23 de Novembro de 2008 - Domingo XXXIV do Tempo Comum
Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
Primeiro o Reino de Cristo
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Celebramos hoje a festa de Cristo Rei, que foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925. Poucos anos antes tinha acabado a Grande Guerra (1914-1918), que foi uma catástrofe humanitária, e Pio XI estava muito preocupado por já estar a ver, naquele momento, em várias ideologias e nos regimes de vários países, os germes de uma nova guerra. E infelizmente não se enganou: poucos meses depois da sua morte (10 de Fevereiro de 1939), desencadeouse a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que provocou mais de 50 milhões de vítimas. Mas o Papa tudo fez para evitar esse perigo e tomou inúmeras iniciativas nesse sentido, a começar pela frase que escolheu como divisa do seu Pontificado, iniciado em 6 de Fevereiro de 1922: "À procura da paz de Cristo pelo Reino de Cristo". Quando instituiu a Festa de Cristo Rei, três anos depois, Pio XI apresentou Jesus como Rei da verdadeira paz. É Jesus, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que traz a paz aos homens. |
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O desejo do Papa era que Jesus Cristo, Rei de Paz, pudesse ser visto como um modelo para todos, em especial para os que têm responsabilidades na sociedade.
Pio XI fixou o último domingo de Outubro para a celebração desta festa, antes do Dia de Todos os Santos, e transmitiu a mensagem de que Jesus é Rei, não só como Deus, mas também como Homem, e por isso todos, políticos e cidadãos O podem imitar.
Mais recentemente, em 1970, a reforma litúrgica promulgada pelo Papa Paulo VI alterou o nome da festa, que se passou a chamar "Solenidade de Cristo, Rei e Senhor do Universo", e que passou a ser celebrada no último domingo do Ano Litúrgico.
Paulo VI quis destacar que o reinado de Cristo se estende a todo o Universo, o que é uma ideia muito bela, mas receio que, com esta extensão ao cosmos, possa ter diminuído o impacto da festa de Cristo Rei no mundo concreto, aqui na Terra. Mas é importante que o dia de Cristo Rei nos ajude a trabalhar por um mundo menos violento e mais justo.
O Evangelho mostra-nos Jesus Cristo como Rei e Juiz, no fim dos tempos, mas nós acreditamos também que a realeza de Cristo se exerce já hoje sobre o mundo de forma directa e imediata, como ensina o Papa Pio XI. Jesus, porém, na sua vida terrena, nunca actuou na política, e até recusou ser aclamado rei (cf. João 6 15). Como é, então, que exerce a sua realeza?
Na verdade, Jesus podia ter actuado como um verdadeiro Rei, mas, como ensina Pio XI, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, não se quis servir deste seu poder. Quis actuar sempre pela humildade e pelo amor. No entanto, não deixou, diante de Pilatos, pelos seus silêncios e pelas suas palavras, de denunciar os abusos do poder (cf. João 19, 9-11).
Jesus é Rei dos corações humanos. Quem vive e ama como Jesus, que nos amou até à morte, entra na dinâmica do seu Reino, e torna-se construtor da paz entre os homens.
O Reino de Cristo, portanto, não é político, é espiritual. Mas, precisamente enquanto Reino espiritual, denuncia a tendência de fazer do poder terreno um poder absoluto, quase um deus, como tantas vezes aconteceu na história.
O Papa Pio XI denunciou algumas tendências do seu tempo, que depois conduziram à guerra, em particular os seguintes: o novo regime italiano, que aparecia como um nacionalismo exacerbado; o nazismo alemão, que falseava e pervertia a ordem querida por Deus; e o regime soviético, que o Papa acusa de espalhar a rejeição de Deus no mundo inteiro.
Em Março de 1937, com cinco dias de intervalo, Pio XI publicou duas encíclicas que denunciavam os erros destes regimes e as suas doutrinas, mas não conseguiu impedir o desencadear da guerra, que estalou em Setembro de 1939.
Uma outra doutrina que o Papa criticou apareceu em França, e caracterizava-se por dizer: «A política primeiro». Mas Pio XI respondeu citando Jesus no Evangelho: "Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo" (Mateus 6, 33).
O Reino de Deus não é só primeiro, porvir antes, mas deve ser primeiro, porque está antes, num outro plano, e fundamenta todas as outras realidades.
Esta prioridade pode traduzir-se ou reflectir-se em diversos outros níveis. Quando se pretende, como acontece no mundo actual, pôr «a economia primeiro», convém responder: «não, a pessoa primeiro». Quando se diz: «o prazer primeiro», devese replicar: «o amor primeiro, e a responsabilidade». Quando se pretende colocar «a técnica primeiro», é necessário situar «a ética primeiro».
E quando se julga que o homem pode estar primeiro e se basta a si mesmo, respondemos que primeiro está Deus, primeiro o Reino de Cristo, o único capaz de revelar o homem ao próprio homem, o único que nos pode salvar: dos nossos pecados, dos nossos fracassos, e da própria morte, como ensina S. Paulo na 2ª leitura.
Há poucos dias, no final da Audiência Geral, antes de despedir-se dos milhares de peregrinos, o Santo Padre Bento XVI dirigiu uma saudação particular aos jovens, aos doentes e aos recémcasados.
E aos primeiros disse: "Queridos jovens, colocai Jesus no centro de vossa vida e recebereis d'Ele luz e coragem".
Também nós queremos colocar Jesus no centro da nossa vida, não ter outros senhores, rejeitar os falsos ídolos que o mundo nos propõe, tomar sempre Jesus como Rei e Senhor, receber d'Ele luz verdade para a vida, e força para os combates que tivermos de travar.
Mas o Reino de Cristo destlna-se a todos, e é importante que todos, livremente, o possam aceitar. Para nós é muito claro que, se conseguirmos ajudar muitas pessoas a pôr Jesus Cristo no centro da sua vida, será muito mais fácil construir um mundo de justiça e de paz que, apesar de tudo, os seres humanos não deixaram de esperar.
Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
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