durante a sua 2ª viagem missionária.

Filipos foi uma importante cidade da província romana da Macedónia, hoje uma região da Grécia.Actualmente, da antiga cidade de Filipos, só restam ruínas, mas permanecem também estas memórias tão belas da missão de S. Paulo.

Como na cidade não havia sinagoga, S. Paulo iniciou a sua pregação nas margens de um rio, e houve logo ali algumas conversões (Actos dos Apóstolos, 16, 11-15). E assim se constituiu a comunidade cristã de Filipos, que teve sempre um grande afecto por S. Paulo e o ajudou materialmente em momentos de dificuldade.

Alguns anos depois, quando S. Paulo estava em Éfeso, na actual Turquia, durante a 3ª viagem missionária, (entre os anos 54 e 57), escreveu-lhes esta carta. Na altura, o Apóstolo estava preso, mas vê-se que nada abalou o seu amor pelos cristãos que ele tinha chamado à fé.

Através do portador dos donativos dos Filipenses, soube que estava a haver uma grande oposição à comunidade de Filipos por parte dos não cristãos.


 Encontro da Santa Cruz (ícone oriental)

Mas também ficou a saber que havia divisões internas provocadas pelo orgulho de alguns. E S. Paulo, com grande amor por todos, exorta-os a «cerrar fileiras» e a construir uma unidade mais profunda através do espírito de serviço fraterno e de uma verdadeira caridade.

É neste contexto que surge a passagem que hoje lemos, que muitos autores pensam que deve tratar-se de um cântico ou um hino quejá existia antes, e que S. Paulo cita para exortar os Filipensesà caridade.

É, portanto, um texto muito antigo, e é impressionante a fé na divindade de Jesus que nele já se exprime. A frase que vem logo antes da primeira que lemos é esta: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus". É este o objectivo de S. Paulo, é isto que procura provocar nos Filipenses: que tenham os mesmos sentimentos, quer dizer, a mesma atitude de Jesus Cristo, que vivam o mistério de Cristo.

E continua: Ele "que era de condição divina...", à letra: Ele que, "existindo na forma de Deus..." É impressionante que já neste hino tão antigo se ensina a divindade de Jesus, a sua pré-existência divina.

Mas logo depois diz que "não Se valeu da sua igualdade com Deus". A nossa tradução é bastante correcta, e significa que Jesus «não se aproveitou» da sua condição divina em seu favor, de um modo egoísta.

Pelo contrário, "aniquilou-Se a Si próprio". Este "aniquilou-Se", não significa que Jesus Se destruiu, ou que se esvaziou, mas que aceitou livremente não ter poder humano, aceitou uma situação de fragilidade e debilidade, exactamente como um escravo, que não tem nenhum poder.

E, na verdade, continua S. Paulo, "assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens". Sujeitou-se a tudo, e finalmente "humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte". E aqui S. Paulo acrescentou no texto: "e morte de cruz".

"Até à morte, e morte de cruz". Esta forma de pena de morte era a mais humilhante de todas, e aplicava-se aos últimos da sociedade. Mas a ela seguiu-se a resposta de Deus. Aquele que Se entregou totalmente, foi justificado e glorificado por Deus.

Jesus não rejeitou cruz, e "por isso" - continua o texto - "Deus O exaltou, e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes". Que nome é este?

Este "nome que está acima de todos os nomes" é certamente o nome Kýrios, que significa «Senhor», que já era usado para substituir o nome de Deus revelado a Moisés e que não se podia pronunciar. Este nome, que habitualmente aparece com quatro consoantes, para não se poder pronunciar (YHWH), era substituído por Adonaí, em hebraico, e por Kýrios, em grego.

É esse nome que é dado a Jesus Cristo. Como S. Paulo diz também noutros passos das suas cartas (Coríntíos 12,3; Romanos lO, 9), Jesus é o Kýrios, o Senhor!

Jesus, que aceitou não ter nenhum poder e ser como um escravo, e que por isso foi morto na cruz, foi glorificado por Deus, e agora, também enquanto homem, tem o título e a autoridade de Senhor universal.

O nome que Lhe foi dado por Deus, justifica que "ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos", e ainda que e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai".

Para nós é uma grande honra celebrar a glória da sua Cruz, que é a glória do próprio Cristo Crucificado. Jesus mereceu totalmente esta glória, pela sua humilhação voluntária e pela sua obediência incondicional.

Quanto a nós, seus discípulos, não temos que renunciar a ser activos, fortes e até lutadores na sociedade e no mundo. Há um grande trabalho a fazer, para melhorar o mundo, e sobretudo para que o mundo não se feche à verdade e a Deus. Temosquesaberagire intervir.

Mas, no que se refere à nossa relação com Deus, temos de vencer a arrogância e ser como Jesus: corresponder a tudo o que Deus nos pedir, com humildade e docilidade. Não temos que nos «aniquilar», nem que nos «esvaziar», temos apenas que aceitar colaborar sem reservas no projecto de Deus.

Se entrarmos neste projecto como o próprio Jesus Cristo, que quis depender totalmente do Pai, participaremos um dia na sua glorificação, e já hoje, mesmo quando a Cruz que ajudamos Jesus a levar nos parecer muito pesada, saberemos descobrir a sua glória, que também brilha em nós, e que brilhará tanto mais, quanto mais a abraçarmos com amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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