15 de Fevereiro de 2009 - Domingo VI do Tempo Comum

Um amor sem limites

O Evangelho de hoje mostra-nos que Jesus nunca pôs limites à sua acção no meio dos homens.

Quando um dia um leproso Lhe suplicou: " «Se quiseres, podes curar-me» », Jesus correspondeu imediatamente ao seu pedido, "e disse: «Quero; fica limpo» ". E em seguida, como descreve S. Marcos, "Jesus, compadecido, estendeu a mão e tocou-lhe".

Não era necessário tocar no leproso, e até, segundo a Lei, isso não se devia fazer, não era permitido fazê-lo, e Jesus não precisaria de o fazer para o curar. Mas, correndo até o risco de contrair a doença e de ficar ele próprio leproso, Jesus quis fazê-lo, e tocou com a sua mão o leproso, exprimindo assim o seu amor e profunda compaixão.

É verdade que Jesus não ficou leproso devido a esse gesto, mas na prática, pelo menos durante algum tempo, foi como se tivesse ficado: como toda a gente veio a saber o que tinha acontecido, e como Jesus não queria entusiasmos fáceis, teve de se isolar, como acontecia com os leprosos.


Jesus cura um leproso, Catedral de Monreale, Palermo

S. Marcos conta que "Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte". Jesus não apenas tocou o leproso, mas sentiu-se como um deles, experimentou a sua condição.

Jesus fez tudo o que Lhe era pedido, tudo o que era necessário para a nossa salvação, nunca pôs limites à sua entrega, e um dia, quando chegou a hora de morrer, aceitou morrer na cruz, e ofereceu a sua vida ao Pai por todos os homens. E nós, que somos seus discípulos. não podemos deixar de nos perguntar se estamos dispostos a ser como Jesus. S. Paulo, na 2ª leitura, não hesita em dizer aos Coríntios: "Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo".

S. Paulo, no seu apostolado incansável, sabia que imitava Jesus, e desejava que os cristãos de Corinto procedessem da mesma maneira.

Procuramos também nós imitar Jesus nesta sua entrega sem limites, ou somos cristãos apenas até um certo ponto, e a partir daí não fazemos mais nada, e que ninguém nos peça mais nada?

Como cristãos, temos de aceitar ir para além do «razoável», ir muito para além dos mínimos. S. Paulo diz também aos Coríntios: "Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus nem aos gregos, nem à Igreja de Deus".

Poderíamos dizer que isto é o mínimo que se espera de um cristão. A nossa vida tem que ser digna e exemplar, para não provocar a descrença ou o afastamento de ninguém.

Mas depois S. Paulo acrescenta: "Fazei como eu, que em tudo procuro agradar a toda a gente, não buscando o meu próprio interesse, mas o de todos, para que possam salvar-se".

De que é que os seres humanos precisam de se salvar? Do pecado e da morte. sem dúvida, mas também de muitas outras doenças graves, culturais ou espirituais, que também podem levar à morte.

Quando esteve na Austrália, em 2008, Bento XVI, na grande Missa que celebrou com os jovens, em 20 de Julho, fez um diagnóstico de uma doença grave do mundo de hoje: "Em muitas das nossas sociedades, ao lado da prosperidade material, vai crescendo o deserto espiritual: um vazio interior, um medo indefinível, uma oculta sensação de desespero".

E nesse contexto, o Papa explicou claramente qual é o serviço que se espera dos cristãos, em favor do mundo em que vivemos.

Este serviço é vital para o mundo, para o curar, para o salvar, e tem de ser feito, como disse o Papa, por "uma nova geração de cristãos, revigorada pelo Espírito e inspirando-se numa autêntica visão de fé".

Que podem então fazer estes cristãos renovados pelo Espírito Santo a favor do mundo? Primeiro, diz o Papa Bento XVI, "contribuir para a edificação de um mundo onde a vida seja acolhida, respeitada e cuidada amorosamente, e não rejeitada nem temida como uma ameaça e, consequentemente. destruída".

Depois, ajudar a nascer "uma nova era em que o amor não seja ambicioso nem egoísta, mas puro, fiel e sinceramente livre, aberto aos outros, respeitador da sua dignidade, um amor que promova o bem de todos e irradie alegria e beleza".

Finalmente, construir "uma nova era na qual a esperança nos liberte da superficialidade, apatia e egoísmo que mortificam as nossas almas e envenenam as relações humanas".

E o Santo Padre conclui: "Prezados jovens amigos, o Senhor está a pedir-vos que sejais profetas desta nova era, mensageiros do seu amor, capazes de atrair as pessoas para o Pai e construir um futuro de esperança para toda a humanidade".

Mas nada disto se faz sem dedicação, sem empenho, sem trabalho, sem sacrifício.

É preciso dedicar tempo e energias aos diversos serviços e apostolados da comunidade cristã, e simultaneamente estar atento àquelas pessoas, junto de quem trabalhamos ou vivemos, para os atrair para o Pai, por meio de Jesus Cristo, na Igreja.

Há um apostolado comunitário e um apostolado pessoal: ambos podem e devem ser muito intensos.

E não desejamos nada para os outros, que nós, graças a Deus, não vivamos e experimentemos já.

Também nós já fomos tocados, como o leproso do Evangelho, pelas mãos de Jesus, e o que pedimos é que todos possam fazer também hoje esta experiência, e das suas mãos possam receber em cada momento a vida, a força e o perdão, a graça de Deus, a alegria e a paz.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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