15 de Março de 2009 - Domingo III da Quaresma

O Messias numa Cruz ?

Muitos países, entre os quais o nosso, estão muito preocupados com o aumento da violência, e procuram combatê-la com mais policiamento e leis mais severas.

Mas talvez fosse possível começar muito antes, e ajudar todas as pessoas, sobretudo os mais jovens, a perceber que existe uma «lei natural» que todos devemos cumprir e respeitar, independentemente das leis dos países e dos estados.

A grande maioria das crianças e Jovens não têm nas escolas praticamente nenhum espaço de formação moral ou ética. E muitos nem mesmo nas suas famílias encontram esta formação.

Há muitos actos de violência que seguramente são fruto desta profunda carência de formação moral. Nascem de uma falta de princípios capazes de orientar a acção concreta, uma total falta de critérios e de normas de conduta.


Sassetta, S. Tomás diante da cruz (1423)

Pessoalmente, acredito que é possível demonstrar que existe no nosso espírito uma «lei natural», que manifesta a todos o que é bom, e que se deve fazer, e também o que é mau, e que se deve evitar.

Acredito que muitas pessoas podem descobrir que existe esta lei natural, e isso poderá conduzir a uma vida mais pacífica e mais feliz.

Essa lei traduz-se por inclinações que se devem seguir, ou exigências que se devem cumprir. Vamos tentar descobrir as principais.

Uma primeira inclinação do ser humano é comum a todos os seres: na natureza, cada ser luta pela sua sobrevivência. Também em nós esta tendência nos leva a defender e a preservar a nossa existência. Portanto, tudo o que promove a vida do homem e impede a sua morte é um dever que entra no âmbito da lei natural.

Em segundo lugar, entra igualmente na lei natural o que se refere à sobrevivência da humanidade, e daí a grande importância que é reconhecida à união de cada casal, homem e mulher, e à educação dos seus filhos. Em terceiro lugar, como o ser humano tem uma natureza racional, sente-se impelido a aprender a verdade sobre Deus e sobre o mundo, e a viver em comunidade com os outros. Portanto, a aquisição do conhecimento e a coexistência pacífica com os outros pertencem também à lei natural.

Os diferentes preceitos da lei natural estão de acordo com a natureza humana, isto é, com tudo o que é próprio e característico do ser humano. Mesmo quem não tiver fé, pode conhecê-los e praticá-los.

Numa das suas obras, S. Tomás de Aquino escreve que certas acções são, em si mesmas, convenientes para o homem, porque estão de acordo com a sua natureza.

Toda a gente está em condições de compreender que o homem deve viver numa comunidade, e deve evitar fazer o que constituir um prejuízo para essa comunidade.

E também que deve utilizar com moderação as coisas de que tem necessidade para a sua vida, porque, caso contrário, elas acabarão por se tornar prejudiciais.

E que deve ter cuidado com a sua saúde e com as suas diversas capacidades físicas, e defender também as suas faculdades espirituais, não permitindo que fiquem diminuídas ou empobreci das, por exemplo por um trabalho excessivamente duro.

A lei natural é a mesma para todos? Continuando a seguir S. Tomás, podemos responder que, nos seus princípios, a lei natural é a mesma para todos, e pode ser conhecida por todos, mas é fácil verificar que as conclusões que são retiradas a partir dela em situações concretas não são as mesmas para todos. Nem todos têm a mesma visão e sobretudo nem todos têm um conhecimento recto relativamente àquilo que fazem.

Na prática, o que acontece é que, muitas vezes, por causa de maus hábitos a que as pessoas se adaptaram, e que parecem «normais» em algumas sociedades, certos vícios como o alcoolismo, o roubo, a corrupção, o aborto, a eutanásia ou os comportamentos homossexuais já não são considerados como moralmente maus, e alguns até são despenalizados ou mesmo legalizados, o que constituiu uma profunda desordem antropológica e ética.

Como a lei natural corria o risco de nunca chegar a ser bem conhecida, devido aos pecados e aos preconceitos dos seres humanos, Deus revelou aos homens, através de Moisés, os Dez Mandamentos.

Os Dez Mandamentos não são um peso, nem uma exigência para nos complicar a vida, mas são um grande dom de Deus ao seu povo, e por ele a toda a humanidade.

O primeiro teólogo da Igreja, Santo Ireneu de Lyon, falecido em 202, escreveu que "através do Decálogo, Deus preparava o homem para se tornar seu amigo e ter um só coração com o seu próximo"!

Seria interessante comentar agora cada um dos Dez Mandamentos, quer no texto bíblico, quer na versão catequética que usamos na Igreja. Ficará para outro momento...

Por agora, vamos ainda olhar brevemente para a 2ª leitura, da lª Carta aos Coríntios. na qual encontramos um dos textos mais belos de S. Paulo sobre Jesus crucificado: "Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus".

É devido a este ensinamento de S. Paulo que, na Igreja Católica, usamos o crucifixo, e não uma cruz vazia. É verdade que também se usa a cruz sem imagem, por exemplo, na Via-Sacra ou nas nossas casas, como sinal de bênção, ou para nos lembrar que essa cruz "está à espera do Crucificado que lhe falta" (S Josemaría, Caminho, n. 178), e que é cada um de nós.

Mas, nas nossas Igrejas e na liturgia, a Cruz tem sempre Cristo. Isto não significa que não adoremos Jesus ressuscitado, mas sim que acreditamos que, sem a Cruz, não teria havido ressurreição.

Jesus crucificado é a melhor representação do ressuscitado! A glória da ressurreição de Jesus resplandece na Cruz, que Jesus aceitou e abraçou como expressão e prova máxima do seu amor por nós.

À luz de alguns textos da Escritura do Antigo Testamento, talvez parecesse impossível que o Messias pudesse morrer numa Cruz. Num primeiro momento, os cristãos podem ter sentido uma certa vergonha, um certo embaraço. O Messias numa Cruz? Impossível, pensaram alguns judeus.

Mas a Cruz impôs-se, e o olhar da fé soube ver em Jesus crucificado a máxima expressão do poder de Deus e da sua sabedoria.Seja também Jesus Cristo crucificado por amor o critério último das nossas escolhas, e que à sua luz façamos todas as nossas opções de vida, pequenas ou grandes. E mesmo que por vezes essas escolhas não sejam fáceis ou sejam muito exigentes, serão o caminho para a vida e para alegria, o mesmo caminho por que Jesus passou para entrar na glória da sua ressurreição.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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