4 de Janeiro de 2009 - Epifania do Senhor

Caminhantes felizes

A festa de hoje, a Epifania do Senhor, fala-nos da manifestação de Jesus aos Magos do Oriente, que reconheceram naquele Menino recém-nascido o Rei que procuravam.

Na sua busca, foram ajudados por uma estrela que viram no Oriente, que talvez só eles tenham visto, mas que orientou os seus passos até ao presépio ou à casa de Belém.

Mas a estrela de Belém não teria tido para eles nenhuma utilidade, se não fosse a luz interior que os iluminava, e os inspirava a não desistirem, até encontrarem Jesus.


Sassetta (Stefano di Giovanni), A Viagem dos Magos (c. 1435)

S. Mateus apresenta-nos os Magos, quem quer que fossem, de onde quer que viessem, como os primeiros de entre os gentios a serem atraídos pelo Filho de Deus feito homem.

Só se encontraram com Jesus por um instante, mas, nesse breve momento, não hesitaram: "viram o Menino, com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No".

Depois, "abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra". O ouro simboliza a realeza de Jesus; o incenso simboliza o seu sacerdócio divino; e a mirra é um símbolo da morte redentora de Jesus.

Pouco depois, "regressaram à sua terra por outro caminho", e a sua viagem terminou com este derradeiro gesto de obediência e de cooperação com o plano de Deus.

Nada mais sabemos deles nos Evangelhos, mas pOderíamos dar-lhes o título de caminhantes felizes, porque realizaram o grande objectivo da sua vida, e quando voltaram, levavam Jesus no coração.

Estamos a começar um Novo Ano, e é sobretudo nestes dias que sentimos que a vida humana é uma caminhada incessante, que está sempre a recomeçar, mas o mais importante é saber para onde vamos, e qual é a meta que procuramos atingir.

Cada um terá as suas metas pessoais, mas a nossa fé diz-nos que a meta comum a todos os homens é o encontro com Deus, e não só na vida eterna, mas também já hoje, na vida corrente e normal de todos os dias. Somente se chegarmos ao encontro com Deus, é que a nossa vida se realiza. Senão, ficará sempre incompleta e até talvez irremediavelmente frustrada.

Mas como chegar a essa meta? Não corremos o risco de nos perdermos no caminho? Não haverá dificuldades e perigos graves que nos possam desviar, como quase ia acontecendo com os Magos, que o rei Herodes, obcecado pelo poder, gostaria de ter impedido de chegar atéjunto do Menino?

Sim, há perigos, mas também há sinais que nos orientam. À nossa volta não faltam os sinais, a começar pelo grande sinal que é o mundo em que vivemos, o grande Universo a que pertencemos.

Os Magos deviam ser estudiosos dos astros, embora na sua época ainda não existisse ciência, que só surgiu no ambiente da cultura cristã. Mas hoje, que existe um estudo científico do universo, deveríamos ser capazes de captar a sua mensagem silenciosa.

E na verdade, se o olharmos com atenção, reconheceremos nele a «caligrafia do Criador», como disse o Papa Bento XVI, num discurso que fez em 2005, isto é, reconheceremos "a razão criadora e o amor de que o mundo nasceu, e de que o universo nos fala, se estivermos atentos".

Também podemos olhar para a natureza como um livro, e esta nova imagem foi igualmente usada por Bento XVI, num discurso mais recente, em 31 de Outubro de 2008. Bento XVI lembrou que muitos cientistas a têm usada com apreço, e, entre estes, citou Galileu, que "considerava a natureza como um livro cujo autor é Deus, do mesmo modo que a Escritura tem Deus como seu autor".

Há muitas formas de ler este livro, acentuou o Santo Padre, "de acordo com as diferentes abordagens das ciências", mas em todas elas "pressupomos sempre a presença constituinte do Autor que nele quis revelar­se".

Esta imagem, continuou Bento XVI, "ajuda-nos também a compreender que o mundo, longe de encontrar a sua origem no caos, é semelhante a um livro ordenado; é um cosmos".

Mas não é só no universo que Deus nos fala: fala­nos também, e principalmente, na história. O Filho de Deus fez-Se homem, veio ao mundo, entrou no tempo. Está ali, na pobreza do presépio de Belém, tal como um dia estará pregado na Cruz.

O seu Nascimento, e depois a sua Morte e a sua Ressurreição, revelam-nos o segredo da nossa própria vida. A sua vinda ao mundo oferece-nos também a chave de leitura do mistério da criação e da marcha da história da humanidade ao longo dos tempos.

Com Ele, sabemos quem somos, e para onde vamos! Às vezes, no entanto, podemos sentimo­nos perdidos: olhamos à volta e parece que já não sabemos onde estamos.

Há tantos comportamentos estranhos, e sobretudo tantas formas de pensar, não apenas diferentes, mas estranhas e opostas ao Evangelho e à verdade que já conhecemos.

Mas também isto é um sinal, é um apelo silencioso a iluminarmos o mundo com a luz de Jesus, que conserva intacta o poder de fascinar.

Os Magos simbolizam o mundo pagão que, vindo de muito longe, se fascina com Jesus. Hoje também há muitas pessoas que, embora venham de muito longe, sentirão o desejo de se encontrarem com Jesus Cristo, e n'Ele passar a olhar todas as coisas de um modo novo, e começar a viver de um modo novo.

O mundo "pagão» é um desafio à nossa fé, à nossa esperança e à nossa criatividade apostólica.

É preciso trabalhar muito, sobretudo através de um constante apostolado pessoal, para conseguirmos ajudar muitas pessoas a encontra­se pessoalmente com Jesus e a descobrirem n'Ele o bem e a verdade que no seu íntimo sempre desejaram encontrar.

A festa da Epifania é uma festa de luz e de alegria. A manifestação de Jesus enche de alegria os corações de todos aqueles que se põem a caminho para O conhecer e adorar.

Também nós viemos ao seu encontro, e partiremos, como os Magos, cheios de confiança, de alegria e de esperança.

Peçamos, por intercessão de Santa Maria, que se respire em toda a Igreja "o espírito da Epifania", e se viva intensamente a alegria do encontro e o compromisso da missão, para dar a conhecer Jesus Cristo. Só Ele revela o homem ao próprio homem, só Ele salva o homem!

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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