2 de Novembro de 2008 - Domingo XXXI do Tempo Comum
Comemoração de todos os Fiéis Defuntos
Peregrinos da eternidade
|
O dia de hoje é essencialmente um dia de oração pelos que já partiram deste mundo. Mas como é a nossa oração pelos defuntos? Esta pergunta é importante, porque o modo como rezamos revela aquilo em que acreditamos. Vejamos então de que modo rezamos pelos defuntos na celebração da Eucaristia, a Santa Missa. No momento central e essencial da Missa, a grande Oração Eucarística, que apenas é proferida pelo sacerdote, há dois momentos de oração de uns pelos outros, a que se dá o nome de Intercessões. |
|
O primeiro é pelos vivos: rezamos pelo Papa, pelos Bispos, pelos sacerdotes e ministros sagrados, e por todos os que tomam parte na nossa celebração.
E o segundo é pelos defuntos. Nesta secção, rezamos por aqueles que morreram na paz de Cristo. E como é que pOdíamos deixar de rezar por aqueles que nos foram tão caros neste mundo?
Por vezes, no entanto, é possível que nos interroguemos sobre a fé de algumas pessoas que já não estão connosco nesta vida, e é possível até que nos sintamos preocupados pela sua eterna salvação.
Apesar disso, não deixamos de rezar por todos os defuntos, cuja fé, talvez escondida aos olhos dos homens, só Deus conheceu (como se lê na Oração Eucarística IV).
Em todas as Missas, sem excepção, a Igreja reza pelos que já partiram, e confia que a sua oração lhes levará conforto e ajuda. Escreve um grande Bispo do séc. IV, S. Cirilo de Jerusalém: "Rezamos pelos nossos familiares falecidos e portodos os que viveram no meio de nós. Porque temos uma profunda convicção de que é dada uma grande ajuda àquelas almas por quem oferecemos as nossas orações enquanto esta santa e preciosa Vítima está presente".
Na Oração Eucarística II, pedimos assim:
"Lembrai-vos também dos nossos irmãos que adormeceram na esperança da ressurreição, e de todos aqueles que na vossa misericórdia partiram deste mundo: admiti-os na luz da vossa presença".
Neste momento, pode ainda acrescentar-se uma oração muito bela por uma ou por várias pessoas falecidas. Pedimos a Deus que se lembre dessas pessoas, afim de que, "configuradas com Cristo na morte, com Cristo tomem parte na ressurreição, quando Ele vier ressuscitar os mortos, e transformar o nosso corpo mortal à imagem do seu corpo glorioso" (Oração Eucarística III).
No Cânon Romano, também chamado "Oração eucarística I" no Missal de Paulo VI, cujos primeiros testemunhos remontam ao século IV e ao tempo de S. Gregório Magno (início do séc. VII), o sacerdote utiliza expressões que ressoam como se estivéssemos a ouvir os primeiros cristãos de Roma a orar nas catacumbas:
"Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas ,
que partiram antesde nós marcados com osinal da fé
e agora dormem o sono da paz".
E depois de um breve tempo de silêncio, continua:
"Concedei-lhes, Senhor, a eles e a todos os que descansam em Cristo,
o lugar da consolação, da luz e da paz"( em latim: "locum refrigerii, lucis et pacis").
E isto que pedimos para todos os que partiram, e que, na expectativa da ressurreição, já hoje "descansam em Cristo": que, depois da luta e da prova pela qual tiveram que passar, lhes seja dado esse "refrigério" reconfortante; que a sua fome e a sua sede de Deus sejam saciadas; e que o próprio Deus os acolha na sua luz e na sua paz.
É interessante que nestas orações da liturgia romana mais antiga nunca é usada a palavra «morte», que nunca é dita na presença de Cristo, nossa eterna Vida.
A seguir, pedimos por nós mesmos, usando uma oração que data, pelo menos, do século VII, e começa com estas palavras: "Nobis, quoque, peccatoribus", "E a nós pecadores, que esperamos na vossa infinita misericórdia..."
O sacerdote bate com a mão direita no peito e, em nome de todos, pede que sejamos acolhidos "na assembleia dos bem-aventurados Apóstolos e Mártires (...) e de todos os Santos".
Já antes os Santos tinham sido mencionados, mas agora são de novo invocados, para reforçar este pedido:
"Recebei-nos em sua companhia, não pelo valor dos nossos méritos, mas segundo a grandeza do vosso perdão".
Que alegria para estes pobres peregrinos da eternidade, que somos todos nós, sermos recebidos na companhia dos santos, na presença do próprio Deus, adorado e contemplado face a face!
É este o pedido que fazemos para nós, e é também o pedido cheio de esperança e confiança que hoje fazemos por todos os defuntos, por quem oferecemos o próprio sacrifício de Cristo na Eucaristia: que Deus lhes conceda o seu perdão misericordioso e os purifique plenamente, de modo a poderem ser recebidos na companhia transbordante de luz e felicidade dos santos do Céu. Ámen.
Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Arquivo