16 de Novembro de 2008 - Domingo XXXIII do Tempo Comum

Viver em Deus

Começo por duas breves notas. A primeira só para comentar o que senti quando vi alguns jovens atirar ovos ao automóvel onde vinha a ministra da Educação ou às paredes de uma escola: que era um acto de vandalismo, e os que o realizaram agiam como bárbaros. Devemos pensar se não teremos falhado totalmente os objectivos da educação: O Estado, as famílias, a própria Igreja.

A segunda, para perguntar o que se pode fazer. Muita gente diz que o falta são valores, mas os valores estão fora da pessoa, e a sua valoração é muito subjectiva.

Teria muito mais efeito desafiar à vivência das virtudes, que são disposições positivas, mais ainda excelentes, de cada pessoa. Há uns anos um escritor francês, chamado André Comte-Sponville, que se declara não crente, escreveu um Pequeno tratado das grandes virtudes. Trata das seguintes: a polidez, a fidelidade, a prudência, a temperança, a coragem, a justiça, a generosidade, a compaixão, a misericórdia, a gratidão, a humildade, a simplicidade, a tolerância, a pureza, a doçura.

As virtudes podem ser vividas por todos, ateus e crentes. Todos os educadores deveriam sentir-se desafiados a ensiná-las, antes de mais pelo exemplo. Sem elas o nosso mundo torna-se bárbaro, aliás,já o é, apesar das aparências. O que significa que está na altura de o transformar.


Ludovico Carracci, Um anjo liberta as almas do Purgatório (e. 1610)

E passemos à Palavra de Deus. Uma das últimas frases que S. Paulo escreveu aos Tessalonicenses, antes da primeira que lemos hoje, foi esta: "E assim estaremos sempre como Senhor" (1 Tessalonicenses 4,17).

Quando o tempo acabar, quando a história terminar, e Jesus vier na sua glória, o seu desejo é «agarrar» em nós, "arrebatar-nos", como diz S Paulo (4,17), para que estejamos com Ele para sempre, participando na sua vida que não tem fim.

As pessoas que estão unidas por um grande amor, uma grande amizade, gostariam de esta sempre juntas e nunca se separarem. Quando alguém parte para o estrangeiro, onde irá ficar muito tempo, ou para uma longa viagem, as despedidas são sempre difíceis e fonte de tristeza. Ficamos com saudades dos que partem.

Mas na vida humana há sempre despedidas, separações. Muitas vezes dizemos adeus, e por vezes é (ou parece que é) para sempre. Quando a vida neste mundo acaba, parece que acaba tudo. Resta só a lembrança daquela pessoa que partiu, ou algumas boas obras que tenha feito.

A Palavra de Deus, porém, afirma que nâo é assim, nâo por mérito nosso, ou porque tenhamos uma alma naturalmente imortal, mas simplesmente porque Deus não o quer.

Deus não quer que sejamos como os outros seres - todos os seres vivos, todos os animais selvagens ou domésticos - dos quais, quando morrem, nada resta; mas, já que nos fez diferentes, já que nos criou à sua imagem, já que Jesus Cristo deu a vida por nós, quer que estejamos com Ele para sempre, para além do fim desta vida.

Deus tem certamente maneiras de nos manter junto de si, mesmo depois de o nosso corpo desaparecer, mesmo depois de o nosso coraçâo deixar de bater, e o nosso cérebro, sem o qual a alma, neste mundo, nâo se consegue exprimir, deixar de funcionar.

Para a alma que, na hora da morte, está habitada pela presença de Deus, a vida sem corpo ou se cérebro nâo é impossível, porque está em Deus. A realidade de que ela se «apropria» e que se «apropria» dela, é Deus. As almas dos que partiram e em que Deus já habitava pela graça, vivem em Deus, pertencem a Cristo ressuscitado, vivem por Ele, enquanto esperam a gloriosa ressurreição.

Isto significa que a fé cristã só concebe, relativamente às almas dos que morreram, uma existência sobrenatural. Daí a nossa rejeição de todo o «espiritismo», de toda a sobrevivência «natural».

E os que estâo em Deus. depois de plenamente purificados, conhecem o que se passa no tempo, neste mundo?

Sim, mas também só de um modo «sobrenatural», através de uma "directa iluminação divina". Mas então, sim, conhecem o que lhes diz mais directamente respeito, tudo o que amaram, tudo aquilo a que se dedicaram. A sua oração no Céu «eterniza» o que foi a sua oração, o seu trabalho, a sua missão na Terra. E por isso podemos confiadamente esperar que aqueles que partiram "no Senhor", também nos acompanham "no Senhor".

O que precisamos também de ter em conta, como S. Paulo ensina na 2ª leitura de hoje, é que a hora do fim de cada vida, o momento da transição, a hora da passagem definitiva, não são programados por nós.

Isto sugere-nos duas reflexões. Primeira: quem programasse a hora da sua morte, nomeadamente através do suicídio ou da eutanásia, estaria a manipular uma realidade que não lhe pertence totalmente. Cada um de nós tem a noção de que a vida, apesar de ser sua, não lhe pertence. Ninguém pode manipular a vida, a ponto de a extinguir voluntariamente, nem ajudar ninguém a fazê-lo. A ética essencial da humanidade exige grande respeito e contenção diante da vida, mesmo quando frágil ou gravemente debilitada.

Segunda: é preciso viver esta vida com o coração e a mente abertos à vida definitiva em Deus, que virá sempre de um modo inesperado e surpreendente.

Quem viver sem conversão, sem arrependimento, corre o risco de ser encontrado totalmente fechado em si, e ser afastado para sempre da vida feliz em Deus.

Mas, como diz S. Paulo, se não andarmos "nas trevas", porque "não somos da noite nem das trevas", se permanecermos vigilantes e sóbrios, a vinda do Senhor não nos surpreenderá como se fosse um assaltante de estrada ou um ladrão nocturno, mas será para nós como a vinda de um Amigo, nunca esquecido, longamente desejado e esperado, que encherá a nossa alma da alegria sem fim e do amor transbordante que sempre desejámos poder viver em Deus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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