8 de Março de 2009 - Domingo II da Quaresma

Contemplar a glória de Jesus

Os discípulos nunca tinham visto Jesus assim anteriormente: foi preciso subir ao monte para se aperceberem pela primeira vez da glória divina de Jesus.

Depois, desceram com Jesus e tudo voltou ao normal, mas foi uma experiência que os iluminou em toda a sua vida e os acompanhou sempre.

É preciso «subir ao monte» para conhecer a glória de Jesus. Isto não significa que Jesus não esteja presente «cá em baixo», isto é, na vida corrente, no trabalho, no estudo, na vida de família, ou não nos acompanhe numa doença, num problema, ou nas preocupações normais de cada dia.

Em todas estas realidades da vida corrente encontramos Jesus, e temos de O saber encontrar na vida normal, como ela é, com os seus êxitos, com as suas dificuldades, com os seus momentos bons e com os que parecem menos bons.


Duccio di Buoninsegna, A Transfiguração (1308-1311)

Na vida corrente, Deus está connosco, mas há também uma forte pressão que nos quer fazer perder a presença de Deus, há um poderoso materialismo que nos quer dominar.

E por isso é necessário, em certos momentos, «subir ao monte», é necessário não ficar só ao nível da terra, mas subir mais alto, para conseguirmos ver as coisas em toda a sua verdadeira dimensão, para conhecermos quem somos, e sobretudo para conhecermos Jesus, em toda a beleza e esplendor da sua glória.

E quando é que subimos ao «alto monte» em que Jesus Se dá a conhecer mais intimamente e nos revela na sua glória? Julgo que o fazemos sobretudo na celebração da Eucaristia ou nos tempos de adoração eucarística, e também na leitura «saboreada» e meditada da Palavra de Deus.

É então que adquirimos um conhecimento mais profundo e mais íntimo do mistério de Cristo. Como escreve S. Jerónimo. "aquele que escuta a Palavra de Deus, sobe à montanha, e Jesus transfigura-Se diante dele, as suas vestes tornam-se de uma brancura luminosa".

Os que ficaram ao nível do chão, não viram nada. mas os três discípulos que subiram ao monte, viram a glória de Jesus, que os encheu de alegria.

S. Pedro exprime com simplicidade e emoção este sentimento, que ele gostaria de poder prolongar para sempre: " «Mestre. como é bom estarmos aqui!»" E esta emoção e alegria de contemplar a glória de Jesus com os olhos da fé também nos é dada a nós, sempre que participamos na celebração da Eucaristia, a Santa Missa.

A Missa é antes de mais uma acção sagrada. O Papa Bento XVI, quando ampliou, em Julho de 2007, as circunstâncias em que é possível celebrar a Santa Missa segundo o Missal Romano promulgado por São Pio V e publicado novamente pelo Beato João XXIII, observou que também na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, (que é forma normal ou ordinária da Liturgia Eucarística), se deverá manifestar a sua sacralidade, que muitas vezes, infelizmente, tem sido oculta, deformada ou até negada.

A Missa é uma celebração divina e santa. Bento XVI muito tem contribuído para a recuperação desta consciência da sacralidade e da santidade da Eucaristia.

A Missa é também e essencialmente um acto contemplativo, breve mas denso, como aquele que os três Apóstolos viveram.

Quando vimos à Missa, não fugimos do mundo, mas elevamo-nos acima do mundo, estamos num outro plano, em que não há poluição, nem ruído, nem violência, mas só beleza e paz.

Todos os seus momentos, em particular o canto, devem contribuir para manifestar a dimensão contemplativa e laudativa da Eucaristia. Mas em toda a celebração, especialmente na grande Oração Eucarística e na comunhão sacramental. podemos repetir com toda a verdade as mesmas palavras de S. Pedro: «Mestre, como é bom estarmos aqui!».

E depois, como é natural, partimos, e voltamos com empenho e sentido de responsabilidade à vida normal, mas com esse olhar diferente que nos deu a contemplação da glória de Jesus.

E este o primeiro convite da liturgia de hoje: contemplar Jesus. E o segundo é-lhe semelhante: escutar Jesus. O próprio Evangelho nos faz ouvir a voz de Deus, que nos diz: " «Este é o meu Filho muito amado, escutai-O» ". Deus Pai pede-nos que dediquemos a Jesus toda a atenção, porque Jesus é a suprema e perfeita revelação dada aos homens.

Não é apenas mais um anunciador da Palavra, é a Palavra definitiva, insuperável.

Hoje, não são apenas os três Apóstolos, Pedro, Tiago e João, mas é toda a Igreja, coberta pela nuvem, símbolo do Espírito Santo, que contempla o rosto de Jesus Cristo, e escuta a sua voz.

A transfiguração foi um momento muito breve e passageiro, mas, depois de Se entregar por nós, como diz S. Paulo, a humanidade de Jesus revestiu-se definitivamente da glória da ressurreição. Hoje, Jesus está na plena glória do Pai, "está à direita de Deus e intercede por nós".

Como gostaríamos já hoje de ver Jesus ressuscitado! Confiamos ardentemente que este desejo se cumprirá um dia, na vida eterna, mas, na esperança dessa hora, desejamos ser ouvintes atentos da Palavra definitiva, que é o próprio Jesus Cristo, dóceis e obedientes como Abraão, humildes, fortes e totalmente disponíveis como Maria.

Que seja a Virgem Santa Maria, pela sua intercessão, a obter-nos a graça de um olhar contemplativo, e para todos os homens a graça de um encontro luminoso e salvador com o mistério de Cristo na vida normal e corrente de todos os dias, para que esta, mesmo quando é um plano inclinado, uma encosta difícil de subir, se torne um caminho seguro para chegar à eterna morada de Deus

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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