29 de Março de 2009 - Domingo V da Quaresma

Ver Jesus crucificado

O Evangelho de hoje começa com um pedido muito belo: "Senhor, nós queremos ver Jesus". Este foi o pedido que alguns «gregos» dirigiram a Filipe, um dos doze Apóstolos.

Uma primeira nota interessante é que Filipe também é um nome grego, e talvez Filipe também falasse grego, e por isso estes homens o procuraram. Como não estavam muito à vontade, foram à procura de uma pessoa que conhecesse a sua cultura e falasse a sua língua, para lhes servir de intermediário.

Será que hoje também há pessoas que nos procuram com o desejo de ver Jesus? Para que isso aconteça, têm de ter um mínimo de confiança em nós, sentir que falamos a sua língua, que estamos à vontade na sua cultura.

Este papel de intermediários cabe sobretudo aos cristãos que vivem ou trabalham nos mais diversos ambientes do mundo. É natural que haja colegas e amigos em todos os ambientes, com pedidos semelhantes aos destes gregos: «Eu gostava de conhecer melhor Jesus. Que devo fazer?»


Fra Angelico, Jesus trespassado pela lança do soldado, com S. Domingos

É interessante que Filipe foi ter com André, que também tinha um nome grego. E aconselharam-se um com o outro, porque não era habitual que Jesus convivesse com Gentios. E então os dois. André e Filipe, foram dizê­lo a Jesus.

Mas ainda mais interessante é que, a seguir, S. João não nos chega a dizer se Jesus Se encontrou com eles ou não. Tudo nos faz crer que não, e que as palavras que depois vêm no Evangelho foram apenas dirigidas aos seus discípulos, e não aos "gregos".

Porquê? Por uma razão muito forte: porque Jesus tinha ainda alguns segredos íntimos para contar àqueles que O seguiam desde o início, e que os Gentios ainda não estavam preparados para conhecer. É importante notar que este diálogo acontece durante a primeira Semana Santa da história. depois da entrada de Jesus em Jerusalém. Poucos dias depois. Jesus será crucificado!

Por isso este 5º Domingo da Quaresma, na liturgia romana mais antiga, era chamado «Primeiro Domingo da Paixão». E o Domingo de Ramos. que iremos celebrar de hoje a oito dias, e que inicia a Semana Santa, era o «Segundo Domingo da Paixão».

Estes títulos não deixam de fazer sentido, para não entrarmos de improviso na solene celebração da Paixão do Senhor, e para mais numa semana muitas vezes marcada por férias, viagens, e todo o tipo de distracções, e começarmos já hoje a prepará-la com mais consciência do que vamos celebrar.

É importante sabermos Quem é que vamos ver, na Páscoa, para podermos dizer com toda a verdade: «Nós queremos ver Jesus». E Quem vamos ver, é antes de mais Jesus crucificado e sepultado. Será que os nossos olhos já estão purificados para O ver?

Mas vamos seguir a pedagogia de Jesus, que diz aos seus discípulos: " «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado» ", Estas palavras referem-se antes de mais à morte, ou à ressurreição de Jesus?

Referem-se à sua morte na cruz, que aos olhos dos homens é vergonha e ignomínia, mas que na verdade é glória, porque aí se revela toda a intensidade do seu amor e toda a fecundidade da sua entrega.

Tal como o grão de trigo lançado à terra, a morte de Jesus "dará muito fruto". A sua morte tornará possível a salvação dos outros homens, de todos os homens, e a própria comunidade dos discípulos não "ficará só", mas viverá uma nova unidade com Ele e com o Pai.

O mundo de hoje convida-nos muitas vezes, sobretudo os mais jovens, ao divertimento até à exaustão, e muitas das suas propostas esvaziam de sentido a vida. Mas Jesus convida-nos à identificação com Ele, que é verdadeira fonte de vida.

Primeiro, Jesus diz: "Quem ama a sua vida, perdê-la-á". O falso amor do homem por si mesmo, que não lhe permite dar-se, sacrificar-se a si mesmo, acaba por o destruir. Mas "quem despreza a sua vida neste mundo", isso é, quem ama menos a sua vida, quem a relativiza, em função do que é absolutamente decisivo, quem não se agarra egoisticamente a ela, e aceita dá-la, "conservá-Ia-á para a vida eterna".

Depois, Jesus acrescenta ainda: "Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo". Tem de haver uma verdadeira identidade entre Jesus e os seus seguidores.

Não faz sentido que Jesus vá por um caminho - o dom da sua vida - e nós por outro, em que nos «defendemos» e «resguardamos».

Se O seguirmos, imitá-Lo-emos, dando a vida como Ele. E o próprio Pai honrará o seguidor fiel do seu Filho.

Mas o Evangelho de hoje revela também que Jesus sente angústia em face da sua morte iminente e cruel: "«Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora» ".

Vemos que Jesus faz a pergunta, e imediatamente responde através da submissão à vontade do Pai. E por isso pode dizer, sem mais: "«Pai, glorifica o teu nome»".

Esta é a resposta final de Jesus à resistência da sua própria humanidade em passar pela morte: a aceitação de todo o coração da vontade do Pai.

E o próprio Pai responde por fim, confirmando que toda a vida de Jesus é gloriosa, precisamente como fruto da sua obediência, como dirá a Carta aos Hebreus: "«Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l'O» ".
E este episódio termina com dois anúncios solenes.

Primeiro: "Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo". Jesus vai parecer derrotado, mas na realidade o poder de Satanás é que será quebrado, e já não será mais o senhor do mundo, a não ser daqueles que quiserem ser seus cúmplices.

E finalmente: " «E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer".

Jesus Cristo elevado da terra na cruz e depois exaltado à direita de Deus atrai poderosamente todos os homens.

Mas todos terão de ser como aqueles gregos, que vinham com um desejo sincero de ver Jesus. Vieram livremente, e acredito que depois aceitaram caminhar no conhecimento cada vez mais profundo e íntimo de Jesus.

O sincero desejo inicial, que podia ser simples curiosidade, tem de dar lugar em todos ao desejo de conhecimento e intimidade, ao seguimento generoso e incondicional do nosso Salvador.

Que este desejo seja efectivo em todos nós nesta 5ª Semana da Quaresma, que já podemos viver como a Primeira Semana da Paixão, para que na Semana Maior, a Semana Santa, estejamos mais identificados com Cristo, e vivamos o Tríduo Sacro com toda a verdade e com os mesmos sentimentos do próprio Jesus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

Arquivo