28 de Dezembro de 2008 - Domingo da Sagrada Família
de Jesus, Maria e José

As crianças são uma bênção

Hoje S. Lucas mostra-nos Jesus, com a Virgem Maria, sua Mãe, e S. José, que O levam ao Templo de Jerusalém, "para O apresentarem ao Senhor".

Foi talvez mais um gesto de devoção, do que o simples cumprimento de uma lei, que de resto não existia. Na Lei de Moisés não havia nenhuma norma que mandasse os pais «apresentarem» os filhos no Templo.

A Lei dizia que o primeiro filho de cada casal devia ser consagrado a Deus (Êxodo 3, 2. 12). Mas depois podia ser «resgatado», mediante uma oferta de cinco ciclos de prata, destinado à sustentação dos sacerdotes, após o que a criança era «devolvida» aos seus pais (Números 3,37-48).

Ainda hoje os judeus crentes observam esta prática. Nos Estados Unidos, por exemplo, o pai oferece 5 dólares de prata, e o dinheiro obtido destina-se geralmente a instituições de caridade. E então «recupera» o seu filho.

S. Lucas, porém, no seu Evangelho, não faz nenhuma referência a esta prática. O que S. Lucas diz é que Maria e José «apresentaram», isto é, ofereceram o Menino no Templo.


Philippe de Champaigne, A Apresentação de Jesus no Templo (1648)

Maria e José oferecem o Menino a Deus, antecipando de certo modo o momento em que Ele proprio irá oferecer a sua vida na Cruz por todos os homens.

Bento XVI comentou assim este gesto: "Levando o Filho a Jerusalém, a Virgem Mãe oferece-o a Deus como verdadeiro Cordeiro que tira os pecados do mundo: apresenta-o a Simeão e a Ana como anúncio de redenção; apresenta-o a todos como luz para um caminho seguro pela via da verdade e do amor".

Naquele dia, Maria fez ainda o que, segundo a Lei, faziam todas as mulheres que acabavam de ser mães: ofereceu "um par de rolas ou duas pombinhas", um gesto que na altura se chamava "purificação", mas que deve ser entendido como um sinal de adoração e de gratidão pelo dom da maternidade, que põe sempre em jogo algo de muito profundo e de muito sagrado.

Em cada nova vida gerada no seio materno está presente um grande mistério, e não um simples facto biológico. Apesar da sua enorme fragilidade, cada nova vida não é um «produto», mas um ser humano, e por isso é envolvida, desde a concepção, "pelo calor do seio materno e pelo amor criador de Deus", como escreveu João Paulo II.

E, quando vem a este mundo, a criança recém-nascida é recebida nos braços da mãe e depois do pai, mas, antes de mais, é acolhida e envolvida pelo amor e pela bênção de Deus. É necessário voltar hoje à consciência deste mistério que é cada nova vida humana, por mais débil que seja, ou por mais incómoda que pareça.

Ver Jesus Menino no presépio ou no Templo, confirma o que todos sentimos, mas que, às vezes, a pressão social nos quer obrigar a esquecer: que cada criança que é gerada, cada criança que nasce, é um dom de Deus, é uma bênção preciosa. As crianças são uma bênção! Um Salmo da Sagrada Escritura diz que "os filhos são uma bênção do Senhor" (Salmo 126 [127], 3).

Hoje domina o nosso mundo uma doutrina «contraceptiva», à qual é preciso opor uma atitude confiante e generosa por parte dos pais.

Muitas pessoas começam a estar seriamente preocupadas pela baixa da natalidade. Em 2007, pela primeira vez em Portugal, o número de mortes (103.727) foi mais elevado do que o de nascimentos (102.213). Em 2007, nasceram menos 3236 bebés do que em 2006. Se a situação não mudar, dentro de 25 anos, Portugal, que já é o sétimo país mais envelhecido do mundo, terá 242 idosos por cada cem jovens.

Poderia pensar-se que as dificuldades económicas é que estão na origem deste abaixamento da natalidade, e muitas vezes assim é. Também razões de saúde e outros motivos sérios influenciam muitas vezes os casais, impedindo-os deterem mais filhos, quando teriam até sinceramente desejado tê-los.

No entanto, também há muitos motivos egoístas, que fazem secar as fontes da vida. E estes motivos exigem uma profunda conversão das mentalidades.

Outro factor determinante é a forte pressão para mudar o conceito de casamento e de família. Tradicionalmente, pensava-se no casamento entre um homem e uma mulher como a instituição social mais favorável às crianças.

O casamento transmite à criança a mensagem: de que o pai e a mãe estarão ao seu lado para a amar e a educar.

E transmite à sociedade inteira a mensagem de que, por cada criança que nasce, há uma mãe e um pai identificáveis, que respondem pela criança e pelo outro cônjuge. (Assim escreve David Blankenhorn em Los Angeles Times -19 Setembro de 2008).

Mas agora pensa-se multo pouco no interesse do menor. Há pessoas que não entendem que quando "uma criança é criada por um par de pessoas do mesmo sexo, está-se-Ihe a negar o direito deter um pai e uma mãe".

Pior ainda: "quando este direito não existe ou não se pode exercer, isso não é visto como algo trágico (em resultado, por exemplo uma ruptura matrimonial). Pelo contrário, agora parece que teremos que explicar à criança que o facto de não ter um pai e uma mãe... é uma coisa maravilhosa!".

O autor que estou a citar está convencido de que «0 casamento é a instituição social mais favorável às crianças». Também penso que isto é uma evidência, embora haja cada vez mais o risco de ela ser negada nas próprias leis.

Quando escreveu este artigo, o autor que estou a citar tinha esperança de que no referendo que teria lugar na Califórnia ao mesmo tempo que as eleições presidenciais, fosse aprovada a «Proposta 8», que estabelece: "Só o casamento entre um homem e uma mulher é válido ou é reconhecido na Califórnia".

E assim veio a acontecer, e não só na Califórnia, também noutros Estados. Em referendos locais, vários Estados norte-americanos adoptaram propostas que proíbem o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É uma questão decisiva para a humanidade. Também o Papa Bento XVI defendeu há dias uma "ecologia do homem". Foi criticado, mas o Papa tem consciência de que é uma batalha cultural que é necessário vencer.

Sem prejuízo de outros argumentos, pensemos nas nossas crianças, que "são uma bênção do Senhor", e no próprio Jesus, acolhido no mundo pela fé e pelo amor da Virgem Maria, sua Mãe, e pelo afecto caloroso e forte de José, que foi para o Deus Menino um verdadeiro pai.

Que a Igreja e cada um de nós saiba dar este testemunho, do qual pode depender a própria sobrevivência da humanidade, de acordo com o plano de Deus.

Com a sincera amizade em Cristo, e votos
de Novo Ano muito abençoado,
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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