17 de Maio de 2009 - Domingo VI da Páscoa

Um abraço de amor e de paz

Um dos pontos altos da visita de Bento XVI à Terra Santa foi o seu admirável discurso no museu onde se presta homenagem a todos os Judeus que foram vítimas do Holocausto, na 2ª Guerra mundial.

O museu chama-se Yad Vashem, o que o Santo Padre teve muito em conta, porque yad significa "memorial"; e shem significa "nome".

Dadas as recentes polémicas com o chamado "caso Williamson", esperava-se um discurso muito especial, e assim aconteceu, embora a alguns não tenha agradado.

Foi o que sucedeu com o próprio presidente do Yad Vashem, o Rabino Yisrael Meir Lau, que o criticou duramente por, segundo disse, não manifestar compaixão, tristeza e dor pela terrível tragédia de seis milhões de vítimas.


Pe. Marco Ivan Rupnik, Cristo ressuscitado, mosaico, Capela Redemptoris Mater, Palacio Apostólico, Vaticano

Além de outros aspectos, referiu que Bento XVI não mencionou os nazis como responsáveis pelo Holocausto. Disse ainda que o que mais o preocupava era a falta de solidariedade com a nação judia, que perdeu um terço dos seus filhos, no Holocausto. "Não estou a falar de desculpas, estou a falar de empatia. Pelo contrário, este texto centrou-se numa "simpatia" pela dor da humanidade".

Será que o Papa manifestou apenas "simpatia" e não "empatia"? "Empatia" é aquela capacidade de compreender o sofrimento dos outros, pondo-nos no seu lugar. Mas é inegável, no entanto, que Bento XVI manifestou esta empatia, esta sintonia interior com o sofrimento das vítimas do Holocausto.

O Papa deu todo o devido relevo a estas vítimas, cujo sofrimento permanecerá para sempre gravado na consciência colectiva da humanidade. O seu nome e a sua memória não se perderão nunca. Bento XVI disse-o de modo muito belo:

"Perderam a vida, mas não perderão jamais os seus nomes: estão indelevelmente gravados nos corações dos seus entes queridos, dos seus companheiros de prisão e daqueles que estão decididos a não permitir nunca que um horror assim possa voltar a desonrar a humanidade. Os seus nomes, em particular e sobretudo, estão gravados para sempre na memória de Deus Omnipotente".

E acrescentou ainda: "Os nomes conservados neste venerado monumento terão para sempre um lugar sagrado entre os inúmeros descendentes de Abraão. (…) Que os nomes destas vítimas não pereçam nunca! Que os seus sofrimentos nunca sejam negados, diminuídos ou esquecidos! E que qualquer pessoa de boa vontade vigie para desarreigar do coração do homem tudo o que for capaz de levar a tragédias semelhantes!"

Ao mesmo tempo, porém, o Papa quis deixar claro que nenhum povo, nem mesmo o povo Judeu, tem a primazia no sofrimento.

Como escreveu um comentador da viagem papal, Bento XVI quis inserir o sofrimento do povo judeu no drama mais vasto do sofrimento de toda a humanidade (Francesco Colafemmina).

O Papa uniu os sofrimentos das vítimas do Holocausto aos sofrimentos de toda uma humanidade que está ferida pelo pecado e que necessita do amor cristão, para que o ódio seja abolido, e a Terra possa transformar-se num jardim.

O sofrimento das vítimas do Holocausto é, portanto, um alerta para a humanidade, uma advertência para o presente e para o futuro, e não deve ser visto apenas como a tragédia de uma nação, de um limitado grupo de seres humanos.

Aquela tragédia pertence a toda a humanidade e não apenas a um único povo. E foi talvez por isso que o Papa não se referiu ao regime nazi. Quis fazer-nos entender que o mal praticado naquele momento não foi simplesmente o fruto da loucura de um ditador, mas sim do pecado do homem, da sua imperfeição, e da ferida aberta pelo mal na alma da humanidade.

Se for entendido nesta dimensão "humana", o drama do Holocausto pode ser um ensinamento para todos, e pode levar a uma mudança de perspectiva, humana e espiritual. De outro modo, será apenas uma justificação histórica para fundar a existência de uma nação e para legitimar os seus direitos e as suas ambições.

E é por isso que no centro do discurso do Papa se encontra uma referência directa e explícita ao mandamento do amor, ensinado por Jesus:

"A Igreja Católica, vinculada aos ensinamentos de Jesus e decidida a imitar o seu amor por todos os homem, sente profunda compaixão pelas vítimas aqui recordadas.

"Do mesmo modo, está junto daqueles que sofrem perseguições por causa de sua etnia, cor, condição de vida ou religião. Os sofrimentos deles são os seus, e sua é também a esperança de justiça que eles têm".

E continuou: "Como Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro, confirmo, como os meus predecessores, o compromisso por parte da Igreja de rezar e actuar sem descanso para assegurar que o ódio não reine jamais no coração dos homens. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob é o Deus da paz (cf. Salmo 85, 9)".

Aqui está lapidarmente definida a tarefa dos cristãos e em particular do Papa: "rezar e actuar sem descanso para assegurar que o ódio não reine jamais no coração dos homens".

Encontramos aqui um eco muito fiel das palavras de Jesus no Evangelho de hoje: "É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos".

Faz sentido que o Papa fale de Jesus num local de homenagem aos Judeus mortos no Holocausto? Sim, porque Jesus não é um "messias" local, que vem salvar um determinado povo escolhido, mas o Redentor do homem, o Salvador da humanidade inteira.

E é por isso que a Igreja tudo faz e continuará a fazer, para ajudar a superar os ódios e as divisões injustas, num mundo ainda não transformado pela Verdade e pelo Amor.

Foi o que fez o próprio Bento XVI até ao último momento da sua viagem.

Antes de partir, o Papa deixou um novo e sentido apelo: "Nunca mais derramamento de sangue! Nunca mais combates! Nunca mais terrorismo! Nunca mais guerra! Quebremos o círculo vicioso da violência!

Instaure-se, pelo contrário, uma paz duradoura baseada na justiça! Haja uma verdadeira reconciliação que cure as feridas".

(Concretizando ainda mais o seu apelo, o Papa pediu que "seja universalmente reconhecido o direito do Estado de Israel a existir e a gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas".

E que "se reconheça igualmente que o povo palestiniano tem direito a uma pátria independente, soberana, a viver com dignidade e a viajar livremente").

Agradecemos a Deus esta viagem histórica de Bento XVI e em particular o modo como encarnou a universalidade do olhar do próprio Cristo, o único capaz de superar as divisões mais profundas entre os homens e entre os povos, que têm a sua raiz no pecado, e de, como Rei e Senhor de todos, a todos acolher num abraço de amor e de paz.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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