26 de Outubro de 2008 - Domingo XXX do Tempo Comum

Ao Deus vivo e verdadeiro

Na 2ª leitura de hoje, S. Paulo alegra-se com os Tessalonicenses por duas razões. A primeira, pelo carácter irradiante da sua fé.

Quando se converteram, não ficaram fechados, mas o seu testemunho cristão chegou muito longe. Vamos recordar o que lhes diz S. Paulo: "Partindo de vós, a Palavra de Deus ressoou não só na Macedónia e na Acaia, mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus".

Também gostaríamos de que o nosso testemunho alastrasse à nossa volta, e contagiasse muitas outras pessoas com a luz e a alegria da nossa fé.

A segunda razão vai ainda mais longe, e refere-se à própria conversão dos Tessalonicenses. Antes de receberem a pregação de S. Paulo e de terem fé em Jesus, acreditavam em falsos deuses, em ídolos, mas depois diz S. Paulo converteram-se a Deus, "para servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus".

Muitas pessoas naquele tempo seguiam falsos deuses. Será que isso ainda acontece hoje?

Quando esteve na Austrália, em Julho passado, na Jornada Mundial da Juventude, o Papa Bento XVI, durante um encontro com uma comunidade de recuperação da toxicodependência, aconselhou os jovens a que não se deixem enganar, adorando, às vezes sem se dar conta disso, "outros deuses".


Hendrick van Balen,   Santíssima Trindade (1620)

Bento XVI explicou que "os falsos deuses", "independentemente do nome, da imagem ou da forma que lhes atribuamos, estão quase sempre ligados à adoração de três realidades: os bens materiais, o amor possessivo, o poder".

Ao falar dos bens materiais, o Papa destacou que eles, em si mesmos, são bons. "Não pOderíamos sobreviver por muito tempo sem dinheiro, sem vestuário ou sem uma casa. Para viver, temos necessidade de alimento".

"Mas, se formos gananciosos, se recusarmos partilhar o que temos com o faminto e o pobre, então transformamos estes bens numa falsa divindade. Quantas vozes se levantam na nossa sociedade materialista dizendo-nos que a felicidade se encontra, quando se adquire a maior quantidade possível de bens e de objectos de luxo! Mas isto significa transformar os bens em falsas divindades. Em vez de nos trazer a vida,levam-nos à morte", disse o Papa.

Em segundo lugar, o amor autêntico "é certamente uma coisa boa". Sem ele, a vida dificilmente seria digna de ser vivida. O amor dá satisfação às nossas carências mais profundas; e, "quando amamos, tornamo-nos mais nós mesmos, tornamo-nos humanos de forma mais plena."

Todavia, considerou Bento XVI, como se pode "facilmente transformar o amor numa falsa divindade!" Alguns pensam que estão a amar, quando, na realidade, "procuram possuir ou manipular o outro". Alguns tratam os outros "mais como objectos para satisfazer as suas necessidades, do que como pessoas que se devem respeitar e amar".

"Como é fácil ser enganado por tantas vozes que, na nossa sociedade, defendem um uso permissivo da sexualidade, sem qualquer consideração pelo pudor, pelo respeito de si mesmo e pelos valores morais que conferem qualidade às relações humanas! Isto é adorar uma falsa divindade. Em vez de nos trazer a vida, leva-nos à morte".

Finalmente, o poder, uma vez que foi dado aos homens por Deus "para plasmar o mundo que nos rodeia, é certamente uma coisa boa". "Utilizado de modo apropriado e responsável, permite-nos transformara vida das pessoas. Todas as comunidades têm necessidade de guias competentes".

No entanto, às vezes pode ser forte a tentação de alguém "procurar dominar os outros ou explorar o ambiente natural para os seus próprios interesses egoístas! Isto é transformar o poder numa falsa divindade. Em vez de nos trazer a vida, leva-nos à morte".

O que acontece, portanto, é que "o culto dos bens materiais, o culto do amor possessivo e o culto do poder levam muitas vezes as pessoas a comportarem-se como se fossem Deus". Procuram assumir o controlo total, sem ter qualquer consideração pela sabedoria ou pelos mandamentos que Deus nos deu a conhecer.

"Este é o caminho que conduz à morte. Pelo contrário, a adoração do único Deus verdadeiro significa reconhecer em Deus a fonte de tudo o que é bom, confiarmo-nos nós mesmos a Ele, abrirmo-nos à força regeneradora da sua graça e obedecer aos seus mandamentos: este é o caminho para quem escolhe a vida".

S. Paulo exprime a sua enorme alegria pela conversão dos Tessalonicenses dos ídolos "ao Deus vivo e verdadeiro". Para eles esta conversão representou uma mudança muito profunda, o início de uma vida nova. Também nós vivemos esta alegria da fé no "Deus vivo e verdadeiro", que pode às vezes implicar esforço e luta, mas depois nos deixa felizes.

Por fim, S. Paulo convida os Tessalonicenses a olhar para Jesus ressuscitado, "que nos livrará da ira que há-de vir". Deus não passará uma esponja sobre os males da história da humanidade, mas julgará as nossas acções, e dará a cada um o prémio ou o castigo que merecer.

Mas, em Jesus, somos libertos "da ira que há-de vir", porque Jesus nos convida ao arrependimento e nos oferece o perdão. Podemos assim viver na alegria da fé, e recomeçar a caminhar todos os dias na confiança e na esperança que nascem da fé.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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