30 de Novembro de 2008 - Domingo I do Advento

Advento em tempo de crise

Vive-se no mundo actual um ambiente de crise, mas há alternativas à crise. Não podemos ser arrastados pela crise, mas devemos criar alternativas.

Uma dessas alternativas, passa pela família. As famílias podem unir-se muito mais, criar mais tempo para estarem juntas, encontrar tempos de convívio e de festa, e espalhar à sua volta um ambiente de optimismo e de esperança.

As famílias têm uma enorme capacidade de enfrentar os problemas e de os resolver, mesmo quando são graves, como podem ser, por exemplo, situações de desemprego. Alguns políticos não fazem ideia de que é assim, mas o que importa é que as famílias o sabem.

Convido as famílias a preparar muito bem o próximo Natal, com simplicidade, mas com beleza. O Presépio não pode faltar em nenhuma casa. E na noite ou no dia de Natal, é preciso que a Missa de Natal não esteja em perigo!

Se for necessário, há que deixar em casa outros familiares que não queiram vir, e sair para a Missa. Há uma óptima alternativa ao Natal sem Jesus: é o Natal com Jesus, que irradia à sua volta uma luz diferente, única, que ninguém mais nos pode dar.


Pe. William Hart McNichols, Nossa Senhora do Novo Advento (séc. XX)

Em tempo de crise, uma outra alternativa é reconhecer que nem tudo está sujeito à crise. Mas esta perspectiva, na sua dimensão mais radical, só nos é dada pela fé.

Agradecemos muito a Deus o dom da fé, que nos permite escutar como dirigidas a nós estas palavras de S. Paulo: "Dou graças a Deus, em todo o tempo, a vosso respeito, pela graça divina que vos foi dada em Cristo Jesus. Porque fostes enriquecidos em tudo: em toda a palavra e em todo o conhecimento".

Mesmo que haja crises financeiras, temos esta riqueza enorme: foi-nos anunciado Jesus Cristo, e também nos foi dada a capacidade de falar d'Ele, com toda a sabedoria e verdade. Quem não tem este conhecimento, e mesmo que se considere invencível nos momentos bons, é inevitável que, nos momentos de crise, se sinta inseguro, e até angustiado. Afinal, tudo aquilo em que confiava, é muito mais frágil do que parecia, tem quebras tremendas, não dá segurança.

A nossa vida seria uma frustração, se não fosse o "dom da graça", que nunca falta, e não diminui, aumenta sempre mais, se a quisermos receber.

Hoje começa o Advento, e o Papa Bento XVI deixou-nos duas sugestões muito simples e muito fortes. Foi no final da Audiência Geral de 4ª feira passada, quando dirigiu aos jovens presentes estas palavras: "Exorto-vos, queridos jovens, a viver este intenso período com oração vigilante e ardente acção apostólica".

A oração vigilante leva-nos a pedir a vinda de Deus ao mundo. Para esta oração podemos encontrar um modelo muito belo na lª leitura.

O profeta Isaías faz a Deus um pedido muito ousado. Parece um menino, que pede ao pai e à mãe aquilo que deseja mais, mas não pede um brinquedo, não pede um telemóvel, pede apenas isto, que é tão simples, mas que é o máximo que um ser humano pode pedir: "Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis!"

O que o profeta deseja, como nós desejamos, é que Deus venha, e fique connosco, desça ao nosso mundo, entre na nossa vida!

Peçamos também nós a vinda de Deus, de que a humanidade precisa tanto, não só para vencer a arrogância, o egoísmo feroz, a violência em todas as suas formas, mas também para dar à vida humana um sentido novo.

Mas a oração não basta, é preciso realizar uma "ardente acção apostólica". A acção apostólica tem como fim dar a conhecer Jesus, e por Ele o amor do Pai.

Bento XVI escreveu recentemente que, nas sociedades onde há várias religiões, e também nas sociedades secularizadas, "é necessário encontrar caminhos inéditos para fazer conhecer, de modo especial aos jovens, a figura de Jesus, a fim de que compreendam a sua fascinação perene".

Está aqui um grande desafio para todos nós! Temos de descobrir estes caminhos inéditos, estes caminhos novos para ajudar muitos outros a conhecer Jesus Cristo, e a deixar-se fascinar por Ele. E com o anúncio de Jesus vem o apelo à conversão, ao acolhimento da fé e à inserção na Igreja.

É preciso não ter medo, é preciso ousar. É preciso falar de Jesus com simplicidade, e confiar que muitos se sentirão tocados, e dispostos a mudar de vida e a iniciar uma caminhada de fé, na comunhão da Igreja.

Comecemos com esta esperança este novo Advento, que será tanto mais verdadeiro, quanto mais nós próprios nos deixarmos fascinar pelo mistério de Cristo, que já veio e quer continuar a vir, com toda a riqueza da sua graça, ao nosso mundo e aos corações dos homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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