1 de Março de 2009 - Domingo I da Quaresma

Uma aliança definitiva

O episódio da "arca de Noé" tem uma grande força simbólica e termina de modo muito belo. No céu aparece o arco-íris, que simboliza a aliança de Deus com todos os seres vivos, e em especial com os homens.

Esta aliança não exclui ninguém, abraça toda a humanidade, e é um anúncio da Nova Aliança que um dia Deus irá selar para sempre no Sangue de Cristo.


Joseph Anton Koch, O sacrifício de acção de graças de Noé, (1803)

A Bíblia tem uma mensagem muito bela sobre o mundo e sobre a vida. Ao contrário de outras concepções muito difundidas, como por exemplo o budismo, a Bíblia diz-nos que o mundo não é uma aparência, não é uma ilusão. Existe mesmo, tem consistência, e é abraçado por Deus, que o chamou do nada e o conserva no ser.

E os homens não são uns seres arrastados pela torrente de um destino cego, destinados a dissolver-se no imenso todo, que é como se fosse nada, mas são pessoalmente queridos e chamados por Deus.

No final do dilúvio, segundo o livro do Génesis, Deus lança de novo o homem à aventura da vida na Terra, onde inevitavelmente voltará a cometer erros, e até, infelizmente, muitos pecados, mas de onde poderá sempre voltar ao caminho certo, convertendo-se ao Amor, reencontrando a verdade, redescobrindo o sentido da vida que Deus constantemente lhe revela e lhe recorda.

Mas valeu a pena que Deus nos lançasse a esta aventura? Poderia ter exterminado a humanidade, mas decidiu conservá-la. Irá tudo acabar bem? Confiamos que sim, Deus deseja que sim, mas tudo depende das nossas próprias escolhas.

Não existe um destino cego que nos mova contra a nossa vontade, uma fatalidade que nos arraste para onde não queremos. Existe, sim, uma luta onde se defrontam o bem e o mal no nosso próprio coração, e que nós, com a ajuda de Deus, podemos vencer.

No Evangelho de hoje, S. Marcos conta que "Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás". Mas S Marcos optou por não descrever a luta, não relata as tentações, só mostra o resultado final. E deixa-nos uma Imagem muito forte e bela, ao dizer-nos que Jesus "vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n'O".

Jesus, vencedor de Satanás, vive numa paz perfeita com a natureza, mesmo na sua dimensão mais adversa e perigosa, simbolizada pelos animais selvagens, e com o mundo invisível e espiritual, representado pelos Anjos.

Os homens, às vezes, são uma ameaça para o mundo e para os outros, e foi isso quejá levou certas correntes a querer diminuir ou reduzir drasticamente a humanidade para salvar o mundo.

Mas esta visão é um erro. Seria uma enorme pobreza que houvesse poucos seres humanos. Há muitos, infelizmente, que não deixam sequer nascer, seres indefesos a quem não é dado o direito elementar de viver. Mas é um grande bem viver e ser homem ou mulher. É bom que haja muitos homens e mulheres à face da Terra, porquetêm a graça de viver, e poderão ter a graça de um dia ir para oCéu depois desta vida.

Mas nem por isso deixa de ser profundamente lamentável que muitos passem fome ou não tenham o mínimo indispensável, pelo facto de que os bens da Terra, que seriam suficientes para todos, não são repartidos com justiça e ficam retidos por um pequeno número.

Há dias um economista italiano, chamado Gotti Tedeschi, católico praticante, com cinco filhos, presidente de um grande banco, lançou uma ideia de grande alcance. Foi em 30 Janeiro, na primeira página do jornal da Santa Sé, «L'Osservatore Romano».

A ideia foi lançada aos países ricos que estão actualmente em grande de instabilidade financeira: investir uma soma gigantesca, não em casa própria, mas sim em benefício dos países pobres, com o fim de que estes se tornem protagonistas de um grande crescimento económico para benefício deles e de todos.

Daqui a algumas décadas será precisamente o crescimento dos países pobres que pagará a dívida do contrato com os países ricos, produzindo ulterior bem-estar e riqueza.

Não vamos comentar aqui em pormenor esta ideia, mas o que interessa sublinhar é que cada vez mais se reconhece que a economia não pode actuar só com o impulso do interesse egoísta, com os desastres que hoje estão à vista de todos, mas que deve viver também da ética. "Inspirada pela graça", diz Gotti Tedeschi.

Voltemos ao Evangelho. Jesus, enquanto homem, vive numa perfeita harmonia, não só com Deus, seu Pai, mas também com os outros homens e com o mundo.

Ele é o nosso modelo, e mostra-nos o caminho, para chegarmos um dia a essa perfeita harmonia connosco mesmos, com Deus e com os outros. É no final do Evangelho de hoje, quando "Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: "Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»".

E porque estamos na Quaresma, a caminho da Páscoa, que é a vitória definitiva sobre o mal e sobre a morte, precisamos de nos perguntar a nós mesmos diante de Deus: De que tenho de me arrepender? Que posso fazer melhor? Onde é que tenho de lutar especialmente?

Jesus é o homem perfeito, sem deixar de ser Deus verdadeiro. Com a sua ajuda, não podemos pôr limites à nossa conversão.

Há correntes que querem relativizar o ser humano, torná-lo insignificante. Mas desde já afirmamos que nunca o conseguirão, porque o Filho de Deus Se fez homem, e selou para sempre no seu Sangue uma aliança definitiva connosco.

E por isso nos lançamos à aventura da vida, não como quem mergulha num abismo sem fundo, mas simplesmente como quem recomeça em cada dia a caminhar.

Se nos perdemos, Deus mostra-nos de novo o caminho. Se erramos, e nos arrependemos, oferece-nos o perdão. O decisivo é não nos habituarmos ao mal, e não desistirmos de lutar, para chegarmos um dia nós próprios à harmonia e à paz da perfeita vitória de Jesus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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