28 de Setembro de 2008 - Domingo XXVI do Tempo Comum
«Obedeceu até à Morte»
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Há tempos foi muito lido um livro que dizia que a fé na divindade de Jesus só apareceu muito tarde, só no séc. IV, a partir do Concílio de Niceia, que se realizou no ano 325. Esta é uma das muitas falsidades deste livro, chamado O Código da Vinci. Mas as cartas de S. Paulo provam o contrário. Hoje voltámos a ler um passo da Carta de S. Paulo aos Filipenses em que a fé na "condição divina" de Jesus aparece com toda a clareza. À letra o texto diz: "Jesus, que existia na forma de Deus..." E este dado ainda é mais impressionante, porque é um texto «pré-paulino», isto é, anterior a S. Paulo, e que S. Paulo cita nesta sua carta para exortar os cristãos de Filipos a viver unidos na caridade, "numa só alma e num só coração". Os estudiosos do cristianismo primitivo chegaram a esta conclusão: desde o início, as primeiras comunidades cristãs confessaram Jesus como "Senhor". Esta conclusão contraria o que disseram certos autores do século passado, que imaginaram que tinha havido uma lenta evolução, até que, finalmente, a partir do séc.IV, Jesus foi honrado como Deus. Mas os textos provam o contrário. Os textos provam que não houve uma lenta evolução, mas uma imprevista explosão do culto a Jesus Cristo, logo desde o início. |
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O culto prestado a Jesus, escreve um estudioso, (numa obra publicada em 2006), "começou incrivelmente cedo, entre grupos compostos e dominados em grande parte por cristãosjudeus, profundamente vinculados a uma posição monoteísta".
Este culto reflecte-se neste fragmento «pré-paulino» que hoje voltámos a ler. Deve ter sido escrito menos de 20 anos depois da Páscoa! O texto, que é um hino poético, diz que Jesus "obedeceu até à morte" (e S. Paulo acrescenta: "e morte de cruz").
Mas depois o hino termina assim (vamos ler numa tradução mais literal): "Por isso Deus o superexaltou e Lhe deu o nome, que está acima de todo o nome. Para que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre nos céus, na terra e nos abismos, e toda a língua confesse: «Senhor Jesus Cristo» para glória de Deus Pai».
As primeiras comunidades cristãs atribuem a Jesus Cristo o mesmo nome que o Antigo Testamento aplica só a Deus: o nome «Senhor», em grego Kýrios, em latim "Dominus". Esta é a fé dos cristãos desde os alvores do cristianismo.
E como esta fé não pertence ao passado, mas é de hoje e de sempre, quero propor-vos dois modos de viver hoje esta luminosa certeza dos primeiros cristãos.
A primeira é a celebração da Eucaristia, a Santa Missa. É um ponto de honra indiscutível. Não podemos faltar nunca (excepto em caso de doença). Desde o início as comunidades cristãs juntavam-se para ouvir as Escrituras, para a fracção do pão e para a partilha dos bens. Faziam-no no Dia do Senhor, o Domingo, e, logo que possível, também nos outros dias da semana.
A Eucaristia de Domingo é a "Páscoa semanal". E a Missa de semana também é preciosa. Quem puder, venha à Missa e comungue todos os dias. Quem não puder, venha nos dias em que puder!
Em segundo lugar, vamos ter nos Jerónimos todas as Quintas-Feiras (e também às primeiras Sextas-Feiras) uma hora de oração diante do Santíssimo Sacramento, com início às 17h45. Algumas pessoas poderão estar só uns momentos, e outras o tempo todo. A primeira meia hora será de silêncio, e a segunda terá a leitura de breves textos. Quem puder, experimente de novo o sabor de rezar diante de Jesus na Eucaristia, que está não só dentro de nós quando O comungamos, mas também diante de nós quando O adoramos, e então nos chama, nos atrai e nos envia a trabalhar na sua vinha.
Jesus "obedeceu até à morte". Às vezes pergunto-me porque é que algumas pessoas rejeitam a fé cristã. E penso que talvez seja porque não querem obedecer a Deus, nem à Lei natural que está gravada na sua consciência, nem mesmo, por vezes, à sua própria consciência. Julgam que é possível solucionar os problemas e até ter grandes êxitos, sem passar pela humildade da obediência à verdade.
Alguns governantes disseram recentemente que a crise financeira que o mundo está a viver se deve à falta de regulação por parte das autoridades competentes, no que talvez tenham razão, mas a verdadeira causa, não só da crise financeira, mas de muitos males que há na sociedade, nomeadamente da violência e da criminal idade, é outra: é a falta de regulação de cada um por uma consciência recta, por uma consciência regida pela verdade.
As pessoas não se Importam de fazer o que está errado, desde que a lei não o proíba. Em Portugal, os médicos deixaram recentemente de considerar o aborto como "falta deontológica grave". É profundamente lamentável que a Ordem dos Médicos tenha cedido à ditadura da lei, e não tenha tido a coragem de continuar a pôr a ética e a deontologia acima da lei.
Para que o mundo se torne melhor, seria preciso voltar a aprender que a busca da verdade e a obediência à verdade são fonte de felicidade, e que a desobediência à verdade provoca enormes males. Deve-se fazer o é bom e não o que é mau, mesmo que isso dê prazer ou lucro imediato. Mas este critério é rejeitado por uma grande maioria da sociedade. E o resultado está à vista.
A obediência de Jesus, a que se submeteu apesar de existir "na forma de Deus", mereceu-lhe ser superexaltado. A nossa obediência filial a Deus será sempre para nós, mesmo com lutas e dificuldades, fonte de felicidade e de alegria, que, de resto, não queremos guardar para nós, mas gostaríamos muito de partilhar com todos.
Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
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