14 de Dezembro de 2008 - Domingo III do Advento

Uma Luz nova desponta

Vamos começar por recolher as principais exortações de S. Paulo, que encontramos no final da lª Epístola aos Tessalonicenses, e que a Igreja nos propõe neste 3° Domingo do Advento:

Primeira: "Vivei sempre alegres", Também no último capítulo da Carta aos Filipenses, S. Paulo diz: "Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos" (4, 4).

Estas palavras aparecem na antífona de entrada da Missa de hoje, e por isso se costuma dar ao 3° Domingo do Advento, que estamos a celebrar, o nome de Domingo Gaudete, que significa, em latim: "Alegrai-vos".


N. Poussin, S. João Baptista baptiza nas margens do Jordão (c. 1635)

A alegria é um dos frutos do Espírito Santo, que S. Paulo enumera na Carta aos Gálatas (5,22). Mas a alegria verdadeira só existe onde existe o bem verdadeiro.

Como disse numa paróquia de Roma, há alguns anos, o Papa João Paulo II, "o homem só pode encontrar alegria no bem. O mal entristece-o e abate-o. O bem alegra-o e encoraja-o. Para participar desta alegria, é preciso ver o bem, cuja fonte está em Deus: o bem da Criação; o bem da Redenção; o bem da Encarnação: que grande coisa fez Deus por nós, fazendo-Se homem!".

E Bento XVI, no seu primeiro encontro com os jovens da Austrália, disse também que é "na verdade, no bem e na beleza, (que) encontramos felicidade e alegria".

Depois, S. Paulo continua: "Orai sem cessar", O próprio Jesus contou um dia uma parábola "sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer" (Lucas 18, 1). Mas às vezes julgarmos que não temos tempo ou disposição para a oração. Nessa altura, faz-nos bem lembrar o que escreveu S. Tomás de Aquino: "A oração é o acto próprio da criatura racional". Os seres irracionais não rezam!

E só poderá ter dificuldade em fazer oração, quem não perceber, como disse o Santo Cura de Ars, que "a oração é elevação do nosso coração a Deus, uma doce conversação entre a criatura e o seu Criador". A oração é um diálogo com Deusque não tem nada de cerimonioso: é cheio de respeito, mastambém cheio de afecto e de amor, Por Isso, a oração devolve-nos a alegria, mesmo que estejamos tristes, e devolve-nos a paz, mesmo que tenhamos grandes dores e preocupações.

S. Paulo acrescenta ainda: "Dai graças em todas as circunstâncias", A acção de graças é uma das formas essenciais de oração. Apesar das dificuldades, temos sempre tantas coisas para agradecer a Deus! É importante não sermos ingratos nem omissos quando se trata de agradecer.

Mas não nos esquecemos de que o primeiro e grande motivo que temos para agradecer a Deus, é termos connosco o seu Filho feito homem, Jesus Cristo.

Com a sua vinda ao mundo, acontece a definitiva manifestação do amor e da misericórdia anunciada por Isaías na lª leitura: as nossas feridas são saradas, os nossos pecados perdoados, uma nova esperança nos é dada, e uma graça imerecida envolve a nossa vida, oferecendo-nos a salvação e a paz.

Houve uma pessoa, uma Mulher, que avaliou melhor que ninguém tudo o que representava para os homens a vinda do Filho de Deus ao mundo: foi a sua própria Mãe, a Virgem Santa Maria.

Hoje, depois da 1ª leitura, cantámos o seu Magnificat, o seu hino de louvor, de gratidão, de reconhecimento transbordante pelas maravilhas de Deus: "A minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador..."

A alegria de Maria é a alegria e a gratidão de toda a humanidade, quando uma Luz nova desponta, quando o Céu desce à terra, quando a esperança se torna realidade, quando Deussefaz homem.

Esta luz, ainda velada naquele momento, era o próprio Jesus, que em breve iria começar a revelar­Se aos homens. Mas naquele momento ainda ninguém O conhecia, à excepção do próprio João, que já tinha compreendido interiormente que Jesus era o Messias.

Mas os outros ainda não, e por isso João pode dizer: "«No meio de vós está Alguém que não conheceis»". Este desconhecimento, naquela altura, era compreensível, era inevitável: Jesus nem sequer tinha ainda começado a sua vida pública.

Mas hoje, tantos séculos depois, como é possível que Jesus seja ainda tão pouco conhecido? O tempo do Advento constitui um convite que nos é feito, a nós, cristãos, para conhecermos cada vez melhor Jesus Cristo: antes de mais pela oração, pela leitura da sua Palavra, pelo sacramento do Perdão, pelo encontro da Eucaristia.

Mas é também um desafio para falarmos de Jesus aos outros, sem medo, com inteligência, com sabedoria, com ousadia. O Evangelho insiste em que João "confessou a verdade e não negou...".

É este o primeiro serviço que podemos prestar a muitos dos nossos amigos. Muitos foram baptizados, mas abandonaram há muito tempo a prática cristã. Há que arranjar maneiras, que primeiro têm de ser pensadas e pedidas, que têm de ser suplicadas na oração, de os desafiar a descobrir de novo Jesus nas suas vidas. Precisamos de dispor de tempo para conversar, para ouvir, para responder, para esclarecer.

De certo modo, deve aplicar-se hoje a cada cristão o que João Baptista dizia de si mesmo: " «Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor»".

Proponho que durante a Missa deste Domingo ou durante o dia de hoje cada um faça uma lista de nomes: nomes de colegas, amigos, conhecidos ou familiares por quem a partir de hoje se comprometa a rezar especialmente, para que se encontrem Jesus, e com Ele encontrem a luz.

Mas não esqueçamos também os mais pobres. os doentes, os idosos: seria injusto marginalizá-los no Natal. Por isso, pensemos também que pessoas doentes ou sozinhas poderemos ainda visitar ou acompanhar mais de perto.

Se formos generosos, experimentaremos também nós a alegria de Maria, que é a alegria da fé, a alegria da obediência à vontade de Deus, a alegria da docilidade ao Espírito Santo, para que possamos também recolher os seus frutos e partilhá-los com alegria.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

Arquivo