10 de Maio de 2009 - Domingo V da Páscoa

Dar muito fruto

Há algum tempo, num importante discurso à Cúria Romana, pouco antes do Natal de 2006, o Papa Bento XVI disse que a "Europa parece estar cansada, aliás, parece que se quer despedir da história".

Alguns meses depois, em 24 de Março de 2007, retomou esta ideia, e alertou: "O continente europeu está a perder confiança no seu próprio porvir". E disse mesmo: "A Europa parece estar a percorrer um caminho que poderia levá-la ao fim da história".

A Europa irá morrer? É possível. As civilizações não são como os homens, não têm uma alma imortal, não duram sempre. Umas começam, outras acabam. Acontecerá assim com a Europa?


Eu sou a videira, vós sois os ramos (ícone)

Esperamos que não, mas um dos grandes problemas que há hoje, na Europa, disse também o Papa, é que cada vez mais se põe em dúvida que existam "valores universais e absolutos". É tudo um jogo de interesses, tudo é relativo.

Com isto, insistiu o Santo Padre, a Europa está-se a negar a si mesma, está a cair numa "apostasia de si mesma". Não só nega Deus, mas nega-se a si mesma.

A Europa não só está esquecida das suas raízes cristãs, mas está também muito esquecida daquilo a que o Papa Bento XVI também chamou "a gramática da lei moral universal" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2005).

Numa língua, a gramática é um conjunto de regras que estabelecem um uso correcto dessa língua. É evidente que a "gramática" de que o Papa fala é outra, é uma lei ética ou moral que "une os homens entre si, apesar da diversidade das suas culturas, e é imutável", Aplica-se a todos, cristãos, ateus, budistas, e constituiu as regras do «jogo» chamado sociedade.

Mas hoje esta "gramática da vida social" não é respeitada. E as pessoas que fazem as leis quase se limitam a reconhecem o que existe e a oficializá-lo.

Como alguém escreveu, limitam-se "a formalizar o que já acontece na sociedade (ou aquilo que os meios de comunicação nos querem fazer crer que é assim) "(M.Introvigne).

Há casais constituídos por pessoas do mesmo sexo? O legislador toma nota, e equipara-os às famílias. Há muçulmanos que vivem em poligamia? Isso pode ser legalizado, ou talvez até se possa aplicar a Sharia (lei islâmica), como há tempos alguém muito conhecido propôs. Nos hospitais pratica-se a eutanásia? Torna-se legal, como já acontece em alguns países. Há muitos abortos? Isso resolve-se legalizando ou despenalizando o aborto, e praticando-o nos hospitais.

Mas todas estas questões não se resolvem com a simples legalização. Diante de questões éticas tão graves comosão estas, deveria ser possível recorrer a uma lei natural comum a todos os homens.

Um dos seus princípios básicos, como disse num outro discurso Bento XVI, é "o respeito pela vida humana, desde a sua concepção até ao seu termo natural, pois este bem da vida não é uma propriedade do homem, mas um dom gratuito de Deus".

Não tendo em conta a lei natural, caímos no «relativismo", O relativismo é aquela atitude "que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades", (como disse o então Cardeal Ratzinger, na Missa que antecedeu o Conclave no qual foi eleito Papa).

E hoje atingimos até a fase do relatlvismo agressivo. Quem expressar opiniões críticas em relação a certos comportamentos, pode vir a ter, em alguns países, sérios problemas com a lei.

Apesar de tudo, devemos dizer que a Europa ainda conserva o seu segredo, que é a sua história de mais de dois mil anos, e o facto de que, no fundo, é cristã. Apesar de tudo, os valores desta história ainda estão vivos e presentes.

Certamente, estarão mais vivos em alguns países que em outros.

Acredito que em relação a Portugal se poderá dizer ó mesmo que disse Bento XVI sobre a Itália, no congresso eclesial de Verona, em 19 de Outubro de 2006: que "aqui a Igreja é uma realidade muito viva e isso nota-se, e conserva uma presença profunda no meio das pessoas de todas as idades e condições" e que "as tradições cristãs estão com frequência ainda arraigadas e continuam a dar fruto".

Vemos assim que Bento XVI, por um lado, fala de uma Europa que "parece que se quer despedir da história" e, por outro lado, vê «tradições cristãs ainda arraigadas», pelo menos em alguns países. Não haverá talvez aqui uma contradição? A resposta é não.

O Papa, ao falar da crise da Europa, não disse que a Europa já estaria morta, não nos convocou para umas exéquias, mas para a cabeceira de um doente, embora seja um doente em estado grave, de quem é inútil esconder a gravidade do seu estado.

Mas é um doente que ainda tem dentro de si as potencialidades para se curar. Como um bom médico, Bento XVI, por um lado, não esconde o perigo efectivo de que esta doença se posa tornar mortal e, por outro, regista e valoriza cada pequena melhoria, cada sinal de cura.

Esta mudança profunda, esta cura do mundo em que vivemos, não depende só de nós, mas também podemos contribuir em grande medida para que aconteça.

No Evangelho, Jesus diz-nos: "«A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos»".

Como cristãos, temos que dar muito fruto. Temos que ter uma presença activa no mundo. Temos que promover muitas iniciativas: artísticas, culturais, e também de solidariedade e ajuda aos mais pobres.

Cada um tem de ser activo no seu trabalho, tem de ser bom profissional, e cultivar amizades profundas e sinceras. Cada um tem de estar atento às perguntas dos seus amigos, ou até dos seus filhos, às suas dúvidas, e não as deixar sem resposta, sem o esclarecimento da fé.

Mas para isso temos também nós de nos formar bem, de conhecer a Palavra de Deus e a doutrina da Igreja. As simples tradições não chegam, é necessário que continuem a dar fruto, como dizia o Papa.

Peçamos, por intercessão do Imaculado Coração de Maria, a graça desta grande fecundidade, para que demos muito fruto, para glória de Deus e salvação do mundo, e assim possamos encher de alegria o Coração de Jesus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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