21 de Setembro de 2008 - Domingo XXV do Tempo Comum

Para mim viver é Cristo

Quando a escreve, S. Paulo está na prisão, em Éfeso, e não sabe o que lhe pode vir a acontecer. Vê-se que está bem consciente da gravidade e da incerteza do momento difícil que está a passar. Irá sair vivo da prisão?

Só Deus o podia saber naquele momento, mas de uma coisa S. Paulo tinha a certeza, como lemos no início: "Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva, quer eu morra". S. Paulo deseja dar glória a Jesus no seu corpo, isto é, na sua pessoa, quer permaneça nesta vida, quer tenha de morrer.

Terá S. Paulo medo da morte? Às vezes há pessoas que afirmam que não têm medo da morte, porque, segundo dizem, depois de morrer, já não existem, e portanto não há razão para terem medo. Mas este é um triste e decepcionante raciocínio, e o pensamento de S. Paulo é completamente diferente.

S. Paulo não tem medo de morrer, porque tem a certeza de que morrer é, desde já, "estar com Cristo". Por isso S. Paulo, porque tem fé em Jesus, que ele viu vivo, que sabe que está vivo, não tem nenhum medo da morte!


El Greco, Cristo Salvador (c. 1600)

Mas, por outro lado, porque tem fé, S. Paulo não também alimenta o desejo de morrer, porque a fé lhe impõe a tarefa muito gratificante de servir os outros pelo seu trabalho apostólico.

S. Paulo não esconde que para ele "partir" seria "muito melhor", mas sabe que pode ainda ser muito necessário aos cristãos, e aceita com toda a serenidade o dever de servir os irmãos "neste corpo mortal", enquanto Deus o quiser.

Este ensinamento de S. Paulo pode levar-nos a perguntar como será possível, depois da morte, "estar com Cristo". O que é que há em nós que torna possível, por uma lado, morrer, e por outro continuar a viver, e viver numa relação pessoal com Cristo?

S. Paulo, neste texto, não deu nenhuma explicação filosófica ou «antropológica» desta sua esperança, não porque não fosse capaz de a dar, mas porque não a considerou necessária, uma vez que argumenta pura e simplesmente a partir de Cristo, que é fonte de vida, que é a própria vida,já hoje e para sempre.

No Evangelho de S. João o próprio Jesus diz de Si mesmo: "Eu sou a ressurreição e a vida" (11,25). É esta a fé de S. Paulo. Para ele, "viver é Cristo", e por isso a morte é um ganho, porque significa "estar com Cristo", depois de "partir" desta terra. Mas também é bom estar neste mundo, por muitas razões, e particularmente por esta: servir Cristo nos irmãos, o que S. Paulose mostra inteiramente disponível para fazer.

E quanto a saber o que é que torna possível no ser humano esta esperança de S. Paulo, que é também a nossa, não é preciso ir muito longe para o descobrir. S. Paulo partilhava as convicções do judaísmo do seu tempo, que desde há muito tinham vindo a amadurecer no Povo de Deus da Antiga Aliança.

O Judaísmo professava a certeza de que os mortos não caem no nada, mas esperam a ressurreição na «morada dos mortos» ou «sheol», de uma maneira proporcionada à sua conduta nesta vida.

S. Paulo aceita esta concepção, mas ao mesmo tempo transforma-a radicalmente: quem nos aguarda, não é o «sheol», mas Cristo vivo, detal modo que, depois da morte poderemos "estar com Cristo".

Para S. Paulo, a vida depois da morte e antes da ressurreição final é sempre definida em termos de uma relação pessoal. O que S. Paulo espera e firmemente aguarda é viver em Cristo, e é essa mesma relação que seguramente deseja que um dia possam vir a ter todos os fiéis e também todos os homens.

Poderíamos dizer, no entanto, que isso só será possível se houver «algo» em nós que não morre. A esse «algo» deu-se o nome de «alma», que é um termo útil, embora seja limitado ou imperfeito, como todos os conceitos humanos. A alma é esse «algo» de nós que não morre, mas em que o nosso «eu» mantém a sua identidade, porque tem de a manter para podermos "estar com Cristo".

A Igreja foi aprofundando ao longo dos tempos o seu pensamento sobre a vida para além da morte, e um dos momentos altos da elaboração da sua doutrina sobre uma questão tão importante aconteceu já há vários séculos, num documento solene intitulado Benedictus Deus, que o papa Bento XII publicou em 29 de Janeiro de 1336.

Falando ex cathedra, o Papa declara neste documento que as almas dos defuntos que já não precisam de purificação, após a Paixão, a morte e a ressurreição de Cristo ao Céu, já não têm que esperar num estado intermédio, mas, "mesmo antes da sua reunião com os seus corpos e antes do julgamento geral (...) estão e estarão no Céu", de modo que, desde então, "vêem a realidade divina em visão directa e face a face, sem a mediação de nenhuma criatura".

Em relação ao pensamento de s. Paulo foi dado um grande passo doutrinal, mas a essência da doutrina é a mesma. Mesmo ainda antes da ressurreição final, os seres humanos que estiverem plenamente purificados podem ver a Deus, o que é o mesmo que "estar com Cristo", como dizia S. Paulo, e por Ele com o Pai, no seu comum Espírito Santo.

É essa, se pensarmos bem, a razão de ser mais decisiva da nossa vida, e o seu fim absoluto. Existimos para ver a Deus. É este o sentido e o fim da nossa vida. Esperando atingi-lo. conforta-nos a certeza de que o atingiremos tanto mais facilmente, quanto mais, como S. Paulo, nos esquecermos de nós mesmos e procurarmos servir e amar de verdade todos aqueles que Deus, para esse fim, colocou na nossa vida.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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