12 de Outubro de 2008 - Domingo XXVIII do Tempo Comum

Mais importante é a caridade

Hoje terminamos a leitura da Carta ao Filipenses, e gostaria de continuar a falar de S. Paulo, e depois da nossa comunidade de Santa Maria de Belém.

Quando S. Paulo estava na prisão em Éfeso, os cristãos de Filipos enviaram-lhe ajuda económica, através de um delegado da comunidade chamado Epafrodito, que se tornou colaborador muito estimado de S. Paulo e seu "companheiro nos combates" (Filipenses 2, 25).

A certa altura Epafrodito adoeceu e esteve às portas da morte, mas a sua única preocupação foi sempre prestar auxílio a S. Paulo.

No entanto, como Epafrodito também tinha muitas saudades dos irmãos de Filipos, e estava angustiado de que tivessem sabido de que ele tinha estado doente, S. Paulo resolveu enviá-lo de novo para Filipos, para que se alegrassem ao vê-lo de novo, e ele próprio, Paulo, tivesse menos tristeza (Filipenses 2, 25-30). É um traço muito bonito da personalidade e da humanidade de S. Paulo.

É de notar que já antes, quando o Apóstolo estava em Tessalónica, depois de ter estado em Filipos pela primeira vez, durante a sua anterior viagem missionária (Actos 16, 9-10; 17,1), os Filipenses lhe tinham enviado ajuda material (4,16).


Rembrandt,  S. Paulo na prisão (1627)

S. Paulo, evidentemente, aceitou estas ajudas, mas tem o cuidado de dizer que nunca gostou de depender de ninguém, para poder pregar o Evangelho com toda a liberdade, e é isso que deixa bem claro na leitura de hoje: "Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a passar necessidade". E conclui: "Tudo posso n'Aquele que me conforta".

Apesar disso, observa, dirigindo-se aos Filipenses: "Fizestes bem em tomar parte na minha aflição". S. Paulo não é mal-agradecido! Mas, neste passo da sua carta, vê-se que o Apóstolo, mais do que a ajuda material que lhe enviaram, agradece o espírito com que o fizeram, a amizade sincera que revelaram, a caridade fraterna que neles existia e que dessa forma se manifestou.

A ajuda material é importante. mas ainda mais importante é a amizade, a caridade, o espírito de comunidade que está na sua origem.

É nesse espírito de amizade e caridade, nesse espírito de comunidade que Deus também nos chama a crescer. E como podemos fazê-lo aqui, em Santa Maria de Belém? A igreja dos Jerónimos é tão grande, entra aqui tanta gente... Sim, mas mais uma razão para procurarmos ser uma verdadeira comunidade.

E proponho que o procuremos ser, sobretudo em dois campos. Primeiro, fazendo tudo o que depender de nós para valorizar cada vez mais a Igreja dos Jerónimos como um espaço de oração e de culto, que é a sua primeira e fundamental razão de ser.

Os Jerónimos são uma Igreja, não são um museu. E nós, paroquianos «residentes» ou não «residentes», que recebemos com alegria esta preciosa herança, temos de a manter e de a desenvolver.

Às vezes há dificuldades, uma delas é que é difícil estacionar, mas se nos lembrarmos que noutras partes do mundo há irmãos nossos que andam horas a pé para participar na Eucaristia, faremos tudo para não deixar o nosso lugar vazio e assim participar na vida espiritual e litúrgica desta comunidade, que também acolhe muitas outras pessoas, que quase sempre ficam fascinadas pelas beleza deste espaço e da liturgia que celebramos.

E agora gostaria de fazer um apelo: quem poderia dedicar algum tempo por semana a um serviço de acolhimento, durante as horas mais preenchidas com visitas, ou também ao domingo de manhã, para reforçar a presença acolhedora cristã neste espaço sagrado?

Em breve vamos ter um desdobrável em várias línguas com sugestões para uma visita «espiritual» aos Jerónimos. Seria bom ter sempre alguém para encaminhar alguns dos que aqui entram, nesta visita «espiritual», muito mais frutuosa do que uma simples visita turística.

E agora falo-vos de um segundo campo de crescimento: a participação em encontros de formação cristã que têm lugar na Paróquia.

A partir de Janeiro retomaremos o Curso Bíblico, com temas e em datas a anunciar. E antes, já em Novembro próximo, às terças-feiras, nos dias 4, 11 e 18, haverá três conferências sobre o tema: «Teologia do Matrimónio», que terei o gosto de apresentar na nssa Paróquia, depois de o ter feito em Belo Horizonte, no Brasil, em 2007, num grande encontro promovido pela Sociedade Brasileira de Canonistas, e recentemente em Fátima, no mcontro anual da Sociedade Portuguesa de Canonistas.

Na última terça-feira, dia 25, espero que possamos contar com a presença de um especialista sobre algumas questões de actualidade relacionadas com o casamento.

O Evangelho de hoje fala-nos de pessoas que vivem ocupadas nos seus trabalhos, nos seus pensamentos ou nos seus divertimentos, e não respondem com amor ao amor que Deus lhe tem. Deus convida-os, insiste muitas vezes, mas continuam indiferentes. Arriscam-se a ficar de fora para sempre da grande festa que Deus preparou para os seus filhos.

Mas é preciso combater a indiferença e crescer na fé e na caridade fraterna. Mais do que tudo aquilo que fazemos, é importante a amizade e caridade que nos une como irmãos e membros de Jma comunidade cristã.

Mas o que fazemos também é importante, as obras da fé e da caridade também têm que ser visíveis e concretas. Que Deus nos dê a generosidade e a criatividade necessária para as realizarmos, e assim, como faz S. Paulo, darmos glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos".

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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