19 de Outubro de 2008 - Domingo XXIX do Tempo Comum
Dia Mundial das Missões

Uma graça e também uma missão

Hoje lemos o início do texto mais antigo do Novo Testamento, que é a lª Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses. Esta carta foi escrita no ano 50, quando S. Paulo estava em Corinto, durante a sua segunda viagem missionária.

Esta viagem, na sua etapa europeia, começou em Filipos, na Macedónia, onde S. Paulo fundou uma comunidade cristã muito unida, mas acabou por ser preso e expulso da cidade, e foi então para Tessalónica, que ainda ficava distante, a cerca de 150 km para oeste de Filipos.

Aqui anunciou Jesus, muitas pessoa acreditaram, constituiu­se uma comunidade, mas por inveja de alguns judeus, Paulo acabou também por ser expulso, e uma noite teve de partir secretamente (Actos 17,1-9).

Logo a seguir passou por outra cidade, chamada Sereia, onde também muitos abraçaram a fé, mas alguns dos que se lhe tinham oposto em Tessalónica vieram lá ter, criaram grande agitação na cidade, e os cristãos fizeram S. Paulo partir em direcção ao mar (Actos 17, 14), para embarcar para outra cidade. E foi assim que S. Paulo, deixando lá os seus companheiros de viagem, Silvano e Timóteo, foi para Atenas, e finalmente chegou a Corinto.


Gustave Doré,   S. Paulo prega aos Tessalonicenses

Algum tempo depois Silvano e Timóteo conseguiram ir ter com S. Paulo a Corinto, e S. Paulo sentiu o desejo de visitar de novo os Tessalonicenses, de quem se tinha separado tão bruscamente.

Mas acabou por não poder ir, e mandou em seu lugar Timóteo, que era ainda jovem, e era o seu principal colaborador e seu fiel emissário na obra da evangelização. S. Paulo ficou em Corinto, e, quando Timóteo voltou, trouxe boas notícias da Igreja em Tessalónica, mas também comunicou a S. Paulo alguns erros ou confusões que havia na comunidade, em particular sobre a situação dos que morreram e sobre a vida eterna, e que S. Paulo procura esclarecer, numa passagem desta Carta que vamos ler daqui a algumas semanas.

Hoje, lemos o início da Carta, onde se encontram algumas expressões muito bonitas. S. Paulo dirige-se não a uma pessoa individual, mas à comunidade, "à Igreja dos Tessalonicenses". Ainda não tinham «igrejas»: a Igreja era a comunidade dos fiéis, que se deviam reunir na casa de alguns dos cristãos de Tessalónica.

Os cristãos não se sentiam separados dos outros homens e mulheres, mas sentiam que formavam um grupo, uma comunidade, no meio dos habitantes da sua cidade. É bom termos esta noção de que constituímos um grupo, que não é fechado e muito menos secreto, mas que se distingue no meio da multidão e da confusão da sociedade em que vivemos.

S. Paulo escreve que a Igreja dos Tessalonicenses "está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo". Aqui está a grande diferença. Em relação aos que não têm fé, acreditamos em Deus, que pensa em nós, que nos conhece e ama. Em relação aos que admitem vários deuses, professamos que há um só e único Deus, e afirmamos que nenhum dos «deuses» ou «deusas» que também hoje fascinam os homens, merecem que alguém os venere, porque são falsos e vãos.

Em relação aos Judeus, acreditamos em Deus, que Jesus nos revelou como Pai, e, no mesmo plano, acreditamos no próprio Jesus. Este nome bendito: "Jesus", é o seu nome próprio, como indivíduo histórico, mas os títulos "Cristo" e "Senhor" identificam-No como o Messias desejado e como o Ressuscitado. Esta é a nossa identidade: somos a Igreja que está "em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo", e dela nos honramos profundamente.

Depois, S. Paulo confidencia que dá continuamente graças a Deus pelos cristãos de Tessalónica, ao fazer menção deles na suas orações, e evoca o comportamento cristão da comunidade de Tessalónica: a sua fé activa, o amor que demonstraram, e a sua sólida esperança, e tudo isso vivido "em Nosso Senhor Jesus Cristo e na presença de Deus, nosso Pai".

Aqui estão algumas virtudes essenciais, que nós também desejamos ter: uma fé dinâmica, que se exprime na vida; um amor que se nota, isto é, que se manifesta em obras, mesmo que estas, por vezes, sejam difíceis de realizar; e uma sólida esperança, isto é, uma paciente expectativa da vinda de Jesus, não só no fim dos tempos, mas já hoje, apesar de todos os obstáculos por parte do mundo.

Os cristãos de Tessalónica podiam ser poucos e até ser perseguidos, mas sabiam que eram "amados por Deus" e que tinham sido "escolhidos", como o tinha sido o Povo de Deus da Antiga Aliança.

Também nós fomos escolhidos. O facto de termos fé e de termos acolhido o Evangelho, é a prova dessa escolha, mas isto não é um privilégio, é uma graça, e também é uma missão.

Se fomos escolhidos, também somos enviados, e a nossa missão é ajudar muitos outros a perceber que Deus também os ama e os chama a viver em Cristo, com esse novo estilo de vida que nasce do Evangelho.

S. Paulo usa depois uma expressão interessante: "o nosso Evangelho". E diz que o pregou "não somente com palavras, mas também com obras poderosas, com a acção do Espírito Santo, e com toda a convicção". É fácil imaginar como S. Paulo pregava: com palavras fortes e com toda a sua vida de apóstolo.

Assim devemos também ser nós! É verdade que a pregação, em sentido estrito, compete ao Papa, aos Bispos, aos sacerdotes e aos diáconos. Mas todos os cristãos podem transmitir o Evangelho, a Boa Notícia de Jesus, Senhor e Cristo.

Quando alguém intervém numa conversa e diz que tem fé; quando uma pessoa normal, no meio dos seus amigos ou dos seus colegas, ou num diálogo mais íntimo, responde às perguntas, esclarece as dúvidas, e sobretudo desafia com algum deles a conhecer melhor Jesus e a viver a fé, a começar a vir à Missa, a confessar-se, a deixar certos estilos de vida, a experimentar a alegria de ser cristão, sabe que o faz "com a acção do Espírito Santo".

O Santo Padre Bento XVI, na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões, que se celebra hoje, convida-nos a pensar naquele Macedónio que apareceu em sonhos a S. Paulo, e lhe implorou: "Vem à Macedónia e ajuda-nos" (Actos 16, 9).

E S. Paulo procurou imediatamente partir para a Macedónia, persuadido de que Deus o chamava a ir lá anunciar a Boa Nova (Actos 16,10).

E o Papa conclui: "Hoje são inúmeros aqueles que esperam o anúncio do Evangelho, aqueles que se sentem sequiosos de esperança e de amor".

Não queremos deixar cair estes pedidos de ajuda. Confiamos no poder de Deus, para que muitas pessoas aceitem o Evangelho, e para que o testemunho que damos, apesar das nossas imperfeições, continue a ser um anúncio claro e um forte chamamento para que muitos outros conheçam Jesus e se convertam à fé.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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