31 de Maio de 2009 - Pentecostes

Despertar e desafiar

No Domingo de Páscoa Jesus tinha dito aos Apóstolos: "Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós".

E, soprando sobre eles suavemente, deu-lhes o Espírito Santo, para que fosse a sua força, a sua luz, o seu Defensor, o seu Consolador.

Cinquenta dias depois, o Espírito Santo veio como um vento forte, fez abrir as portas da sala onde os , Apóstolos estavam reunidos, e a Igreja saiu para a rua. E nada ficou como dantes.

Os Apóstolos e os seus sucessores, com os seus cooperadores, foram enviados, antes de mais, para anunciar aos homens Jesus Cristo, Salvador do mundo.

Mas este anúncio transforma a vida. Quem acredita em Jesus Cristo descobre uma nova forma de viver, uma nova alegria, uma nova forma de amar.

A vida daquele que acredita muda profundamente. E por isso os cristãos sempre desejaram partilhar com todos esta nova forma de viver, e sempre desejaram influenciar o mundo e torná-lo melhor.

E sempre souberam que o podiam fazer de duas maneiras.


Giotto di Bondone, Pentecostes (1320-25)

A primeira é esta: recordar a todos os outros homens aquelas exigências básicas e universais que garantem a dignidade do ser humano, e a que se costuma chamar lei moral natural.

Não é uma questão de fé dizer, por exemplo, que a vida humana deve ser respeitada desde a sua concepção até ao seu termo natural. Qualquer pessoa pode perceber que deve ser assim; é uma exigência da razão e da natureza, que pode e deve ser aceite e compreendida por todos: cristãos, muçulmanos, hindus, agnósticos, ateus, etc.

E só não se percebe que é assim, devido a preconceitos, pressões e cegueiras de muitas espécies. Bento XVI tem insistido muito nesta mensagem, na verdade da lei natural, comum a todos os homens. "A lei inscrita na nossa natureza é a verdadeira garantia oferecida a cada um, para podermos viver livres e sermos respeitados na nossa própria dignidade" -disse o Papa num discurso recente.

Mas, em segundo lugar, os cristãos também acreditam que, quando partilhamos com os outros a nossa fé, quando falamos das diversas realidades da vida não as olhando só do ponto de vista racional, mas também do ponto de vista de Deus, esta mos a ajudar a razão a ser mais racional!

A fé é um encontro com o Deus vivo, um encontro - escreveu também Bento XVI "que nos abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão".

"Ao mesmo tempo, porém, ela serve de força purificadora para a própria razão. Partindo da perspectiva de Deus, liberta-a das suas cegueiras e, consequentemente, ajuda-a a ser mais ela mesma" (Deus caritas est, n. 28).

E é por isso que a Igreja toma posição sobre todas as questões importantes da vida dos seres humanos: não sobre questões exclusivamente técnicas ou científicas, mas sobre questões morais ou éticas que têm a ver com a vida, a dignidade e a felicidade temporal e eterna dos seres humanos. Por exemplo: tudo o que se refere ao amor humano, ao matrimónio, à família ou à geração de filhos.

A Igreja Católica tem também uma doutrina social: e com ela não se quer sobrepor ao Estado, mas pretende, como explica o Papa, "contribuir para a purificação da razão" e deseja prestar a sua ajuda "para fazer com que aquilo que é justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, também realizado".

A Igreja não faz política, mas "tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e através da formação ética, a sua contribuição específica para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis".

A Igreja sempre soube que se distingue do Estado, e nunca quis confundir-se com o Estado. Até surgir o Cristianismo, pensava-se que o Estado era sagrado, mas depois percebeu-se logo claramente que o não era.

Quando se pretende definir a relação entre a Igreja e o Estado, parece a alguns que a melhor solução é a «separação» entre a Igreja e o Estado. No entanto, os principais documentos da Igreja não falam de separação, mas sim de independência e autonomia, e também de cooperação. É o caso da Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II (n. 76).

Também Bento XVI, numa recente visita à sede da Embaixada da Itália junto da Santa Sé, lembrou que a Igreja reconhece e respeita esta distinção e esta autonomia em relação ao Estado.

E não só as reconhece, mas "sente-se feliz por elas", porque assim a Igreja é mais livre e pode cumprir melhor a sua missão universal de salvação entre todos os povos.

Mas isso quer dizer que a Igreja renuncia a intervir na sociedade? Pelo contrário, a Igreja sabe e sente que tem o dever de intervir. E os Estados devem reconhecer-lhe esse direito.

Gostava de me fixar numa expressão muito interessante de Bento XVI. A Igreja - disse o Santo Padre - sente que uma das suas tarefas mais importantes é "despertar na sociedade as forças morais e espirituais, contribuindo para abrir as vontades às autênticas exigências do bem".

Há muitas forças morais e espirituais que estão adormecidas. Se calhar foram envenenadas... É preciso despertá-Ias.

É preciso ajudar a descobrir o potencial de verdade e de bem que tem dentro de si cada ser humano, embora talvez muito adormecido ou até sepultado debaixo de uma enorme camada de poeira ou de lixo. Essa é a missão da Igreja e de cada um de nós.

Muitos Estados pensam que não têm outra alternativa senão legalizar o aborto, facilitar os divórcios, promover a eutanásia, esvaziar de significado o casamento. É um panorama desastroso. É o fracasso total do laicismo e do positivismo jurídico.

É por isso que gostaríamos de ir muito mais longe. Não só «despertar», mas também desafiar todos à conversão e à fé.

Gostaríamos que toda a vida dos seres humanos fosse iluminada e inspirada pelo Evangelho e todos pudessem um dia, por uma livre escolha sua e seu desejo, encontrar-se com Cristo.

É claro que também gostaríamos que toda a sociedade e as suas leis fossem mais informadas pelo Evangelho. O mundo seria mais justo, e a convivência de todos seria mais pacífica.

Mas comecemos por convidar muitos - não em massa, mas um por um - a encontrar-se com Jesus. Seja o Espírito Santo a inspirar e a abrir caminho para que esse encontro possa acontecer.

E que também as portas da Igreja se abram para o mundo, como na manhã de Pentecostes, para que a todos chegue a novidade do Espírito e o fogo do seu amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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