5 de Outubro de 2008 - Domingo XXVII do Tempo Comum

Novo humanismo

Que nos ensina hoje S. Paulo? Antes de mais, dá-nos um ensinamento sobre a oração. Diz que não nos devemos inquietar "com coisa alguma", mas sim apresentar os nossos pedidos diante de Deus, "com orações, súplicas e acções de graças".

Vamos olhar um pouco para as diversas cartas de S. Paulo, e tentar perceber melhor o que é para ele a oração. Para S. Paulo, a oração nasce de sabermos que estamos na presença de Deus, e que por isso temos o dever de comunicar com Ele na adoração, no louvor, na acção de graças e na súplica.

As cartas de S. Paulo estão cheias de expressões de oração. Em quase todas (excepto duas) encontramos acções de graças muito desenvolvidas, que não aparecem só por boa educação - como quem diz «obrigado" para não parecer mal-educado mas revelam mesmo a sua profunda gratidão diante de Deus.

E por quem reza S. Paulo? Diversos textos (que vos convido a ler, em casa, na Bíblia) mostram que por vezes reza por ele mesmo (1 Tessalonicenses 3, 11; 2 Coríntios 12, 8-9); e sobretudo reza pelos cristãos que ele converteu e formou na fé (1 Tessalonicenses 3, 9­10. 12-13; Filipenses 1, 9-11; 2 Coríntios 13, 7-9); ou também pelos seus antigos companheiros de religião, os Judeus (Romanos lO, 1).


El Greco,  S. Pedro e S. Paulo (1592)

Muitas vezes S. Paulo exorta os seus leitores a rezar, como no texto de Filipenses 4,6, que hoje lemos: "Em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e acções de graças". (Outros textos: 1 Tessalonicenses 5, 6-18; Romanos 12, 11-12). A oração é o sinal do discípulo cristão autêntico, que reza a Deus como Abba (Gálatas 4,1-6).

Vejamos algumas modalidades desta oração de S. Paulo:

A oração nunca se perde, dá sempre fruto. Mesmo que Deus (aparentemente) não nos conceda aquilo que Lhe pedimos, o fruto da oração é a paz. É o que ensina hoje S. Paulo: "E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus".

A oração mantém-nos unidos a Deus, não nos deixa perder-nos, guarda-nos na verdade, guarda-nos em Jesus. Quem não reza, arrisca-se a perder-se na confusão da vida, no caos, na incerteza, no afastamento de Deus; quem reza, pelo contrário, está guardado; pode ter lutas, dificuldades, até talvez dúvidas; mas o seu coração e a sua inteligência estão guardados em Jesus, estão nas mãos do Pai (cf. João lO, 29).

A oração não nos fecha em nós mesmos, mas aproxima-nos dos outros. Depois de falar da oração, S. Paulo recomenda à comunidade que deve dar testemunho diante de mundo. E fala-lhe de virtudes humanas, que não são exclusivas dos cristãos, mas que os cristãos têm um especial dever de praticar.

Recordo o texto de S. Paulo (numa tradução um pouco mais literal): "Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que tem bom nome, e o que quer que seja virtude e digno de louvor, é o que deveis ter em mente".

Há muitas coisas no mundo que não são verdadeiras, nem respeitáveis, nem puras, e muitas vezes estamos rodeadas por elas quase portodos os lados. Mas não nos podemos habituar nem achar normais.

Há comportamentos que ofendem a Deus, e também desonram o ser humano. A Bíblia usa para alguns deles a expressão forte de "abominações" (Levítico 18). S. Paulo também oferece nas suas cartas, para advertir os cristãos, longas listas de virtude e de vícios que devem ou, pelo contrário, não devem caracterizar a vida cristã. É o que encontramos, por exemplo na Carta aos Gálatas 5, 19-23, que vos convido a ler.

Mas nesta Carta aos Filipenses não aparece a lista de vícios, só de virtudes. O que nos pode ajudar a entender que, mesmo que haja no mundo de hoje uma presença envolvente de comportamentos que nos impressionam, o nosso modo de agir mais será sempre mais pela positiva do que pela negativa.

Como crentes, manifestamos tranquilamente a alegria da nossa fé. Em todas as situações, saberemos anunciar a harmonia que existe entre a fé e a razão, entre a fé e a vida.

É evidente que, quando discordamos, temos de o dizer claramente. E quando for o caso, também saberemos votar de acordo com a nossa consciência. Se pudermos impedir que se aprovem leis que se opõem à Lei natural e à verdade revelada, é evidente que devemos fazê-lo.

Mas, mesmo com leis imperfeitas ou más, o que conta é o estilo de vida que, por si só, é um testemunho silencioso de Jesus, e pode ajudar outras pessoas a desejar conhecê-Lo melhor, e a viver este novo humanismo que, com Jesus, passou a estar ao alcance de todos os homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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