9 de Novembro de 2008 - Domingo XXXII do Tempo Comum
Dedicação da Basílica de Latrão

O Papa e a Igreja

Hoje celebramos a Catedral do Papa, que é a Basílica do Santíssimo Salvador, habitualmente chamada Basílica de S. João de Latrão, em Roma. É na Basílica de S. João de Latrão que está a Cátedra do Papa, que simboliza a sua missão de Mestre da Fé.

A festa de hoje transmite-nos duas mensagens importantes: a primeiro em relação ao Papa, e a segunda em relação à própria Igreja e aos lugares onde a Igreja celebra os mistérios da sua fé.


Ábside e Cátedra da Basílica de S. João de Latrão, Roma

Comecemos pelo Papa. Quando o Papa é eleito, logo depois de iniciar solenemente o seu Pontificado, vai à Basílica de S. João de Latrão para tomar posse dela e se apresentar à Cidade e à Diocese de Roma como seu Bispo. Mas, por ser sucessor de S. Pedro, o Papa, enquanto Bispo de Roma, é também o Pastor Universal, o Pai comum de todos os fiéis e de todos os pastores na Igreja.

Desde há vários séculos, há diversas Igrejas e comunidades que não reconhecem no Papa esta função de unir e de fazer a comunhão de todos os cristãos. Isto acontece sobretudo desde o séc. XII paradiversas igrejas do Oriente e do leste da Europa, que hoje se chamam "ortodoxas", e desde o séc. XVI para as comunidades oriundas da reforma iniciada por Lutero.

Por esta razão, entre outras, esta mos separados destes irmãos, não estamos em plena comunhão com eles. Temos outros pontos em comum, sobretudo o Baptismo e o amor pela Palavra de Deus, o que nos dá muita alegria, mas neste ponto, infelizmente, estamos separados. No entanto, temos esperança de que, um dia, este serviço à comunhão universal realizado pelo Papa, o Bispo de Roma, volte a ser reconhecido e desejado portodos.

Nos primeiros séculos, este papel único e excepcional da Igreja e do Bispo de Roma foi sendo reconhecido com uma nitidez sempre maior.

Basta pensar nas palavras que Santo Ináclo de Antioquia escreveu aos Romanos, durante a sua viagem para Roma, onde sofreu o martírio, no ano 115. Nesta sua carta, uma das sete que escreveu, Santo Inácio de Antioquia refere-se à Igreja de Roma como "Àquela que preside na caridade".

Para dar só mais um exemplo, ainda no séc. II, podemos referir Santo Ireneu, bispo de Lyon, que fala da "preponderante prioridade" da Igreja de Roma, para a qual devem convergir os fiéis de todos os lugares.

Devem convergir, porquê? Porque, como disse Bento XVI, no dia em que tomou posse como Papa da Basílica de S. João de Latrão, "o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra".

O Papa não é um teólogo que defende as suas opiniões, "ele não deve proclamar as suas próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo".

O poder do Papa "está ao serviço da Palavra de Deus, e sobre ele recai a responsabilidade de fazer com que esta Palavra continue a estar presente na sua grandeza e a ressoar na sua pureza".

Se não pudéssemos contar com o magistério do Papa, andaríamos muitas vezes à deriva na fé, cometeríamos erros, ou pelo menos não conseguiríamos aprofundar toda a riqueza da nossa fé cristã.

E, por outro lado, se não pudéssemos contar com a sua caridade de Pastor supremo, estaríamos divididos, dispersos, para não dizer órfãos, no meio de um mundo hostil. O Papa abraça o mundo inteiro, e não só os cristãos: o seu abraço envolve muitos outros homens de boa vontade, como acontece em todas as suas viagens, e como aconteceu ainda muito recentemente com a delegação muçulmana que esteve presente no forum católico-muçulmano que se realizou no Vaticano.

Por isso, hoje agradecemos a Deus esta missão do Papa: a autoridade do seu ensino e a força da sua caridade.

Mas a festa de hoje também nos ajuda a entender o que são estes espaços sagrados em que a Igreja se reúne, e a que chamamos igrejas, algumas das quais, de acordo com sua importância ou com a sua função, recebem o nome de basílicas ou catedrais.

Durante muitos anos, no tempo em que havia muitas perseguições, os cristãos reuniam-se em casas de famílias, que eram autênticas "Igrejas domésticas". Foi um tempo importante, que configurou a verdadeira fisionomia da Igreja. Mas, já no séc. III, aproveitando os períodos de paz, começaram a ser construídos os primeiros edifícios destinados expressamente a servir como lugares de culto.

Depois, logo que a Igreja passou a ter mais liberdade, no séc. IV, foram construídas as grandes basnicas, por iniciativa do Imperador: em Roma, a Basnica de S. Pedro, na colina do Vaticano, sobre o túmulo do Apóstolo, e a Basílica do Latrão, num antigo palácio que o Papa tinha pedido ao Imperador para realizar um sínodo; em Jerusalém, a Basílica do Santo Sepulcro, etc.

E a Igreja nunca mais voltou a reunir-se, para o seu culto público, em espaços privados! A Igreja passou a reunir-se desde então em edifícios pequenos ou grandes - exclusivamente dedicados e consagrados à celebração da fé e do culto. E procura que sejam espaços belos, mesmo quando são simples, e se possível enriquecidos pela arte e pela nobreza dos materiais utilizados e do cuidado com que são trabalhados.

Neles nos reunimos, com grande sentido de fé e profunda reverência, não só para dialogar silenciosamente com Deus, na nossa oração individual, enriquecida pela presença eucarística de Cristo, no sacrário, mas também, e sobretudo, para escutar a Palavra de Deus e celebrar os sacramentos, particularmente a Santíssima Eucaristia, que nos dá em alimento o Pão da Vida.

Nós, que herdámos das gerações que nos precederam estes espaços - e de modo muito particular, no nosso caso, a Igreja dos Jerónimos, ­ não podemos permitir que se banalizem ou paganizem.

Temos que ser os guardiões destes espaços sagrados, pela qualidade da liturgia que celebramos, pelo modo como nela participamos, e também pela forma como acolhemos os que o procuram, atraídos pela beleza do espaço.

Entre nós, terá uma importância cada vez maior o serviço de acolhimento. Já se ofereceram algumas pessoas, mas confio que outras mais se possam oferecer, para que, na medida do possível, aqueles que visitam a Igreja dos Jerónimos a possam sentir também como um lugar sagrado, como a casa de Deus. Pai comum de todos os homens, fonte inesgotável da água viva anunciada por Ezequiel, que tem a força, em Cristo, de nos purificar e recriar.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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